https://youtu.be/QLCDymoJD_0
(este foi meu grito no natal de 2012)
Quisera ter um natal para vos oferecer,
um ramo de azevinho, um poema de alegria…
Mas mataram o meu natal
naquele fatídico dia. Por aonde anda esse Jesus
esquecido das crianças de Connecticut…
Quisera ter uma palavra de natal, a luz
a reluzir nas agulhas do pinheirinho, a macia voz
na fragrância do carinho, mas meu coração
dói pelo sangue a escorrer dor e iniquidade,
minha razão nega qualquer obscena liberdade!
Quisera falar de natal, mas há pássaros
a bicarem-me as entranhas, há lágrimas, há sal,
há mágoas a devorarem montanhas …
Na minha voz estrangulada
há um novelo de silêncio… Ou de raiva!
Quisera uma estrela a sorrir no verde da rama,
mas minhas mãos apenas colhem a dor,
o drama. Não encontro sentido
para a morte antecipada,
não encontro raciocínio para arma disparada.
Com aquelas crianças morreu o meu natal.
Não me levem a mal, dentro de mim
o amor não se regenera tão depressa,
dentro de mim tudo dói,
para que se esqueça a morte neste poema.
Sim, meu poema nega o poder, porque meu grito
não entende a falsa igualdade duma bandeira.
Para mim há uma estátua no céu de Manhattan
a dominar a ilha num jogo de brincadeira.
Roubaram-me a ternura deste natal.
Sem ternura o que me resta?, Apenas o mal
semeado pelos jardins…; são armas as flores de jasmim,
é loucura a bala assassina, permitida!...
Por aonde anda esse Jesus
que também esquece a criança palestina?
Jesus não pode renascer permitindo
o morrer da inocência.
Quisera ter um natal para vos oferecer,
porém, hoje, apenas vos deixo a sua ausência.
Bernardete Costa (2012)