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Quinta-feira, 21 de Junho de 2018

O TEMPO PASSA...

O tempo passou, este dia mais um passou, este ocaso da tarde, um quase efémero tempo que ficou no eventual registo da fotografia. Se o olhar atento e distraído pelo horizonte dele se apercebeu, e se lembrou da máquina a tiracolo que, como se fora um apêndice de braço, registou o quebranto do dia a pousar a cabeça no mar.
Porque este registo de me ouvir caminhar a procurar uma manhã diferente, sempre que visto a euforia do sol no verão há tanto esperado, grafa-se no sorriso travesso com que escondo o meu mundo armadilhado.
Este meu mundo feito de dias vulgares, de obrigações contrariadas. É verdade, este dia passou igual a outro dia, banal, com urgências comezinhas, como um telefonema que tive de fazer para resolver coisas: a empregada desnorteada na casa que se trancou com a chave no interior, o alarme que soou sem motivo de intrusão a não ser a invasão do sol pela vidraça, o jardim onde as flores se atropelam por entre a relva mal cuidada.
Tudo vai mal na casa, há alturas em que tudo vai mal. E a casa desgosta o coração do espanto, do deslumbramento.
A casa dá muito trabalho, assegurar o funcionamento duma casa dá muito trabalho.
Cheguei mesmo a pensar viver no monte numa tenda; ir buscar água ao ribeiro, procurar alguns ramos de castanheiro ou pinheiro, talvez me seja mais fácil, uma fogueira que me aquecesse, e ali prestes adormecesse sem esperar mais nada a não ser que o dia passe a seguir a outro dia e mais outro nasça sem pedir que nasça, e assim o tempo passa, e assim sinta o eu que mais desejo, na liberdade do compromisso. E persisto neste meu jeito de sentir pelo tempo, como um voo de pássaro disperso no horizonte que logo retorna vivo e deslumbrante ao nascer da alba.
Há uma alegria que não sei explicar. Uma sensação de tranquilidade absoluta neste meu caminhar a esmo, na despreocupação dos passos e das vozes dos passos, como uma fuga às rotinas e às normas, à maledicência putativa da bondade. O que quer que isso seja.
Eu sei, há quem se ria, há quem pense que sou louca, porque pretendo o esquecimento do comummente estabelecido, a lançar palavras para o ar, a tentar compor o possível arremesso de uma poesia, que pode ser flor, verde, sol, mar, ou também pedra de revolta e insatisfação.
Mas chegada a casa a poesia é nada, apenas palavras soltas que nem o vento acolheu. E de novo esse eu a pousar os pés no chão, a recear perder esse chão que me sustém e faz de mim mais um outro qualquer. Um eu que repudio na sua vulgaridade, todavia um eu amado, desejado. Porque a casa. A premência da casa.
Valha-me o céu, valha-me o céu, grita a avó a salvar o queimado do refogado.
Eu bem dizia. Para que serve a poesia?
Uma casa dá mesmo muito trabalho...

publicado por Bernardete Costa às 14:14

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