https://youtu.be/QLCDymoJD_0
No meu tempo…
Que pérfido começo para uma narrativa quer se trate dum conto, duma crónica, quer dum artigo de opinião…
No entanto, convenhamos, esta noção temporal empurra-nos para uma determinada ação situada num tempo mais ou menos preciso, o meu, o da minha geração, aquele em que se alapam as memórias mais idealistas, mais líricas, mais coloridas, mais inocentes.
Obviamente, reconheço que todos os tempos são tempos com grandes similitudes.
Ainda assim, a tentação de aqui espelhar algumas diferenças é enorme.
No meu tempo sofria-se de solidão que se comprazia nas páginas dum livro, "morria-se" de tristeza por amor… e vivia-se loucamente, minuto a minuto, sugando até ao tutano o que de bom a vida ofertava - o sexo era o objectivo romântico a concretizar, nunca o princípio para a gravidez dos afetos.
No meu tempo, quando a solidão pesava, reunia-se em grupos de café, em tertúlias, em bailes, onde os corpos se enlaçavam e consentiam emoções e sensações idílicas, quantas vezes consentidas, quantas vezes proibidas.
No meu tempo as pessoas prezavam estar juntas. Trocavam experiências, conhecimentos, vivências, deliciavam-se com música que embalava o corpo e a alma. Tinham ideias, eram voluntários na construção dum mundo melhor. A idealidade, ainda que remetida ao espartilho da utopia, orientava-lhes os passos, norteava-lhes a vida.
No meu tempo vivia-se com pouco, o pouco nos satisfazia, o ser dominava o ter.
Hoje a solidão curte-se em bares e discotecas exíguas e fumacentas sob o som manuseado pelos DJS, numa asfixia de espaço e de ar; lugares altamente perigosos, onde os corpos suados exalam hormonas a transpirarem shotes e cerveja. Vive-se… e até se morre nestas tumbas à superfície da terra. E é-se feliz “micando” companhia por uma noite.
Hoje não se conversa, grita-se para que algo escape por entre o inferno duma música metálica e composta em computador. Grita-se e gesticula-se no vazio ideológico. Vive-se para o sexo destruindo a sua beleza, banalizando-o.
Hoje encarreira-se pelos lugares in frequentados pelas celebridades das revistas cor-de-rosa e esboça-se sorrisos dissimulados para a fotografia.
Hoje sofre-se de uma solidão alienada. Homens e mulheres procuram-se como sempre o fizeram, ou não fossemos todos bichos, mas camuflando o ser numa agonia de ideias, num vazio de alma, acorrentados ao domínio do supérfluo, do imediato, da conquista fácil…
Hoje dispensam-se praticamente os livros e as palavras estão em demodé. Tudo o que faz pensar é um alvo a abater!
Sendo certo que hoje os tempos são outros, no entanto com aprazimento o digo em relação às novas tecnologias, que abriram outros horizontes, à escolaridade obrigatória até ao décimo segundo ano, ao serviço nacional de saúde, à facilidade em nos locomovermos rapidamente dum lado para outro... ; tudo é mais fácil de conseguir (o simplex ainda vigora, creio...), tudo se encontra ao alcance da mão usando um computador e a Internet, e os serviços públicos respondem rápido e eficientemente (malgrado alguma burocracia que alguns mais papistas que o papa se empenham em fazer prevalecer) e muito mais que em muito nos facilita a vida.
Hoje chamam-me cota. Mas sou infinitamente feliz por o ser e ainda deter alguma capacidade de lógica. Sou uma espécie em vias de extinção. Vivo numa solidão de livros, de palavras e de poucas amizades. Porque ainda não desisti de ser eu própria. Porque quero ser eu a puxar pelos cordelinhos da vida que traço…
Pelo menos esforço-me.
Bernardete Costa