https://youtu.be/QLCDymoJD_0
Minha mãe nunca me disse, gosto de ti, amo-te. Minha mãe nunca me disse, és bonita. Nem eu lhe fiz chegar ao coração o que não havia aprendido. O que ela não me havia ensinado. Somente a segurança que dela emanava a dominar a casa, que procurava no seu jeito um pouco descuidado manter arrumada, me fazia pronunciar com as palavras escondidas no coração a doce tranquilidade de me saber protegida no seio morno, onde porém nunca me aninhei. Nem da sua boca algum dia ouvi, vem ao meu colo, pousa aqui a tua cabeça. Mas a sua inegável presença surgia sempre que no medo da noite chamava, Mãezinha, tão baixinho com receio de a acordar, e ela vinha.
Minha mãe acordava sempre que “Mãezinha” eu proferia tão baixinho com receio de a acordar, e, com pés de lã, que tens; a sua voz ciciada era o colo que nunca tive, era o mel dum abraço que nunca senti adoçar-me o coração.
Só muito mais tarde, minha mãe de novo criança me reconheceu criança, me estendeu os braços, me acariciou os cabelos, dizendo, que bonita és, dá-me um beijo.
Minha mãe tão menina, também sem carinho de mãe, vergada à seda dos seus cabelos brancos, livre das doutrinas e preconceitos que a fizeram mulher rude - os gestos de afeto não são recomendáveis, declarava pela boca do padre que a ouvia em confissão. Minha mãe agora menina abria os braços, oferecia-me as faces, dá-me um beijo, afagava-me os cabelos, aconchegava-me no colo, e falava, minha menina linda, como gosto de ti!