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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018

MEU AMOR

(porque é fevereiro...) 

 

casal-apaixonado-silhueta.jpg

 (imagem da net)

Eu sei que não devo, não tenho mais o direito, talvez não te seja mesmo agradável ao veres-te assim tuteado. Mas tu foste o meu enorme amor, entre tantos outros. Sei até que sentimos um idêntico amor e como tal pensamos na eternidade do nosso afeto. Como em todos os amores que preenchem o corpo e a alma, que dão pleno gozo ao corpo e à alma, tu eras a minha alma gémea, eu era a tua alma gémea, “amor da minha alma”, lembras-te?

Tu, um assumido pragmático, um descrente do amor piegas, porque os amores são todos piegas ou ridículos, tu a sorrir incrédulo a essa ternura avassaladora, a esses ciúmes contra os quais lutavas, tu guerreiro espadachim a lutar contra a razão, a razão vencida pelo amor, pela grandiosidade do teu amor por mim, tu sufocado pelos sentidos ardendo nesse “fogo que arde sem se ver” que te tomava por inteiro, te fazia duvidar da tua sanidade mental.

Um amor onde o prazer caminhava paralelo com a dor, porque as saudades, meu amor, as saudades de nós eram um ferrete cravado na carne, na necessidade imperiosa da presença.

Tu és o meu amor passado, presente e futuro, por mais que reconheça que tudo acabou, como tudo o que é eterno finda, algo em mim se agarra a um tronco, cola-se como parasita sugando o sangue das palavras e das carícias que trocámos, cobra esse mago e dorido tempo de ternuras e lágrimas e risos… e expectativas e desilusões. E nestas te deixaste ficar encurralado numa situação insuperável; tu que eras o “meu príncipe encantado” viraste sapo feio, precisamente ao invés dessa encantada história de magia e deslumbramento.

Sim, eu sei que dirás esgrimindo a lógica duma razão que me apunhala o sonho: “O nosso amor foi um episódio tão espontâneo e imprevisto na nossa vida, que não se compadece com o fardo duma obrigação e acabará por ceder ao peso do hábito”. Entendi, separar-nos-emos para que o nosso amor sobreviva.

Mas e as cartas, meu amor, cartas que não elimino do esconso duma pasta encriptada no meu computador. É verdade, falta-lhes a fita de seda envolvendo-as, os tempos são mesmo outros, apenas o amor é de todos os tempos; e os dizeres, meu amor, persistem no ridículo como nas cartas da minha avó, em papel de linhas, atadas por um laçarote, um monte de palavras de amor, ridículas, comuns, onde os risos, as lágrimas campeavam como papoilas a arder num prado.

Deixa-me dizer-te mais uma vez, vieste pelo vento, vieste pela maré, vieste pelo tanto desejar de ter-te; eras o sonho de adolescente, encarnavas o espírito duma intelectualidade que me desafiava e me contraditava.

Não sei se aportaste ao meu cais em que dia, mês ou ano. Chegaste e isso me bastou. Talvez tenhas mareado pelo meu mar trazido pela nave dum marinheiro, talvez emergido dum romance de cavalaria, talvez somente cravado pela seta de Cupido. Apenas sei que eras nuvem, aragem, ave, jacinto do meu horizonte por reinventar; um por-de-sol em fim de tarde de estio, uma bruma humedecida nas chuvas sobre o laranjal.

Sei que vais achar esta carta ridícula, mas todas as cartas são ridículas, como o nosso lamecha Pessoa o disse e ficou registado nas cartas de amor à sua Ofelinha “ beijinhi…inho pá minha bebé”. Também nós ridículos, novamente adolescentes, num desvario quase burlesco de abraços e beijos e mãos dadas – tão ridículos a pretender a utopia da eternidade do amor - ou então velhos ridículos sem noção das conveniências, só nos vemos, só nos sentimos, só nos penetramos.

Meu amor, lá estou eu a persistir no “amor”, será este um vício de linguagem, ou um defeito do hábito, esta pieguice a permanecer, meu amor; mas que fazer se tu permaneces armadilhado nesse tempo de memórias de “amor eterno”. As memórias a salvarem-me, a condoerem-se de tantas outras memórias, ainda que doam, vidros e lumes a rasgarem-me o corpo e a alma, a alma que contigo reencontrei, e novamente perdi quando te perdi.

Tu, meu amor, quando foste assaltado pelas dúvidas, quando sentiste a intranquilidade do nosso afeto perante as vicissitudes da vida, escolheste as rotinas mornas duma vidinha sem percalços, sem insónias, sem a falta de apetite que te emagrecia e descoloria as faces; tu, meu amor, reencontraste um outro amor tão grande como o meu, mas não tão louco, nem doente, nem exigente assim, e fugiste de mim e eu fugi de ti para eternizar este tão irracional e desvairado amor.

Muitos beijinhos, meu amor lindo, meu doce de ambrósia, meu herói…

(Desculpa este chorrilho de saudades, tantas.)

Sempre,

a tua bebé

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 18:42

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2 comentários:
De Anónimo a 14 de Outubro de 2018 às 16:44
Lindo! E mais não digo.
De Bernardete costa a 16 de Outubro de 2018 às 16:35
Obrigada, amigo, pelo pequeno mas, penso, sentido comentário!
Abraço

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