https://youtu.be/QLCDymoJD_0
Vivo bem. Comodamente sentada na contemplação, artista medíocre, sem pretensões, escrevinhadora acomodada ao comodismo que não salva humanidade.
“ O sol quando nasce é para todos”, o meu até me pertence ainda que filtrado pela vidraça na manhã enevoada.
Pertence-me este sol, a luz, a cor, a suprema fragrância exalada pelas gardénias.
Repito, vivo bem. Todavia, menos bem quando a minha comodidade me permite o tempo de pensar para além do ocaso.
Por vezes, o ódio toma conta de mim, aloja-se-me nos ossos e sai pela boca em suspiros de raiva ou, numa cobardia maior, pela cobardia das palavras silenciadas.
Um dia destes li em algures que somos feitos de passados. Isto assusta-me. O passado pesa muito nos ombros, não lhe podemos fugir; desasados, o voo é-nos interdito, por mais que o tentemos copiar literal e metaforicamente. E a minha escrita está prenhe de passados…
O certo é que pela escrita me indigno, comodamente mergulhada no voo utópico que atravessa a vidraça do café Vermelhinho.
E irei morrer comodamente medíocre, nesta assunção de passados inglórios, sobreendividada no presente por uma descoragem de humanidade. E aí, sim, definitivamente, indignada de mim mais do que dos outros.