https://youtu.be/QLCDymoJD_0
(Tela do pintor Fernando Rosário)
Aqui se diz da memória dum rio ancorado
na faina das gentes, do punho forte do pescador
na tessitura intrincada das redes,
dessas águas na moldura da vida … e da morte,
da aurora fundeada no imprevisto do mar
onde o momento é uma crisálida de névoa.
Pintam-se silêncios de esperas
e o tempo geme na carícia dos dedos; mas o rio
redentor dança sob a chuva e o sol
e como o amor é genuíno deslumbramento
Aqui se diz das mulheres antigas,
beatas no fervor das matinas a invocar
a senhora dos mareantes:
essas mulheres amantes a suspirar preces de amor
num enleio de negras mantilhas e de vento;
aqui se diz do alvoroço das crianças,
atordoadas aves ao festim do chamamento
Aqui, nada mais se diz; nesta tela o tédio o medo
e a ira são razões efêmeras e a vida
é bebida apetecida logo que o voo da gaivota
esboça iniciais de barco a abraçar no horizonte
a mancha de tinta das águas
… para só depois aportar ao cais
onde se pode placidamente ser feliz.
Bernardete Costa