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Sábado, 13 de Outubro de 2018

AFONSO E A DIABETES

 

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AFONSO E A DIABETES

Eu estou cá convencido que estes meninos todos sofrem da mesma doença que eu.

A Dr.ª Benvinda, acho tanta piada a este nome, diz que é especialista na doença que me apanhou o sangue. Dito duma forma mais científica - gosto de usar palavras corretas e de jeito - tenho Diabetes, que é assim uma doença que não me deixa comer à minha vontade, nem aos outros meninos aqui sentados; nem todos estão sentados, uns até correm, saltam pelas cadeiras, empoleiram-se nos cortinados, que coisa feia!

Eu sou o Afonso, é bonito dizer o nome quando falamos com alguém. E dizem que os meus olhos são grandes, de olhar muito redondo de tanto me espantar com as coisas. Agora estou focado no branco da sala. Tanto branco até aleija. Mas sou eu a dizer, e sei que nem sempre penso igual aos outros meninos. Igual às outras pessoas. Somos diferentes, é o que é!

Disse até à Dr.ª Benvinda: - sinto-me perdido no meio de tanto branco. Como sou de pele branca, por vezes, tenho dificuldade em me reencontrar.

A mamã diz que eu sou esquisito ainda que inteligente. Ser inteligente agrada-me. Sou como o meu papá. Ele tem um QI elevado. Ainda não sei bem o que é isso. Só sei que é inteligente. Mas hei de descobrir. Quando for grande quero ser descobridor de terras, mares e, claro, de QI.

Hoje estou sozinho. A mamã aproveitou e foi fazer compras ali perto. Eu fiquei à espera da Dra. Benvinda. Ela não demora. E pede desculpa quando se atrasa um bocadinho. É muito educada. Como eu. Eu digo sempre obrigado, bom dia, até amanhã, boa noite…; essas coisas bonitas que os meus pais ensinam e eu também acho bem bonito. São frases redondinhas. Frases salpicadas com açúcar. Entendem-me?

É mesmo engraçado. Não posso abusar dos açucares e digo palavras redondinhas cheias de açúcar.  Deve ser uma espécie de compensação. Isto diz a avó, que gosta tanto de palavras, até já escreveu contos e poemas. Um poema tem mesmo o meu nome. Ah, o meu nome também é redondinho: Afonso. Não vos parece? Agora se está polvilhado com açúcar depende de mim, eu sei. Por vezes irrito-me e fico azedo. Mas passa depressa. Basta a mamã ou o papá ou a avó pedirem-me um beijo e um abraço e eu fico como o gato do Rui, o meu vizinho: quietinho à espera de me lambuzar com carinhos.

 Dizem que as crianças que têm esta doença irritam-se mais do que os outros meninos. Mas eu duvido. Vejo tantos meninos que perdem a cabeça por tudo e por nada…; se calhar deviam contar até dez, como diz a minha avó. As avós sabem muito da vida, não acham? Não admira, têm muitos anos!

Não estranhem, eu falo mesmo assim, quase como um adulto, por isso os meus papás dizem que sou inteligente. Um dia deste a minha avó disse a palavra “revanche”. Perguntei o que queria dizer. E não pensei mais nela.

Há meninos e até muitos adultos que têm pavor a picadelas. Eu sei bem que a dor está na nossa cabeça. Não é a piquinha que dói. É a cabeça que pensa que vai doer.

Mesmo assim, um dia, a Dr.ª Benvinda magoou-me. Um daqueles dias em que estamos mais mimalhos, acontece muito com crianças e até com adultos. Nesse dia senti a piquinha e doeu-me a sério! Zangado disse à médica: revanchista!

O que ela riu! O riso dela é bonito. Por isso eu esqueci a picadela e ri com ela. O meu riso é contagioso. E acabamos todos a rir no consultório. A médica até contou aos outros meninos e aos outros pais. Ficaram a olhar para mim divertidos… e muilo respeitosos!

Há meninos aqui na sala que choram. Alguns até berram! Que coisa feia! Eu sei, alguns são bem pequenos. Compreendo, as crianças pequenas mal sabem falar. E se tiverem dores, fome ou estiverem sujinhas, como não conhecem palavras, choram. São as frases delas, percebem?

Eu tenho pena destas crianças. Algumas são meninas. Mas mais meninos. A médica diz que é assim. A diabetes parece escolher o sexo masculino. Ou seja, se eu fosse uma menina não teria esta doença, quem sabe...   

Porque será? Eu bem pergunto à Dr. Benvinda. Mas ela diz que a medicina não tem resposta para muita coisa. Um dia, talvez, penso eu, que estou atento a certas coisas. Como aquela dum tal Galileu que quase morreu queimado por afirmar que a terra é redonda. Hoje toda a gente sabe que a terra é redonda. Está mais que provado. Por exemplo: o homem foi à lua e viu de lá a terra tão redondinha… A minha avó até diz que a imagem da terra vista da lua é como um poema que ela gostaria de escrever.

Agora vou deixar-me de coisas. A Dr.ª Benvinda chegou e sei que vai falar muito comigo e com os meus pais.

- Uma seca, o que nos vai dizer - digo logo, um pouco esquecido da minha voz açucarada, voz de Afonso, já vos expliquei.

- Sim – diz a Dr.ª Benvinda -, mas uma seca que te vai permitir viver muitos, muitos anos. Outra coisa, como tens picos de descida brusca de açúcar no sangue, tens de estar atento à sensação de desmaio. E nunca deves estar muito tempo sem comer.

Entrega-lhes uns aparelhos, uns livros, uns papéis onde o meu pai terá de escrever diariamente os meus valores de glicemia. Esta palavra é um bocado dura. Não gosto muito dela. Só lhe acho piada porque termina em “mia”. Lembra-me o gato do Rui, já vos falei dele. Mete-se debaixo do meu sofá e fica lá escondido durante o dia todo. Eu gosto dele. Por isso nunca digo à mamã que ele fez o seu esconderijo debaixo do sofá. Somente, à tardinha, com o silêncio almofadado nas patinhas, lá vai ele para a casa do dono.  

Agora vou-vos contar um segredo: Sou uma máquina trituradora. Gosto tanto de comer. E de tudo!

A médica ainda diz:

- Deves respeitares as horas das refeições, ter cuidado com os alimentos que podes comer, e com as quantidades. Mas, acredita, depois de habituado, não custa nada…

- Custa sempre um bocadinho. Porque eu tenho sempre apetite – respondo dum jeito muito doce. Eu sei que a Dr.ª gosta muito de palavras saborosas. Não admira, é mulher!

Tudo o que acabei de dizer é verdade. Penso mesmo assim.  O meu maior problema é ter um grande apetite. Ao que parece é próprio de quem tem a diabetes. E nem sempre cumpro direitinho com o que a médica e os meus papás me pedem. Agora, digo-vos um segredo, não vale contar: então vou à caixa das bolachas, ao frigorifico… e meto qualquer coisa gostosa à boca.

(continua)

 

BERNARDETE COSTA

publicado por Bernardete Costa às 19:14

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