https://youtu.be/QLCDymoJD_0
A minha janela não é bem uma janela,
caixilharia, vidro e reflexo de luz e sombra;
a minha janela abarca o mundo, o rio, a cidade…
De repente, dá-lhe ares de gente e põe-se a sonhar:
quem me dera colher cravos no jardim,
semear rosas na primavera,
soletrar rimas, ser som de guitarra em mim…
É verdade, minha janela é muito especial.
Quando neva, realidade estranha a salpicar o rio,
ela chora e ri como criança
e faz-se farrapo e vapor húmido a enrolar a trança;
depois se chove, minha janela cora de vergonha,
porque na vidraça unicamente vê quem passa
a querer namorar com ela.
Minha janela não é somente uma janela.
Como qualquer mulher cobiça a beleza das garças,
a alegria dos pássaros, a leveza dos pardais…;
depois, enternece-se, e feliz, envolta na bruma,
esfrega os olhos de vidro despedindo-se da noite
com sorrisos travessos de mulher de rua.
A minha janela é feminina e muito mulher:
de larguras e amplidões tais
que pela cintura tudo abarca: chuvas,
sois, luares e o rio sonolento a terminar o verão;
e não sendo uma qualquer,
mas uma janela sentimental, ainda que enrolada
em desejos bem disfarçados, a minha janela,
é assim, como direi, atrevida, gaiata:
chama pelo sol logo de manhãzinha,
com ele se deita na cama,
e no vale de lençóis e de fogo
rolam em ternuras desmedidas
brincando às escondidas…
A minha janela é um mundo de água,
é um cardume de peixes logrando o anzol,
e na sua grandeza muito convencida,
até diz estar noiva do sol!
A minha janela, não sendo bem uma janela,
é como eu: corpo, alma e inquietude.
Mas é muito mais feliz;
nela nada fica no registo da vidraça,
porque logo que o pano passa,
a janela é simplesmente janela, amplitude
serena e estática.
Bernardete Costa