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Quarta-feira, 18 de Julho de 2018

A FONTE DAS VIRTUDES

 

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A FONTE DAS VIRTUDES

 

Estava-se num tempo antigo. Naquele tempo em que os moiros, vindos do sul das terras da Ibéria, avançavam pelo norte da península aí se instalando à procura de riquezas várias. Sendo um povo guerreiro, todavia de política comunitária pacifica, até porque mais rendosa para os seus objetivos de conquista. Acima de tudo permitiam a liberdade religiosa dos povos subjugados. Deste modo, os autóctones da Ibéria e este povo muçulmano estabeleceram relações, pode-se dizer, de alguma cordialidade. E muitas foram as histórias de amor nascidas entre estas gentes, tais como germinam esplêndidos frutos em árvores enxertadas.

Certa vez uma linda moira foi matar a sua sede a uma bica de água. Debruçou-se sobre a nascente e, com as suas palmas níveas como porcelana, fez uma concha que levou aos lábios rubros e sequiosos.

Um lenhador, que por ali andava nas suas tarefas de amanhar árvores, viu a bela e copiosa rapariga e logo foi espreitá-la. De nada se apercebeu a moira, e como a canícula do verão a incomodava, depois de saciar a sua sede, entreteve-se a refrescar as pernas rijas como madeiros num gozo ingénuo e pueril, não se apercebendo que era alvo da concupiscência dum homem que devassava a sua nudez.

O lenhador cobiçou aquele corpo que previa sinuoso e rijo como se fora um desejo extremo de fome e sede.  Durante uns dias a procurou junto da fonte. E a carne tenra da jovem mexia com o seu corpo de macho predador. Um dia, demasiado excitado para se mais conter, chegou-se à moira tentando subjugá-la com os braços grossos e nodosos como troncos antigos de árvores. A rapariga gritou, gritou, esbracejou, mas naquele isolamento ninguém a escutaria. Teve então uma ideia: como uma mansa pomba olhou-o nos olhos gulosos e disse:

“Peço-te, não me roubes a virtude. Porque ta darei com agrado se me fizeres a vontade.”

O lenhador, prevendo a cedência da jovem rapariga e quem sabe a retribuição ao seu amor tresloucado, travou os seus ímpetos libidinosos, e interpelou:

“Que pretendes que faça?”

“Apenas que me escutes a história que tenho para te contar. No fim, podes amar-me que eu também te amarei.”

O lenhador, expectante com tal fortuna de um amor correspondido, sentou-se a seu lado e escutou:

“Era uma vez um povo vindo de muito longe, que havia chegado a uma aldeia do norte dum jovem e pequeno país. Uma moça desse povo vivia escravizada pelo senhor mais poderoso da tribo a que pertencia. A rapariga fora-lhe vendida pelo pai em troca de certos favores. Diariamente, ela receava ser chamada à tenda do amo para lhe satisfazer, juntamente com outras escravas, os seus prazeres carnais. Assim, ela desaparecia ao fim do dia em direção a uma fonte. E por ali permanecia até o seu senhor adormecer nos braços de outras escravas, esquecendo-a.

“E esse senhor esqueceu-a mesmo? Não prestava a moira, por certo…” - acrescentou o lenhador já acalmado nos seus intentos e curioso com o desfiar da narrativa.

A moira não respondeu e continuou:

“Tantas vezes foi à fonte que um dia foi vista por um lenhador.  Este, excitado pela nudez que a moira, imprevidente, deixara transparecer aos raios da luz entardecida, preparava-se para se lançar sobre ela como fera esfomeada.

A moira desesperada rogou a todos os seus deuses que a transformassem numa corrente de água. Perderia a sua forma de bela mulher, mas fugiria dos braços que ameaçavam destruir o seu bem mais precioso - a sua virtude”.

O homem, desconfiado, interrompeu:

“Deixa-te de estórias, essa é a tua história. Apenas nunca te transformarás num fio de água, porque não acredito em deuses…”

“Espera, falta o fim da história.” -  A moira prosseguiu:

“O certo é que os deuses escutaram a moça. Tão rápido, como o momento dum suspiro, ela viu-se transformada numa torrente de água fresca a sair da bica da fonte.

Nesta altura, o homem já aliciado pela voz musical da rapariga e condoído pelo seu destino trágico, apaixonara-se perdidamente. Preparava-se para a tomar nos braços com ternura, quando por entre eles um ribeiro cristalino se escoava perdendo-se sob a relva que cobria a terra.

“Não!” -  Gritou desesperado. E implorou aos deuses como se neles acreditasse:

“Suplico-vos, transformem-me num rochedo! Poderei assim acariciar este fio de água, a minha adorada moira, que sobre mim correrá enquanto recebe os beijos deste amor tão puro que fez nascer no meu coração.”

Ainda hoje, naquela aldeia, se pode ver um penedo a cobrir docemente um fio de água que, sem parar, brota daquela fonte chamada pelas gentes do lugar, a Fonte das Virtudes.

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 20:56

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