https://youtu.be/QLCDymoJD_0
Tantos...
Tantos frutos do calor das sementes, tantos ramos das mesmas raízes. Somos nove a procurar o sol no calor dos afetos, tantos a desvendar o mundo que nos cabe. Essencialmente, esse mundo partilhado por risos e brincadeiras e partidas e traquinices…Nove a fecundar vida, a perpetuar no abraço do sangue a mesma origem que nos une.
Por vezes somos nove um pouco distantes, mas numa distância cada vez mais curta, distantes nesse perto de ternura que se torna urgente. Somos nove no presente mais unidos do que nunca. Porque o futuro assusta, o arrancar duma raiz, a morte duma semente…; sombras que perseguem a luz-vida no imprevisível devir, porque até toda a luz projeta a sua sombra.
Houve um tempo de preferência, dois a dois se fazia maior união, maior cumplicidade. Uns pelas artes, pela ciência, outros pelos passatempos – nem sempre muito compreensíveis e aceites pelos demais –, outros ainda pelos diversões partilhadas. Sempre juntos pelo amor, esse amor tão parco de manifestações, mas ali ao lado pronto a sarar feridas.
Hoje o presente marca mais ainda. Olhamos os rostos uns dos outros, e essa árvore de que fazemos parte já evidencia sulcos na pele, uns mais profundos, outros poucos revelados ainda. Também as idades divergem, naturalmente. Mas dizem, todavia o tempo a ranger ossos e a pele atraída pela traiçoeira gravidade, somos um ramalhete de bonitos irmãos. Sim, sermos filhos de quem somos, dessa árvore frondosa e bela, fez-nos sem grande feiura, e permite-nos a vaidade de abençoar essa árvore que nossos pais semearam.
O espetro da doença e dum qualquer maléfico imprevisto ameaça-nos como uma espada de Dâmocles. Um dia, no tempo que se avizinhará, restará apenas um ou outro frágil momento a persistir nas lembranças, abrigado da dor na clausura dos nossos corações, como uma dádiva divina.
Um dia morreremos aos poucos, como feridas que não cicatrizam mais. Um dia dir-se-á que o destino, já cansado do tempo que nos ofereceu, escreveu a data da partida. Ou ditou o momento adiado. E choraremos como os frutos excessivamente maduros pendentes da ramagem. Ou choraremos com os olhos cegos e secos da idade, sempre que o frio cúmplice da ausência apagar as memórias da casa, das alegrias, das lágrimas… e das inúmeras sementeiras que florescem na matriz do mesmo sangue.
E como nossa mãe, saudaremos os pássaros a cada manhã com risos traquinas da infância.
Bernardete Costa
Minha mãe nunca me disse, gosto de ti, amo-te. Minha mãe nunca me disse, és bonita. Nem eu lhe fiz chegar ao coração o que não havia aprendido. O que ela não me havia ensinado. Somente a segurança que dela emanava a dominar a casa, que procurava no seu jeito um pouco descuidado manter arrumada, me fazia pronunciar com as palavras escondidas no coração a doce tranquilidade de me saber protegida no seio morno, onde porém nunca me aninhei. Nem da sua boca algum dia ouvi, vem ao meu colo, pousa aqui a tua cabeça. Mas a sua inegável presença surgia sempre que no medo da noite chamava, Mãezinha, tão baixinho com receio de a acordar, e ela vinha.
Minha mãe acordava sempre que “Mãezinha” eu proferia tão baixinho com receio de a acordar, e, com pés de lã, que tens; a sua voz ciciada era o colo que nunca tive, era o mel dum abraço que nunca senti adoçar-me o coração.
Só muito mais tarde, minha mãe de novo criança me reconheceu criança, me estendeu os braços, me acariciou os cabelos, dizendo, que bonita és, dá-me um beijo.
Minha mãe tão menina, também sem carinho de mãe, vergada à seda dos seus cabelos brancos, livre das doutrinas e preconceitos que a fizeram mulher rude - os gestos de afeto não são recomendáveis, declarava pela boca do padre que a ouvia em confissão. Minha mãe agora menina abria os braços, oferecia-me as faces, dá-me um beijo, afagava-me os cabelos, aconchegava-me no colo, e falava, minha menina linda, como gosto de ti!
NOITE CULTURAL EM ESPOSENDE
Ontem, 14 de outubro, sexta-feira, o bar Quanto Baste recebeu no seu espaço interior, intimista e acolhedor, a exposição “A Alma das Gentes” do pintor Fernando Rosário, assim como poemas de Bernardete Costa alusivos à sua obra.
Este evento contou com a colaboração especial de José Felgueiras, amigo e conterrâneo, que explanou sobre esta terra de rio e mar e suas gentes ao seu jeito tão peculiar e agradável.
As belas vozes de David Morais Cardoso e Clara Oliveira, convidados queridos da autora, deram vida à poesia de Bernardete Costa.
Momentos sublimes de meditação sobre a vida… e morte destas gentes, que desde tempos antigos vivem e sobrevivem sob as venturas e inclemências do rio Cávado e do mar que o recebe em seu seio de sal.
Aqui pretendo deixar os maiores agradecimentos a todos os colaboradores que contribuíram para a concretização deste evento, assim como agradecer a todos os que, numa noite chuvosa e a pedir o conforto de lar, se dignaram estar presentes.
Abraços para todos!
(Tela do pintor Fernando Rosário)
Aqui se diz da memória dum rio ancorado
na faina das gentes, do punho forte do pescador
na tessitura intrincada das redes,
dessas águas na moldura da vida … e da morte,
da aurora fundeada no imprevisto do mar
onde o momento é uma crisálida de névoa.
Pintam-se silêncios de esperas
e o tempo geme na carícia dos dedos; mas o rio
redentor dança sob a chuva e o sol
e como o amor é genuíno deslumbramento
Aqui se diz das mulheres antigas,
beatas no fervor das matinas a invocar
a senhora dos mareantes:
essas mulheres amantes a suspirar preces de amor
num enleio de negras mantilhas e de vento;
aqui se diz do alvoroço das crianças,
atordoadas aves ao festim do chamamento
Aqui, nada mais se diz; nesta tela o tédio o medo
e a ira são razões efêmeras e a vida
é bebida apetecida logo que o voo da gaivota
esboça iniciais de barco a abraçar no horizonte
a mancha de tinta das águas
… para só depois aportar ao cais
onde se pode placidamente ser feliz.
Bernardete Costa
(Tela de pintor Fernando Rosário)
Quando nasci
Quando nasci bebi das entranhas rubras da terra
todos os sonhos do mundo. Meu rio meu mar
espelharam no meu olhar o horizonte fecundo
Quando nasci o oiro escorria do sol
e a dança das folhas
era tela ardente de crepúsculos outonais
Vim ao fim da tarde a respirar vogais do vento e da chuva
mas ainda senti a réstia do sol
a fecundar o dia: fulgor de malmequer, cor a semear
fragrância em jardim outonal
Colhi do fruto maduro a semente da palavra;
no alimento da luz e da névoa a suspirar amor
sorvi o futuro no sabor da alegria. Vivi a dor e o prazer
pauta destino do meu ser
onde componho a música astral
que em mim
se faz poesia.
Bernardete Costa