https://youtu.be/QLCDymoJD_0

Se me perguntarem…
Se me perguntarem qual a cor dos teus olhos, direi, azuis, castanhos, dourados, verdes, limão,
nunca negros. Teus olhos seriam de qualquer cor menos da cor da escuridão.
Se me perguntarem do teu cabelo liso, direi, da cor do sol. Mas era o teu sorriso o incêndio que surgia em cada esquina da minha espera.
Se me perguntarem se usavas peúgas pretas, sim, direi, até sorrias quando as confundias com o meu cabelo.
Se me perguntarem, o que sentias ao vê-lo, direi com o silêncio alto dos segredos que te admirava como quem admira os diletos poetas.
Se me perguntarem quando te conheci, direi, nunca te vi na dobra do meu vestido
apenas nos rimos das janelas trancadas na casa proibida.
Se me perguntarem se um dia te amei, direi, duas vezes o amor se escondeu no vão duma escada. Aquelas duas vezes em que meus dedos segredaram no teu sorriso um outro sorriso colhido do chão.
Se me perguntarem se ainda te amo, direi, não, o amor chegou pelo frio do inverno… e o vento o levou no gelo eterno. E foi tão veloz como uma estrela cadente. Que de ti apenas me ficou a voz.
E mentirei sempre que a ti chegar. Nem toda a verdade fará diferença por entre a mentira compadecida. Resta a viagem da minha mão na tua mão esquecida.
Agora, nem todas as estrelas bastarão para a contagem do caminho. Mas sei que voltarei ao teu sorriso. Definitivamente. Sem mais vez.
A tarde vai longa. Hoje mais longa do que outras, sei lá a razão… Ou até sei. Estou aborrecida, com certeza, nada de mais depois de ver as notícias na TV.
Trump, um doido, é uma ameaça mundial, quanto a mim, aposta na corrida até à Casa Branca com o beneplácito de muitos idiotas americanos – eu sei que “disto” há em todo o lado… - que lhe vão oferecer de bandeja a morada na dita maison!; mais a senhora Trump, que nada deve em fealdade ao marido, mas é loira desse loiro burro, que copia o discurso da ainda primeira dama dos states, Michele Obama.
Há dias em Nice mais um doido, em princípio ligado ao DAESH, ainda a investigação não é conclusiva, assassina cerca de oito dezenas de pessoas, crianças, mulheres…
Hoje na Alemanha um outro doido esfaqueia pessoas num comboio gritando ao seu Alá! De imediato, ainda que seja um ato isolado, o estado islâmico chama a si a responsabilidade, quantos mais horrores somar ao seu historial de carnificina, mais o céu lhes garante…, nem digo o quê, que me arranho toda por dentro.
Todos os dias, o continente africano assiste dolorosamente a atentados que destroem, matam, reduzem a ruínas cidades inteiras. E África esvazia-se de povo, naturalmente a procurar lugar onde a paz ainda tenha um lugarzinho cativo.
Na Turquia pede-se, e ao que parece é um caso arrumado, a “pena de morte”, Depois dum suposto golpe de estado falhado, que levou à prisão milhares de funcionários públicos, militares, polícias…Ou seja, quem por palavras, atos e omissões alguma vez esteve do lado contrário do senhor mandante na Turquia, está feito ao bife! Depois, ouço dum lado e do outro e todos são inocentes como anjos. Uns são democratas e defendem a democracia preparando-se para o fuzilamento de milhares de pessoas; outros assumem como orquestrador do golpe um tal muçulmano, o imã Fehtullah Gulen, comprometido com radicalismos islamitas. Desculpem mas ouso o dito comum: venha o diabo e escolha.
Mas ainda me falta a mortandade perpetrada contra policiais, não esquecer que estes estiveram na origem destas vinganças, pois que o são, a meu ver, no país da Liberdade e da Democracia. Curiosamente, no país, pelo menos em alguns estados assim acontece, onde ainda se recorre à pena de morte como pena capital – tenham agora coragem de dar lições de moral à Turquia!.
Falta muita coisa, pois falta. O mundo é enorme ainda que o não pareça. Mormente quanto a mortandades, atrocidades, violações e mais…muito mais.
E calo-me que a má disposição é indigesta.
Bernardete Costa

Não sou crente. Ponto final. Não rezei, não fiz qualquer promessa. A única viável seria aproveitar boleia do meu sobrinho Ricardo Moreira e passar em Fátima, ainda que de longe…
Agora que há coisas inexplicáveis, há. Num mesmo dia mostrámos ao mundo que somos vitoriosos: arrecadámos medalhas de ouro, de prata, de bronze…, sagrámo-nos campeões no europeu 2016. Coincidências, é a minha convicção.
Ainda assim, aquela borboleta, há quem lhe chame traça, tudo tranquilo, que pousou no nariz pingão do nosso menino d,oiro (dou a mão à palmatória, meninos d’oiro é o que há mais neste pequenino país), levou consigo as lágrimas dum povo irmanado pelo mesmo desígnio, a Bandeira Nacional, o nome de Portugal; levou também consigo a incomum energia dum povo que segredou a Ronaldo: levanta-te, faz o que deves fazer, apoia os teus companheiros, faz das tuas lágrimas o riso dum país quase a desfalecer de orgulho.
Depois o treinador da seleção, Fernando Santos, evidenciou uma postura invulgar, condoída mesmo, quando, junto a si, o jovem jogador sofredor gesticulava, orientava, gritava aos companheiros. Apenas um pequeno gesto como quem diz, acalma-te, e treinador e jogador prosseguiam junto ao relvado a gesticular, a gritar, a orientar. Poder-se-ia duvidar quem seria o treinador da equipa rubra. Mas este homem, Fernando Santos, que durante todo o campeonato aguentou firme as bojardas duma comunicação social grosseira, soube, na sua humildade flagrante, aceitar as “pretensões” dum jogador que sofria por si, pelos companheiros, por um país inteiro.
Ainda vou escrever uma história para mais tarde os nossos jovens vindouros reconhecerem a magia dum borboleta que levou à vitória uma equipa de futebol a quem extirparam o capitão, o Melhor Jogador do Mundo, um jovem a quem nada falta, inclusive tolerância; o ganhador de tudo o que há para ganhar no que ao futebol diz respeito – peço desculpa se peco por zelo patriótico e se não sou totalmente correta.
Uma história com final feliz, até porque, que eu saiba, nenhum português se pegou à batatada com um francês, nenhum português tentou torcer o pescoço ao grande prevaricador que levou à maca Ronaldo. Nenhum português denegriu as cores da sua bandeira, o nome do enorme Portugal que hoje todos sentimos inchar-nos o peito.
VIVA PORTUGAL!
Esta foi uma tarde, uma bela tarde de campo, jardim, praia…
Na memória, nesta tarde, tantas outras tardes a subirem devagarinho pelas escadinhas das emoções, a sugarem-me da alma extensões de areia doirada, imensidões por onde caminhava à descoberta das rochas pejadas de mexilhões, a panela a fumegar, aromáticos, com uma manta de cebola bem picada, umas gotas de limão, umas folhas de salsa ou de coentros; uma praia onde os búzios me traziam o eco do mar quando arrumados nas prateleiras da casa, ouve o mar, ouve o mar, convencia as incrédulas crianças; uma praia onde os beijinhos me sorriam num convite para encher o saco e também levar, tantos beijinhos, para ti, beijinhos diminutos e belos, beijinhos que te dou, repenicados beijos no rosto doce da infância.
Depois o mar. A água revolta, a bandeira amarela, vermelha, verde… Que gelo! Os ossos a gemerem no gélido oceano, mas a água a seduzir, primeiro eu, depois tu, todos num turbilhão, salpicos a arrepiar os mais hesitantes, não, não, ui, que gelo, e logo o mergulho atrás de mergulho, o corpo a adaptar-se e todos a procurar aquecimento nas braçadas que venciam as ondas, à descoberta de outros longes… E o apito zangado do nadador salvador! E os risos, as gargalhadas no retorno. As toalhas onde nos deitávamos a procurar o calor do sol que lá em cima refulgia e dizia, é verão, toma-me! E as pulgas gordas e brancas, tantas, chape, chape, ui…, ui…
Hoje foi dia de praia. Não a reencontrei como a deixara nesse tempo de adolescência. Não há mexilhões, nem beijinhos, nem gordas pulgas, nem o gelo da água derrete com as braçadas que mais não dou. Nem os amigos e as crianças voltaram desse tempo distante, um atrás do outro, todos num turbilhão, salpicos a arrepiar os mais hesitantes… Nem me seduz mais o longe.
O lugar é o mesmo. Mas a natureza zangou-se com a minha praia.