https://youtu.be/QLCDymoJD_0
Ah, esse menino
Em tempo de criança brincava com búzios,
e em vez do mar escutava o riso cristal dum menino
que no areal da minha cidade resolvera morar
enviando beijos de sol à tristeza do inverno.
Ah, esse menino, quantas vezes o vi!
Em vez de jogar aos berlindes espreitava as raparigas
na praia estendidas à sombra dum guarda-sol.
E que alegria, entre tantos outros ver
esse menino, filho de carpinteiro, brincar ao faz de conta
na caravela “Senhora dos Anjos”
ao leme sonhando ser marinheiro.
Ah, esse menino é como outro qualquer,
preza a brincadeira, e entretido em viagem perde-se
no fascínio da ribeira.
Por vezes, uns pozinhos de luz, numa gota de orvalho
subo o rio para logo encontrar Jesus a brincar
no véu da maresia.
E se as palavras da poesia são estrelas que descem do céu
também posso acreditar
que esse menino aqui pertence. É esposendense!
(In Transpiração, poesia para a juventude)
Bernardete Costa
Alguém estranhou o facto de ter alterado a imagem de perfil da minha página do facebook. Reconheço que com alguma razão. Clarificando:
Assumo-me sem religião e sem crenças em céus infernos deuses e demónios. Diria mais, sou uma pessoa sem fé em quaisquer divindades. Assim, por que as figuras mais representativas do presépio?
Sendo descrente em muita coisa, acredito todavia que Jesus existiu, foi um pregador judeu da Galileia, seus pais foram José, o carpinteiro, e sua mãe uma jovem de nome Maria. Já li documentos que atestam a existência destas personagens. Assim como li que os nomes Jesus, José e Maria eram de tal forma vulgares na época que muitos outros com igual nome terão existido por aquelas bandas da Galileia e periferias.
Essencialmente, acredito que existiu um menino chamado Jesus que nasceu pobre, cresceu pobre como muitos outros e que, quando adulto, foi assassinado pelos judeus, seus conterrâneos. Afinal como tantos outros homens padeceram e morreram sob o jugo dos romanos e dos vendidos a Roma - lembram-se de Herodes, administrador da Judeia?
Assim, é-me grata a mensagem de amor trazida pela humildade dum José e duma Maria que, perseguidos pela maldade de Herodes, fogem da sua terra natal. E recebem seu filho numa cabaninha miserável. Porque não encontraram quem lhes abrisse a porta e lhes desse guarida naquela noite gelada em que Jesus se preparava pra nascer. Já não me é tão grata a ideia de saber que esse menino cresceu e já homem se deixou matar, dizem, pela salvação da humanidade. Ele acreditaria que sim. Eu já não digo o mesmo, uma questão de fé, reitero. Uma questão também de constatação da realidade passada, presente… e do futuro que já o é!
Mais, sou socialmente incorreta, porque nem sempre correspondo educadamente aos votos de festas felizes nesta época natalícia. Porque todos os dias deveriam ser felizes. Para os meus amigos e familiares e mais para aqueles que nem sabem o que são dias felizes. Porque lutam com a doença, fogem da guerra e da violência, da fome, da miséria, da exclusão.
Mas a sociedade tem um enorme peso na nossa forma de estar, por mais que esbracejemos contra.
E sim, se os meus votos valem de algo, tenham todos um Feliz Natal e um Bom Ano 2016.