https://youtu.be/QLCDymoJD_0
MEU HOMEM D'OIRO
Meu homem d’oiro amante do meu poema
das quatro estações do meu corpo…
somente a tua voz rima sobre as águas e ecoa
no limbo dum tempo que não nos pertenceu;
meu homem sol ofuscando o crepúsculo no horizonte,
a névoa do rio retendo a tua imagem
arquitectando o teu olhar, no verde difuso do mar.
Pedes-me que pronuncie o amor que lanço à terra,
ao mar, ao rio, às aves, à montanha,
ao pólen da flor…, mas eu sei que as palavras
são flores de espuma nas mãos frágeis
dos amantes feiticeiros…
Meu homem d’oiro, meu sol, minha lua, meu barco
de estrelas no azul do sul, apenas tu descobrirás
o segredo em minha alma trancado e libertarás o sufoco
desse grito em meu corpo
há tanto tempo encarcerado.
Ah! se eu soubesse teria projectado uma nave
e pelo rio a faria navegar sem timoneiro,
ao arrepio das águas, à deriva galgando as margens
encontrando-te sem nome e tão perto no incêndio da tarde,
e tu, não terias mareado para além do Cávado…
Serias então o meu amor primeiro?
Como responder, meu amor, se o amor
não tem resposta nem se explica.
Bernardete Costa
A MINHA JANELA
A minha janela não é bem uma janela,
caixilharia, vidro e reflexo de luz e sombra;
a minha janela abarca o mundo, o florir das rosas,
o rio, a cidade…
De repente, dá-lhe ares de gente e põe-se a sonhar:
quem me dera colher cravos no jardim,
semear rosas na primavera,
soletrar rimas, ser som de guitarra em mim…
É verdade, minha janela é muito especial.
Quando neva, realidade estranha a salpicar o rio,
ela chora e ri como criança
e faz-se farrapo e vapor húmido a enrolar a trança;
depois se chove, minha janela cora de vergonha,
porque na vidraça unicamente vê quem passa
a querer namorar com ela.
Minha janela não é somente uma janela.
Como qualquer mulher cobiça a beleza das garças,
a alegria dos pássaros, a leveza dos pardais,
a fragrância das rosas…
depois, enternece-se, e feliz, envolta na bruma,
soletra pétalas de flor despedindo-se da noite
com sorrisos travessos de mulher de rua.
A minha janela é feminina e muito mulher:
de larguras e amplidões tais
que pela cintura tudo abarca: chuvas,
sois, luares e o rio sonolento a terminar o verão;
e não sendo uma qualquer,
mas uma janela sentimental, vestida de rosas
e perfumes bem disfarçados, a minha janela,
é assim, como direi, atrevida, gaiata:
chama pelo sol logo de manhãzinha,
com ele se deita na cama,
e no vale de lençóis e de fogo
rolam em ternuras desmedidas
brincando às escondidas…
A minha janela é um mundo de água,
é um cardume de peixes logrando o anzol,
e na sua grandeza muito convencida,
até diz estar noiva do sol!
A minha janela, não sendo bem uma janela,
é como eu: corpo, alma e inquietude.
Mas é muito mais feliz;
nela nada fica no registo da vidraça,
porque logo que o pano passa,
a janela é simplesmente janela, amplitude
serena e estática.
Bernardete Costa
A minha janela não é bem uma janela,
caixilharia, vidro e reflexo de luz e sombra;
a minha janela abarca o mundo, o rio, a cidade…
De repente, dá-lhe ares de gente e põe-se a sonhar:
quem me dera colher cravos no jardim,
semear rosas na primavera,
soletrar rimas, ser som de guitarra em mim…
É verdade, minha janela é muito especial.
Quando neva, realidade estranha a salpicar o rio,
ela chora e ri como criança
e faz-se farrapo e vapor húmido a enrolar a trança;
depois se chove, minha janela cora de vergonha,
porque na vidraça unicamente vê quem passa
a querer namorar com ela.
Minha janela não é somente uma janela.
Como qualquer mulher cobiça a beleza das garças,
a alegria dos pássaros, a leveza dos pardais…;
depois, enternece-se, e feliz, envolta na bruma,
esfrega os olhos de vidro despedindo-se da noite
com sorrisos travessos de mulher de rua.
A minha janela é feminina e muito mulher:
de larguras e amplidões tais
que pela cintura tudo abarca: chuvas,
sois, luares e o rio sonolento a terminar o verão;
e não sendo uma qualquer,
mas uma janela sentimental, ainda que enrolada
em desejos bem disfarçados, a minha janela,
é assim, como direi, atrevida, gaiata:
chama pelo sol logo de manhãzinha,
com ele se deita na cama,
e no vale de lençóis e de fogo
rolam em ternuras desmedidas
brincando às escondidas…
A minha janela é um mundo de água,
é um cardume de peixes logrando o anzol,
e na sua grandeza muito convencida,
até diz estar noiva do sol!
A minha janela, não sendo bem uma janela,
é como eu: corpo, alma e inquietude.
Mas é muito mais feliz;
nela nada fica no registo da vidraça,
porque logo que o pano passa,
a janela é simplesmente janela, amplitude
serena e estática.
Bernardete Costa