https://youtu.be/QLCDymoJD_0

ESPOSENDE
Namoradinha do mar e amante do rio
com ele te deitas a espreguiçar
e te deleitas num amplexo de ternura
cidade essência em seu espelhar.
Na valsa das ondas, desmaias linda Esposende
num convite de amor que te transcende;
e voluptuosa entregas-te ao mar
como sereia que a maré aconchega.
Exuberância de sol maresia sapal
e bruma, voas nas asas das gaivotas
e és espuma vento em desvario rindo pela marginal;
poesia a refulgir como jóia em colo de rapariga
maviosa deusa por Eros pretendida.
És matiz de luz refulgente casario na brancura
do azul que o céu te oferece
e um deus amanhece o paraíso e tu és o paraíso
onde a natura é privilégio e o tempo
…o tempo é sopro na ânsia de te amar.
Ó, sinto-te na pele num arrepio
na tarde na noite no âmbar da alva;
vais pelo rio pela brisa ora morosa ora fluida
e na foz onde te aguarda o mar
no comum frémito ondeante de seara líquida
somos uma única
singular.
Bernardete Costa (2014)

(foto de Fernando Costa)
BARCELOS
Tu que foste amorosos instantes num tempo de águas claras,
instantes de azul e cor e verão e salgueiros a beijar o rio,
tu que foste cidade amada, que és amada cidade no colorido dos jardins
no ancestral e nobre casario em ti espraiado,
tu és Barcelos o deslumbrado sorrir de meu olhar,
meu olhar sem mais instante a perder-se nesse enternecido tempo
de te saber a florir em mim, cidade.
Bernardete Costa
O gosto pela liberdade
Corria o verão. Talvez 76 ou 77. Não interessa.
Somente um verão com a sua canícula idêntica a outros estios, os seus aguaceiros acompanhados de trovoadas abafadas e repentinas, as suas neblinas matinais e chuviscos...esses mais presentes na orla marítima onde vivíamos.
Vivíamos temporariamente. Só no verão.
Mas foi esse o tempo escolhido, mal escolhido, por certo, na minha opinião intransigente da altura, tinha ainda 13 anos de idade. Porque era esse o tempo (conseguido a ferros) destinado ao pouco que tinha para nos dar.
A noite chegara. Outra a noite depois.
Não fora que estranhasse muito o facto da ausência dele. Coincidentemente ou não a sua ausência ecoava numa tranquilidade que me aprazia no momento. Detestaria dar-lhe aquelas explicações que lhe eram devidas depois da cena presenciada, todavia eu não achasse motivo para alarme ou mesmo qualquer explicação. Fora só um beijo, e isso na minha idade era o início do despertar para a primavera da vida, aquela que eu sentia desabrochar dentro de mim, como uma flor que abre as suas pétalas em filme de câmara lenta, estonteando e estonteando-se. Ele haveria de entender, pensava.
Como já eram passados três dias, perguntei:
- O pai não vem dormir?
Respondeu-me o silêncio. E pelas caras esquisitas da minha mãe e da minha irmã (o meu irmão passava férias nos tios em Espanha), tinha concluído, decisivamente, que este seria mais um verão idêntico a muitos: as ausências, o tardio da hora, as preocupações, o desassossego constante...
Mesmo assim, algo estranho se passava.
Não! – Respondeu-me a mãe . Ficas aqui enquanto vou a casa tratar duns assuntos.
Depois... Bem, depois as lágrimas corriam-lhe pelo rosto, enquanto estendia uma carta que ele deixara pousada no toucador do quarto, na nossa vivenda da cidade.
Ele partira.
Não nos amava.
Talvez amasse. Só que não o suficiente para ficar.
Partira para voar mais alto. Sentira-se preso como pássaro na gaiola. E antes que o tempo se escoasse (porque “o tempo se escoava como areia numa peneira” eu não entendi), precisava de outros espaços, outras dimensões que não aquelas. As nossas. Concluí através das lacónicas palavras com que se despedira.
O Natal chegou.
A família era insuportável.
Deixara de haver família com o seu lugar vazio. E Natal também!
À meia-noite tocou o telefone. Era ele!
- Perdoai!...
Desligaram-lhe o aparelho na cara.
Que sofra! – disseram – Que sofra o que nos fez sofrer! – gritou a avó.
E assim se passaram vinte natais. Todos os anos o telefone tocava. Todos os anos o telefone era desligado.
Até que um dia, quando percorria a cidade do Porto a caminho do emprego (formara-me sem grande dificuldade – todos os meses era depositada uma mensalidade de que reconhecíamos a origem), hesitei perante aquela figura andrajosa de homem deitado no passeio e parcialmente coberto por pedaços de cartão e farrapos.
O coração quis saltar pela boca:
– Pai! – gritei!
Era ele. Dormia. Não me ouviu.
Completamente transfigurado, não seria facilmente reconhecido. Velho. Muito velho. Um farrapo humano.
Era um mendigo. Mas como?..., estranhei! As mensalidades enquanto ela e o irmão estudaram nunca faltaram. Suspeitara (todos, família e amigos eram unânimes no mesmo assunto) que havia outra mulher na sua vida. Também a mãe refizera a sua sem tentar a via do divórcio ou este lhe fora pedido por ele. Nada fazia adivinhar a decrepitude a que chegara. Fora para voar assim alto que se transformara num indigente?
Vi-o mexer-se ligeiramente. E fugi daquele lugar.
Nunca mais o vi.
Jamais o telefone tocou pelo Natal.
Bernardete Costa (Natal 99)
Mal desponta o dia, os plátanos da avenida
sussurram enredos e desassossegos de viagem
numa primavera tardia. Nem os pássaros nem mais os pássaros
se acolhem na fragilidade da folhagem. Apenas o poeta
reescreve asas nas nuvens do norte; apenas o poeta
estampa nos beirais o ninho do verão.
Hoje esqueci o meu país, esqueci a crise, recessão, euro,
esqueci o propriatairo, como diz Fialho, esqueci o proprietário
a garrotear o próximo…; até esqueci a fome na mão estendida;
hoje esqueci o desemprego, a diáspora encartolada,
o desemprego neste país desempregado…
Hoje esqueci que sou um cidadão ludibriado
para ser um pouco do que sou…
somente um pouco do que sou.
Mal aflorou o dia,
sem pássaros no entretecer da ramagem,
apenas o poeta que sou em mim se levantou.
Pegou na bicicleta, pedalou pela avenida a desafiar as artimanhas
da nortada, neste país de estiagem atrasada.
Hoje pedalei como uma parte de mim, esquecida da raiva
uma parte de mim sem país, sem mais mar por onde navegar…
Hoje, poeta, pedalei pela avenida até ao mar…
Ó meu mar, meu amante de cada instante,
beijaste meus pés nus e sussurraste canções de ninar;
e de ti as nereidas invadiram o meu sonho,
esse pouco sonho
que meu país ainda permite sonhar.
Ah, poeta, sente o sol, a ardência deste sol evocando
tanta ausência aninhando-se sobre a tua pele,
tomando-te por inteiro…, este sol que te conduz poeta
ao amor do sul, te conduz poeta ao azul do poema, te enlaça
num sopro astral de pássaros.
Foste poeta um pouco do teu eu, do eu que te resta.
Do eu que te resta sempre que a fragrância do jasmim
invade a primavera instalando em seus braços
o verão antecipado.
Hoje, foste unicamente a lágrima duma nuvem,
a sombra duma bruma; e sobre o mar entoaste a canção do amor,
esse amor, ó quanto amor que nunca esqueceste.
Hoje, foste gotas de chuva, lágrima de mulher viúva, coração de mulher,
foste talvez mais uma qualquer:
apenas o desejo no corpo, o sol ardente premente
na evocação de ti, meu amor…
Ó manhãs e tarde dos dias, ó quantos dias,
tu meu amor, tu meu olhar verde musgo, tu Apolo deus solar surgido
na sépia das fotografias a dizeres sim,
a dizeres sim ao amor, a dizeres sim a este odor
a fermentar na espuma das maresias.
Depois deste meu acordar, deste eu que me resta,
este eu esquecido do país, da crise, da usura, do euro que nos esgana,
pegaste na bicicleta e retomaste o trilho da banalidade:
foste, poeta, raiz quebrada do teu país, renúncia
e angústia do mal que não fiz.
E foste, ah, foste poeta nesse pouco que te resta
mais um na bicicleta.
Bernardete Costa
Há tempos em que comentar isto ou aquilo, seja de cariz social, económico e político, é assunto que me aborrece por excesso de haver quem já o faça, putativamente, com outros conhecimentos que não os meus.
Ainda assim, o meu dever de cidadã, neste dia soalheiro e propenso à preguiça quer física quer intelectual, impõe-se e há que lhe dar alguma satisfação. Até porque a Grécia neste dia faz História!
Adiante.
O nosso Primeiro Ministro (PM) é duma simplicidade bacoca – com todo o respeito. Assume publicamente uma pedagogia financeira caseira do género: deve, paga! Como se o problema financeiro de quase bancarrota que assola a Grécia fosse uma questão linear do deve/haver.
Era fácil assim, não era? Mas não! E mesmo que ousando aqui tecer considerandos que não domino de todo nem em particular – nunca fui amante de números - , e que os mesmos considerandos escapem à minha compreensão económico financeira de, digamos, uma razoável contabilista dona de casa, dizia, no caso da Grécia não se trata unicamente duma operação de subtrair, deves, pagas.
Afinal como afirma o nosso PM, se eu devo, pago, também a Grécia deve, paga. Este o horizonte mediano e limitado que induz o PM a tal linguagem simplista. Por certo, tendo em conta, como sabemos que sim, que o povo português é asinino q. b. e lhe basta este raciocínio pacóvio – também com todo o respeito.
Este caso, essencialmente mais dramático que financeiro, é consequência de uma, ou várias intrincadas equações em que os fatores são os mais variados e complexos… e duvidosos geradores dum resultado implicativo na quase bancarrota do país. Onde teve origem a democracia e uma das mais antigas e prestigiadas civilizações ocidentais.
A dignidade e a hegemonia dum povo em pouco é considerada pelo nosso PM.
No entanto, o povo português, ou uma parte significativa, está aberto a outras narrativas económico financeiras (bonito, não é?), ou seja, a outros raciocínios ainda que incompreensíveis ao cidadão comum, que possam despedaçar a linguagem simplista do PM.
E se o nosso PM fechasse a boca, com todo o respeito? Como dizia minha avó, ou sai asneira ou entra mosca. (Aliás o PM não está sozinho neste conceito…, valham-nos os deuses… gregos!).
Apraz-me acrescentar que há poucas horas, o povo soberano, democraticamente falando, claro, acabou de referendar NÃO às políticas de extrema austeridade ditadas pelos mandantes duma arrogante e desumana Europa.
A esperança duma nova Europa acena do Olimpo. Talvez assim queiram os deuses…
Bernardete Costa