https://youtu.be/QLCDymoJD_0

Os Meus Livros

https://youtu.be/Fke4JjUZDTs

posts recentes

VIOLÊNCIA DOMÉSICA

É PARA RIR...OU CHORAR!

QUANDO NASCI

HUGO SANTOS

INQUIETUDES

INSATISFAÇÃO

PORQUE FOSTE?

TEATRO EM ESPOSENDE - ESP...

TOMAR CAFÉ... ANTES QUE S...

III POEMA LUGARES DO TEMP...

arquivos

pesquisar

 
https://youtu.be/Fke4JjUZDTs
Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2015

TOMA MEU ROSTO

Quando estou contigo, todo o meu eu se inclina para ti. Penso que existe em mim um íman que reclama essoutro que talvez exista sob a tua pele.

Depois... esqueço-te dias e dias seguidos.

Quando, de longe a longe, um sorriso evoca o teu sorriso, de novo a tua imagem se reflecte, perturbadora, no meu espelho interior. 

Um reflexo, entre tantos reflexos, a sobreviver das desilusões.

Por isso eu não te amo, nem te quero amar.

Somente, quando estou contigo, o barco de mim pretende naufragar para logo encalhar no porto do teu corpo.

Não, eu não pretendo o teu corpo, apenas sonho contigo depois de estar contigo.

E sou feliz, tão feliz como a menina de escola na companhia do seu maior amigo.

Sim, eu não pretendo o teu corpo, só desejo as tuas mãos no meu rosto, essas enormes mãos como voo de pássaro, essas mãos no meu rosto, no meu rosto de menina de escola amparada pelas tuas mãos.

Ah, como sonho com as tuas distraídas mãos sempre que as vejo a descansar nas tuas pernas, aflitas, sem saberem como pousar depois dum voo desamparado.

Mas peço-te, não me dês as tuas mãos.

Coloca-as apenas no meu rosto de menina de escola, menina dum tempo comum em que me estendias as mãos erguendo-me das pedras do caminho. 

Sempre que estou contigo eu sonho contigo.

Não, não te amo, não estou apaixonada por ti, nem quero um dia amar-te ou apaixonar-me por ti.

Talvez me perdesse de mim se um dia te amasse, talvez o labirinto de mim mais se emaranhasse…

Anseio somente as tuas mãos no meu rosto, ou então o aconchego do teu peito, para que possas nele acolher o meu rosto com lágrimas de infância.

Porque sempre que sonho contigo, sonho com a minha cabeça aninhada no teu peito, qual tremente avezinha suplicando proteção ao seu ninho.

Toma então o meu rosto com as tuas enormes mãos.

Ou aninha no teu peito a minha cabeça onde escorrem duas tranças negras.

Ou então debruça sobre mim o teu sorriso.

Deixa tombar a fragrância das flores do teu sorriso sobre os meus cabelos.

Essas flores do teu sorriso a entrançar os meus cabelos...

De novo menina a percorrer as congostas, a colher com risos de criança as amoras das silvas, e tu a proteger-me dos espinhos com as tuas mãos… 

Não, não me olhes ainda.

O meu olhar está mergulhado no verde musgo do meu mar. O meu olhar ainda soçobrado no olhar duma memória, essa memória das paixões, que não se compadece com as doces traquinices de menina.

Prende apenas nas tuas mãos o meu rosto, ampara no teu peito a minha cabeça, e permite que a menina de escola retome contigo os mesmos caminhos de pedras.

Ah, sempre que sonho contigo preenches a solidão da minha noite com as tuas mãos bebendo do meu rosto a perturbação.

Preenches a minha noite com a ternura morna do teu peito, onde aconchego a cabeça à procura da antiga candura de menina perdida.

Mas é com a fragrância das flores do teu sorriso tombando sobre os meus cabelos que o meu sonho persiste pela madrugada…

 

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 17:13

link do post | comentar | favorito

FOI UM DISPARATE

 

Pode parecer estranho, mas não é. Esta ausência de amor ou de qualquer afeto ou de uma única emoção ao recordar-te. Estás aí de riso feito, bonito que já o eras, a tua beleza vaidosa que me conquistou, ou a minha vaidade por conquistar a tua beleza.

Apareceste, eu, tonta, presa à tua beleza vaidosa. E à tua bonita voz, gosto tanto de vozes bonitas, fiquei  presa a ti num fascínio redobrado.

A tua voz nos meus sonhos, a tua voz e o teu rosto duma beleza máscula, invulgar. Os homens nunca devem ser bonitos, sabes?  Tornam-se insuportáveis vaidosos. Como tu.

Parece coisa parva, mas quem diz que estas coisas de gostar não são parvas? Gostei de ti pela tua beleza e pela tua sedutora voz, apenas. Porque mais nada me interessou em ti. Nem o facto de não saberes amar. Amavas apenas a tua pessoa, fingindo amar-me, num fingimento que te ludibriou, nos ludibriou. Um disparate este enamoramento. Enamorei-me de ti como um narciso do sol. Eras o meu sol, a luz dos meus dias tristes, dos dias tristes sem amor.

Agora sorrio deste nada que restou. Nada ficou desse amor, dessa beleza que me seduziu, dessa voz que acariciava as palavras quando dizias, "meu amor, meu amor". O que nos aconteceu foi menos que um nada. Porque  um "nada" é alguma coisa, pode ser uma folha de rosa num livro, um suspiro fechado na caixinha das recordações.  Mas nem isso, nem um nada foi.

Olhas-me e dizes,  "amaste-me, nunca me deixarás de amar", como se amar-te fosse uma algema que me prendesse a ti.

Mas eu nem sequer te amei, eu nem sei o que senti por ti, senti o que senti ligando-me a ti, seduzida pela tua beleza máscula, invulgar, pela tua voz sedutora a acariciar palavras " meu amor, meu amor".

 Depois esqueci-te tão depressa que eu própria me desconheci. Não sou eu, sou essa outra que te esqueceu tão depressa. E tu sempre bonito, tão bonito como  permitia a tua vaidade. E a tua voz, sempre a tua voz que escuto por vezes quando me telefonas a pretender ressuscitar memórias, ó  loucas memórias, e lá estás está tu a seduzir num embalo de palavras, como se as palavras existissem apenas para ti.

Mas foi um disparate, amar-te pela tua beleza máscula, invulgar, pela tua voz a seduzir palavras, "meu amor, meu amor". Amar apenas por isso é um autêntico disparate. Um disparate, porque eu desconhecia que fosse capaz de te amar sem nunca te ter amado.

Não insistas, não, nunca te amei, e sabes porquê? Porque te foste embora, e eu fiquei a ver-te partir tão impávida e serena que metia aflição.

Uma aflição de liberdade, de alívio.

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 17:02

link do post | comentar | favorito
Domingo, 4 de Janeiro de 2015

DESASADA

 

Vivo bem. Comodamente sentada na contemplação, artista medíocre, sem pretensões, escrevinhadora acomodada ao comodismo que não salva humanidade.

“ O sol quando nasce é para todos”, o meu até me pertence ainda que filtrado pela vidraça na manhã enevoada.

Pertence-me este sol, a luz, a cor, a suprema fragrância exalada pelas gardénias.

Repito, vivo bem. Todavia, menos bem quando a minha comodidade me permite o tempo de pensar para além do ocaso.

Por vezes, o ódio toma conta de mim, aloja-se-me nos ossos e sai pela boca em suspiros de raiva ou, numa cobardia maior, pela cobardia das palavras silenciadas.

Um dia destes li em algures que somos feitos de passados. Isto assusta-me. O passado pesa muito nos ombros, não lhe podemos fugir; desasados, o voo é-nos interdito, por mais que o tentemos copiar literal e metaforicamente. E a minha escrita está prenhe de passados…

O certo é que pela escrita me indigno, comodamente mergulhada no voo utópico que atravessa a vidraça do café Vermelhinho.

E irei morrer comodamente medíocre, nesta assunção de passados inglórios, sobreendividada no presente por uma descoragem de humanidade. E aí, sim, definitivamente, indignada de mim mais do que dos outros.

publicado por Bernardete Costa às 18:02

link do post | comentar | favorito