https://youtu.be/QLCDymoJD_0
Hoje à meia-noite seguir-se-á um outro dia.
O frio e a chuva e a ventania chorarão
na minha vidraça; chamarão pelos meus olhos
fechados pela ardência das lágrimas.
Mas a noite passa, a alva se anuncia e de novo
se instala a rosácea dos dias.
Tudo se vulgariza, tudo se uniformiza
e a humanidade sobrevive como eu própria
perdendo o chão sempre que o amor fique retido
na perversidade dum punho fechado
de palavras desentendidas.
Bernardete Costa
(desconheço o autor mas acho MARAVILHOSO...)
"Se estivermos atentos, podemos notar que existe hoje uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno do sessenta/setenta anos de idade, os sexalescentes - é a geração que rejeita a palavra "sexagenário", porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.
Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica - parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa de jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.
Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória.
São homens e mulheres independentes, que trabalham há muitos anos e que conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram, durante décadas, ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram há muito a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.
Talvez seja por isso que se sentem realizados...
Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro de sua janela......
Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.
Algumas coisas podem dar-se por adquiridas.
Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos "sessenta/setenta", homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone para contactar os amigos - mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.
De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos sentimentais.
Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos.
Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflecte, toma nota, e parte para outra...
... Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um fato Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de uma modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na década dos sessenta/setenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão estreando uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são.Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.
Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios...Talvez por alguma secreta razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60/70."
Repara nessa ave planando na imensidão superando feridas.
Sou como ela ansiando liberdade a sangrar pedaços de vidas. Simples imitação a mergulhar no voo de mim. Como se fosse possível voar num azul sem nuvens, como se fosse viável o trajeto por entre o embrulho instável dum espaço de ar e fogo e água.
Dizem que vivo no coração duma ave sonhando miragem pelo desconhecido.
Sim, sou ave leve de plumagem porque invejo o seu voo disperso, a fuga das partidas.
O espanto acolhe-me, toma meu braço de ave, e de imediato se fixa no olhar da surpresa que sobrevém ao acontecimento.
Mas quantas vezes a ave que sou não passa duma avestruz!
O certo, de tudo o que digo e faço nem eu própria tenho entendimento.
Na quietude ilusória, a implacável falta de ar comprime meu peito.
E na ausência dum voo conquisto palavras, perfumes, amadas imagens que recortam na planura um novo mundo, com sabor a mel e medronho e a fragrância de miosótis.
Uma ave não pronuncia destino. Ser essa ave na minha sombra e, num alvoroço, vestir-me de plumas nas asas dos que me amam.
Ainda assim, dizem que firo como farpa a mente da pacatez, que tanto arribo voo como poiso num castelo de areia.
Esses, creio, não sentem a respiração do vento, nem toleram o crescimento de asas, nem ousam a liberdade da ave.
Ah, ser ave prenunciadora de novas, ainda que no tumulto dum imprevisível porvir...

Bernardete Costa
Naquele tempo, o Natal era dotado de um simbolismo religioso, numa sociedade extraordinariamente devota. Era o dia do nascimento do Salvador, o Menino que haveria de salvar o mundo, como quem diz, acabar com a miséria e a exploração dos ricos sobre os pobres, que prometeria, mais uma vez, um lugarzinho no céu a todos os humildes, crentes e bons de coração.
O Natal era sempre um dia especial. Porque diferente. O dia da família, por excelência.
Vindos das aldeias mais esconsas do país e até de outros países, pais, filhos, tios, primos, avós…sentavam-se à mesa comprida de madeira antiga e inundavam a casa com sonoridades e gargalhadas como uma música repetitiva.
Também especial porque mais farto. O pão era redondo como uma bola e o vinho, ambos trazidos invariavelmente pelos avós, gorgolejava em ondas de espuma dos jarros para os copos. Nas travessas mais antigas da família, que se resguardavam durante todo o ano de algum percalço em armários bem fechados, o bacalhau, naquele tempo o prato dos pobres, era enfeitado como uma dona vaidosa com nabos, cenouras, couves e, por fim, temperado por cada comensal no seu próprio prato, com azeite a ferver em muita cebola e alho.
Sem alarde de grande festa, mais um dia de convívio e de recuperação de ternuras, em tempos de pouca fartura, o cozido de bacalhau e couves era rei e senhor e os vapores de canela impregnavam doces – num tempo em que a tradição das rabadas, mexidos e aletria se cumpria a rigor, e só nesta quadra natalícia.
Terminada a ceia, o jantar mais propriamente, sempre acompanhado pelo tinto verde, jogava-se aos pinhões soltos das pinhas fumegantes, que haviam assado, entretanto, nas lareiras ou nos fornos dos fogões a lenha e a gás.
À meia-noite, de casacos de fazenda, quem os possuía, ou de xailes entrançados no tronco e sobre as cabeças, as famílias, novos e velhos, percorriam ruas ou ladeiras, ou caminhos escuros em direcção à igreja Matriz, ou à única igreja da aldeia, cuja brancura reflectia o luar em carícias de luz pálida.
Beijava-se o Menino que ficava a tresandar a tinto, ao cozido de bacalhau e couves e a aromas de canela. E retornava-se ao crepitar do lume tiritando de frio ou ensopado até aos ossos. Porém, felizes e divertidos na esperança de uma mão cheia de pinhões e de uma sopa de burro cansado, prometedores de uma noite solidária e mais quente. E, ainda, consoante os costumes e as posses, de uma rabanada temperada com um cálice de vinho do Porto.
O Menino Jesus descia pela chaminé, sensivelmente à meia-noite, e colocava um chocolate, um carrinho de metal, ou outro pequenino presente dentro da bota (o calçado mais usual quer de rapazes quer de raparigas) de cada criança.
Os adultos entretinham-se pregando partidas uns aos outros, depositando em socos e botas, a pedir descanso de velhice, cenouras, batatas…e coisas similares. Importante, era o sabor quente das gargalhadas a troçar do frio exterior, a dignificar o convívio familiar, a dizer graças ao Menino pela saúde que ainda não faltava.
Pela madrugada, cada menino aproximava-se descalço, seu único calçado encontrava-se na lareira, ou em cima do fogão, ou junto dum simples pinheiro bravo arrancado à mata mais próxima. E, por entre risos ou fungadelas de uma lágrima próxima, conforme o Menino Jesus defraudasse ou não as expectativas ( a grande maioria dos lares portugueses lutava com grandes dificuldades financeiras), dizia, cada menino apossava-se da sua prendinha fazendo comparações com as das outras crianças, brincando felizes, porque reconheciam o privilégio da visita do Menino Jesus.
No dia de Festa, 25 de Dezembro, as sobras do cozido eram totalmente aproveitadas; cozinhava-se a roupa velha, restos do cozido, muito bem temperada com grãos de pimenta, azeite, cebola e alho, que ia a refogar num grande tacho de ferro. Assim se satisfazia a saciedade dos comensais, porque a produção de carnes era quase sempre destinada à venda em mercados e feiras. Para alguns, os mais afortunados, seguia-se uma arrozada de capão arrancado ao convívio concupiscente do galináceo. Terminava-se o almoço, invariavelmente, com as doçuras da tradição, que haviam sobejado da consoada, acompanhadas com um cálice de um velho e perfumado vinho do Porto.
Hoje, o Natal continua a marcar o mês de Dezembro, não tanto pelo nascimento do Menino Jesus (quanta criança desconhece este menino, quem foi, como viveu…); e, seguramente, Missa do Galo nem falar, coisa estranha, uma missa à meia-noite… Como abandonar o calor e o conforto dos lares modernos, a mesa abundante de iguarias e os mais díspares e afamados vinhos e licores?
Sem qualquer dúvida, as famílias persistem na reunião de velhos e novos, esta entendimento de união ainda prevalece, mesmo por entre a adulteração do espírito genuíno de Natal – o nascimento de Jesus.
Na noite de consoada, a tradição do cozido mantém-se na quase totalidade dos lares minhotos; mas colam-se aos costumes natalícios ancestrais outros pratos, como o polvo assado no forno, ou o peru bem recheado e melhor tostado.
No dia propriamente de Festa, o cabrito assado ou de caldeirada, segundo os gostos, domina por excelência neste rincão do Minho. Quanto a bebidas, há-as para todos os gostos, nacionais e estrangeiras – o vinho carrascão verde já teve melhores dias e encontra-se um tanto relegado no esquecimento; preterido pelos vinhos encorpados do Alentejo, pelos leves e adocicados do Douro ou ainda, pelos flutes de champanhe (assim mesmo, à portuguesa); à sobremesa, por entre a doçura tradicional, já um pouco envergonhada, aparece de tudo um pouco, desde pão-de-ló (no meu tempo marcava apenas a religiosidade festiva de Páscoa) às mais díspares e engenhosas doçarias.
Mais do que nunca, mesmo em tempo de crise das crises, as casas, as ruas, as lojas… seduzem em brilho e colorido, para que se revire os bolsos até ao fundo das costuras, e se esbanje o que se tem… e não tem.
Obviamente, e tendo em conta o apelo manipulador da publicidade, os que possuem recursos económicos mais baixos, destinam, na sua maioria, uma grande fatia do bolo dos seus ordenados de 500 euros, do seu subsídio de desemprego, do seu rendimento mínimo de inserção, à aquisição das obrigatórias prendinhas que as crianças terão que impreterivelmente receber, para que em comparações feitas com outros meninos as lágrimas não se soltem dos olhos tristes, como gotas de chuva da sombra duma nuvem.
Estas famílias contentam-se com manjares natalícios mais parcos e prosaicos. Perdura ainda o tradicional cozido, porque mais acessível às bolsas de quem mais sofre esta crise de outras tantas (o bacalhau não terá origem na Noruega, e as postas terão de altura outras mais comedidas dimensões); ainda assim, faz-se das tripas coração, que é como quem diz, recorre-se a empréstimos e/ou ao desfalque do mealheiro, cujos tostões estavam destinados a outras e prementes urgências. A regar este manjar, que neste dia assume conotações quase principescas, o verde tinto continua a dominar por excelência, e o velho (que de velho apenas tem as palavras no rótulo da garrafa) vinho do Porto, ou não se falasse de uma casa portuguesa, ocupa sempre o seu lugar na mesa festiva.
Umas famílias como outras, divertem-se pela noite dentro, jogando, não mais aos pinhões que se limitam a cair das pinhas maduras, no entanto tão inacessíveis às bolsas comuns (este ano até lhes fiz um manguito, acima de 8 euros o quilo, remedeia-se muito bem sem eles…), mas às cartas e similares.
O Menino Jesus, já aqui dele se falou, mora simbolicamente numa rudimentar cabaninha ou numa luxuosa escultura, sendo que de nada lhe vale o tamanho ou a riqueza das vestes, porque o Pai Natal, oh!oh!oh! é um usurpador de primeira (muitos ganharam rios de dinheiro com a invenção desta bonacheirona figura) e tomou-lhe definitivamente o lugar; as prendinhas não são mais oferta do mais pobrezinho de todos os meninos: muito quieto e esquecido lá continua hoje como então nas palhinhas, deitado e aquecido pelo bafo da vaquinha e do burrinho, somente aguardando que este dia de festa, que mais esgota do que encanta, passe depressa para retomar o seu lugar no sótão das memórias mais antigas.
Justiça seja feita a muitas escolas, também a muitas bibliotecas, que tudo fazem e muito contribuem através de diversas actividades realizadas em Festas de Natal, assim como nas salas de aula, para manter viva e actual a história do nascimento do Menino Jesus; ainda que a esperança da libertação e da igualdade dos povos por Ele propalada, faça parte duma utopia com maior cabimento nas histórias de fadas e de encantar.
Bernardete Costa
Um último dia, pedi. Um dia para um adeus por entre o disfarce de olhares emocionados. Vindo à tona na premência da continuidade dos dias. Para a revisitação dos lugares e dum tempo comum. E esse soçobrar de pernas pedindo amparo nos teus braços. E tu seguires parecendo indiferente no teu caminho.
Depois do que aconteceu ou mesmo antes do que aconteceu. Mas que fosse um dia pleno da tua presença para além da materialidade dos corpos.
Percorremos as ruas da mesma cidade, levámos os filhos às mesmas escolas, parámos nos mesmos cruzamentos, violámos a rigidez da seriedade na troca dos sorrisos gentis com que saudámos os nossos encontros tão casuais. Para que viesses. E pudéssemos celebrar a plenitude do amor na vertigem do sonho.
E tu vieste. Escudado pela proximidade da morte. Vieste à revelia da tua própria essência. Todavia, vieste, vieste para a experimentação da vida, num tempo inadiável. Vieste dizer-me que o amor é eterno.
Este é o rio por onde corre o nosso amor, dirás.
Um rio sereno cujas margens demarcam com precisão o caudal sempre igual e constante, acrescentarei.
Persistirás na eternidade do amor. Mas nem sequer ousarás a loucura das palavras. Ficarás, ficaremos aguardando mutuamente a liberdade de amar na correnteza espartilhada dos dias em que vivemos.
Um último dia contigo, insisti. Um dia, onde não haja lugar para humilhações, renúncias, decepções e rotinas circunscritas à realidade dos confrontos unívocos. Um dia somente. Onde as asas já trémulas da eterna juventude ousem o retorno a um tempo inesquecível; e seu voo prevaleça na alegria estampada nos rostos, nas mãos e no escândalo dos risos.
E tu vieste. Pela força da alquimia com que celebrávamos as nossas memórias. Mas tu vieste tão próximo do fim!
Porém, o espelho ainda reflecte o verde da margem do rio, o cristal da água, o dourado das areias da praia fluvial. O som duma viola emparceira com o voo das cigarras. A prata da lua espreita na noite de outono. E no quarto, o tempo mago da adolescência senta-se no trono erguido pelas nostalgias.
Pelo nosso amor, dizes. E ergo o altar do meu corpo onde depositarei as oferendas ao único deus que reconheço.
Pelo nosso amor, acrescento. Ainda que na morte ou na sua proximidade, pedi.
Bernardete Costa
Ah, esse menino
Em tempo de criança brincava com búzios,
e em vez do mar escutava o riso cristal dum menino,
que no areal da minha cidade resolvera morar
enviando beijos de sol à tristeza do inverno.
Ah, esse menino, quantas vezes o vi!
Em vez de jogar aos berlindes espreitava as raparigas
na praia estendidas à sombra dum guarda-sol.
E que alegria, entre tantos outros ver
esse menino, filho de carpinteiro, brincar ao faz de conta
na caravela “Senhora dos Anjos”
ao leme sonhando ser marinheiro.
Ah, esse menino é como outro qualquer,
preza a brincadeira, e entretido em viagem perde-se
pelo fascínio da ribeira.
Por vezes, uns pozinhos de luz, numa gota de orvalho
subir o rio para encontrar Jesus
escondido no véu da maresia.
E se as palavras da poesia são estrelas que descem do céu
também posso acreditar
que esse menino aqui pertence. É esposendense!
(In transpiração, poema revisto
Bernardete Costa)
Sete palmos de terra. Só. O espaço essencial para o fim. Do pó foste feito em pó te tornarás. Para pó, quanto baste, sete palmos de terra.
Maquilham-se os mortos preparando-os para desfilarem belos e ilusoriamente serenos como se aceitassem, numa pacatez impossível, a derradeira caminhada.
Sete palmos de terra para caber uma vida toda: amores, lágrimas, risos, educação, ambição, sucesso, poder…Tão pouco para o muito que se labutou e se conseguiu, mas muito para o vazio do nada que se levou.
Diferentes na vida, iguais na morte… - nem sempre, há caveiras com dentes e outras sem! Sete palmos de terra.
Sete palmos de terra, para o pobre, o indigente, o plebeu, o rei, o senhor. Nada mais. Ainda que alguns floreados, alçamentos de mármore, capelas, criptas…
Por vezes a esperança lança raízes à terra, e o amor é enorme, tão grande que ludibria o tempo com o sabor doce das meiguices.
Dizia a criança abraçada à ternura, à dependência de sua mãe: hei-de descobrir o elixir da juventude. Para ti.
Retribuía-lhe a ilusão infantil com beijos: sim, para mim e para ti.
Tu nunca envelhecerás, serás sempre assim bonita; um dia, estudarei e descobrirei o elixir da juventude, persistia.
Cabia toda no meu regaço. Sentia-lhe o corpo como um prolongamento de mim própria. As mãos acariciando o rosto, deslizando pelos cabelos, tacteando os braços. E a criança, insiste: para ti, o elixir da juventude…
E depois sete palmos de terra. Que poderão ser substituídos pela liquidez do mar ou pela volatilidade da atmosfera.
Deixas o poema? Sim, para tu leres dedilhando a viola de teu pai.
Hei-de descobrir o elixir da juventude, para ti. E já agora para mim, os dois, eternamente juntos.
Claro, sempre juntos. Até um dia.
Cresceste, vê como cresceste.
A barba delicada e negra emoldura-lhe o rosto jovem, envelhece-o.
No seu curso de engenharia o laboratório fica longe do percurso dos seus passos.
Não és mais o meu menino.
Olha aqui estas rugas. Estás a mudar.
Estamos.
Bernardete Costa
(este foi meu grito no natal de 2012)
Quisera ter um natal para vos oferecer,
um ramo de azevinho, um poema de alegria…
Mas mataram o meu natal
naquele fatídico dia. Por aonde anda esse Jesus
esquecido das crianças de Connecticut…
Quisera ter uma palavra de natal, a luz
a reluzir nas agulhas do pinheirinho, a macia voz
na fragrância do carinho, mas meu coração
dói pelo sangue a escorrer dor e iniquidade,
minha razão nega qualquer obscena liberdade!
Quisera falar de natal, mas há pássaros
a bicarem-me as entranhas, há lágrimas, há sal,
há mágoas a devorarem montanhas …
Na minha voz estrangulada
há um novelo de silêncio… Ou de raiva!
Quisera uma estrela a sorrir no verde da rama,
mas minhas mãos apenas colhem a dor,
o drama. Não encontro sentido
para a morte antecipada,
não encontro raciocínio para arma disparada.
Com aquelas crianças morreu o meu natal.
Não me levem a mal, dentro de mim
o amor não se regenera tão depressa,
dentro de mim tudo dói,
para que se esqueça a morte neste poema.
Sim, meu poema nega o poder, porque meu grito
não entende a falsa igualdade duma bandeira.
Para mim há uma estátua no céu de Manhattan
a dominar a ilha num jogo de brincadeira.
Roubaram-me a ternura deste natal.
Sem ternura o que me resta?, Apenas o mal
semeado pelos jardins…; são armas as flores de jasmim,
é loucura a bala assassina, permitida!...
Por aonde anda esse Jesus
que também esquece a criança palestina?
Jesus não pode renascer permitindo
o morrer da inocência.
Quisera ter um natal para vos oferecer,
porém, hoje, apenas vos deixo a sua ausência.
Bernardete Costa (2012)
Haverá Natal?
Não sei quando é Natal.
Se quando se pede brinquedos
e os jogos permitem folguedos, será que é Natal?
E se os silvos acordam as montanhas
e caem as bombas,
haverá Natal?
Não sei quando é Natal.
Se as luzes cintilam nas árvores, é Natal?
E se as cruzes assinalam a terra onde os homens,
as mulheres e as crianças tecem no silêncio
os gritos da fome e da guerra,
haverá Natal?
Mas sempre que nas mesas,
o rubro das toalhas e as pérolas de azevinho
decoram as casas no seio das famílias,
ocorre-me ser Natal.
Mas como pode ser Natal,
se há crianças que sorriem à nova bicicleta,
ao computador, à colorida vestimenta
e uma outra tem por companhia uma arma
e um sorriso perturbador?
Como pode ser Natal,
se o eco dos sinos clama alegria na voz dos anjos,
enquanto os obuses explodem nos céus
as únicas luzes de todas as árvores?
Queria essa idade de acreditar que há Natal.
Porque o meu coração não pode envelhecer; sempre menina
olhar as estrelas e todas as luas
e nelas a luz em breve resplandecer
no coração pedra da humanidade.
Bernardete Costa
Como eu queria levantar-te do chão
tomar-te em meus braços
colher no céu as estrelas mais brilhantes e
engrinaldar os teus cabelos e enfeitar teu rosto
de luzes e promessas virgens.
(AUTOR DESCONHECIDO)