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Segunda-feira, 30 de Junho de 2014

BLUES FÚNEBRE, V.H.AUDEN


BLUES FÚNEBRE

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Impeçam o cão de latir com um osso enorme,
Silenciem os pianos e ao som abafado dos tambores
Tragam o caixão, deixem as carpideiras carpir suas dores.

Deixem os aviões aos círculos a gemer no céu
Rabiscando no ar a mensagem Ele Morreu,
Ponham laços crepe nas pombas brancas da nação,
Deixem os sinaleiros usar luvas pretas de algodão.

Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Este e Oeste,
Minha semana de trabalho, meu Domingo de festa
Meu meio-dia, meia-noite, minha conversa, minha canção;
Pensei que o amor ia durar para sempre: foi ilusão.

As estrelas já não são precisas: levem-nas uma a uma;
Desmantelem o sol e empacotem a lua;
Despejem o oceano e varram a floresta;
Porque agora já nada de bom me resta.

 

V.H. Hauden

publicado por Bernardete Costa às 18:58

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Quarta-feira, 4 de Junho de 2014

REFLEXÕES DE POUCO SISO…

REFLEXÕES DE POUCO SISO…

 

Por vezes não quero ser diferente, pretendo ser normal como as outras pessoas, então escondo as palavras debaixo da minha cama

mesmo ao lado da caixa dos berlindes.

Mas ser normal para mim é anormal para os outros, porque me perco sem as palavras e, num arremesso de incompreensível loucura, faço de mim o que nada sei de mim…

 

Assim, ando sempre com palavras no bolso, e com a ansiedade nas mãos mexo-lhes como se fossem berlindes; depois beijo-as, arremesso-as para longe, e de novo as recolho como sementes de flores; só posteriormente as semeio no papel, e é nesse momento que aproveito a boleia do poema até o cansaço me adormecer a criação.

 

Há dias em que a loucura de mim se estende, exaurida, num banco de jardim na demanda de palavras e da irrequietude dos berlindes que moram no fundo do meu bolso.

Mas eu preciso das palavras para que elas digam o que não sei dizer sem elas, sendo que, na travessura fortuita dos fonemas,

mora a loucura no esquecimento das coisas práticas.

 

…e os meus netos adormecem numa nuvem, o ferro esquece-se de engomar a roupa e o pó – sempre empoleirado num raio de sol –

acomoda-se à mobília da casa. Só porque sou louca duma loucura por resolver, penso eu, menos a minha família, que permite alguns devaneios, mas nunca ausências duradoiras.

 

A questão é esta: mesmo que apaixonada por palavras dou em doida à procura do seu lugar definitivo.

Por vezes, fingindo saber delas como não sei de mim, brinco com o riso dos berlindes que ainda trago no bolso, para de seguida os guardar, temporariamente, na saudade inviolável da infância.

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 19:00

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