https://youtu.be/QLCDymoJD_0


Correndo o risco de me repetir, "hoje é o dia da mãe", ainda que seu dia seja todo o dia.
Assim sente quem a tem vigilante a seu lado, assim sente quem a vê habitar de novo criança o seu mundo de pássaros, assim o sente quem a viu partir para o mundo da ausência perene.
No entanto, minha mãe, até pela carga emotiva e persuasiva das palavras que a sociedade impõe, chegou-me sorrateira ( minha mãe era muito malandra...) no silêncio duma madrugada insone.
Mãe
Deixa-me recuar a esse mago tempo da infância
e ver-te recortada num halo de encantamento.
Debruçavas-te sobre a criança que era
e viajavas comigo nesse beijo
que se aninhava
perfeito no meu coração.
Sabes, a tua voz na luz da manhã
era um milagre de amor
por entre recusas do sono e do calor dos lençóis;
mas era na noite que a doçura das tuas mãos
se suspendia no meu rosto
e logo adormecia.
Depois, no meu sonho,
uma dança de pombas entrava pelas janelas;
suas asas sem fim desciam sobre as margaridas
que colhia no jardim e te oferecia
num murmúrio de amor festivo.
Eu sabia, mãe, que de manhãzinha, o sol
vinha sempre contigo afugentar alguma sombra
erguida nos braços tristes da noite.
Mãe, sei que és vulnerável à minha distração,
e me sentes partir para onde o sol não adormece…
Mas tu
és sempre o meu seguro firmamento,
e mesmo que desmereça esse sentimento
tão doce e tão puro,
acolhe o meu sorriso no coração do anoitecer.
(...)
(In Transpiração, poesia para a juventude)
Sou barcelense. (Ainda que nascida em Esposende, facto que pesa muito no meu retorno a esta cidade e a este amor de feitiço que lhe dedico). Durante cerca de 35 anos vivi em Barcelos. Quase sempre na margem direita do rio Cávado.
Com forte nostalgia recordo desses tempos a cromática olorosa das múltiplas flores, tratadas com todo o carinho pelos jardineiros da câmara, que campeavam pelos imensos jardins desta cidade bucólica cuja origem remonta aos tempos medievos.
Desde criança vivi o frenesim colorido e ruidoso das Festas das cruzes, mal Maio despontava no calendário. Criança, adolescente e adulta vivi, senti, e vibrei com esses dias floridos e com os divertimentos inerentes a todas as festas populares.
Depois afastei-me. E Barcelos ficou a morar docemente nas minhas mais encantadas memórias.
A idade passou, com ela outros interesses se instalaram nas minhas preferências de lazer e divertimento.
No entanto, os jardins barcelenses haviam-se gravado em toda a sua pujança nas minhas mais belas recordações. E as Festas das Cruzes de novo assumiram aquele halo mágico da minha juventude.
Neste sábado fui à aventura até Barcelos - o trânsito caótico, as multidões acotovelando-se, os ruídos excessivos que em muito condicionavam a minha rejeição a estas festas como a outras similares, não constituíram obstáculo bastante…; a prevalecer, isso sim, a vontade de reviver tempos inesquecíveis.