https://youtu.be/QLCDymoJD_0
Houve um tempo do sopro das palavras,
tempo a colher papoilas, a desfolhar cravos…
Houve um tempo de verdades gritadas,
de canções com asas de vento e gaivota.
Abril pulsava no verde das primaveras futuras
e o povo cantava num juramento:
“como ela somos livres, somos livres de sonhar,
como ela somos livres somos livres de voar”
Neste rescaldo duma inteira e limpa madrugada
abril vibra nas palavras como um hálito de gelo,
e na manhã de quem sente o espasmo da fome
sangra a ferida do dia sob o fio dum cutelo.
Não imagino mais o vapor da manhã, o frio solar
da primeira hora, assumo até a cobardia
na aceitação de velhas azinheiras, dum sorriso
dando bom dia como todos os dias.
Mas Abril sempre virá; Grândola persistirá canção
como se a verdade fosse semente de vinho doce
posta na mesa da oportunidade.
Este é o meu alento, o refúgio de liberdade e abris.
Ah, as flores são carícias de ar quente!
…Contudo há neve nos olhos tristes do poeta incapaz,
nada mais sabe que este dizer soprado, jacente
nestes versos de voos e pássaros, febris.
Não mais sabe o poeta que faz…
e na pedra se reclina: ainda assim, abril se renova
flori a primavera, e no azul da poesia há sol em mim,
e uma ave mensageira,
que ferida de revolta,
me alimenta a alma, a espera!
Bernardete Costa (Abril de 2013)