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Sábado, 13 de Outubro de 2018

AFONSO E A DIABETES

 

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AFONSO E A DIABETES

Eu estou cá convencido que estes meninos todos sofrem da mesma doença que eu.

A Dr.ª Benvinda, acho tanta piada a este nome, diz que é especialista na doença que me apanhou o sangue. Dito duma forma mais científica - gosto de usar palavras corretas e de jeito - tenho Diabetes, que é assim uma doença que não me deixa comer à minha vontade, nem aos outros meninos aqui sentados; nem todos estão sentados, uns até correm, saltam pelas cadeiras, empoleiram-se nos cortinados, que coisa feia!

Eu sou o Afonso, é bonito dizer o nome quando falamos com alguém. E dizem que os meus olhos são grandes, de olhar muito redondo de tanto me espantar com as coisas. Agora estou focado no branco da sala. Tanto branco até aleija. Mas sou eu a dizer, e sei que nem sempre penso igual aos outros meninos. Igual às outras pessoas. Somos diferentes, é o que é!

Disse até à Dr.ª Benvinda: - sinto-me perdido no meio de tanto branco. Como sou de pele branca, por vezes, tenho dificuldade em me reencontrar.

A mamã diz que eu sou esquisito ainda que inteligente. Ser inteligente agrada-me. Sou como o meu papá. Ele tem um QI elevado. Ainda não sei bem o que é isso. Só sei que é inteligente. Mas hei de descobrir. Quando for grande quero ser descobridor de terras, mares e, claro, de QI.

Hoje estou sozinho. A mamã aproveitou e foi fazer compras ali perto. Eu fiquei à espera da Dra. Benvinda. Ela não demora. E pede desculpa quando se atrasa um bocadinho. É muito educada. Como eu. Eu digo sempre obrigado, bom dia, até amanhã, boa noite…; essas coisas bonitas que os meus pais ensinam e eu também acho bem bonito. São frases redondinhas. Frases salpicadas com açúcar. Entendem-me?

É mesmo engraçado. Não posso abusar dos açucares e digo palavras redondinhas cheias de açúcar.  Deve ser uma espécie de compensação. Isto diz a avó, que gosta tanto de palavras, até já escreveu contos e poemas. Um poema tem mesmo o meu nome. Ah, o meu nome também é redondinho: Afonso. Não vos parece? Agora se está polvilhado com açúcar depende de mim, eu sei. Por vezes irrito-me e fico azedo. Mas passa depressa. Basta a mamã ou o papá ou a avó pedirem-me um beijo e um abraço e eu fico como o gato do Rui, o meu vizinho: quietinho à espera de me lambuzar com carinhos.

 Dizem que as crianças que têm esta doença irritam-se mais do que os outros meninos. Mas eu duvido. Vejo tantos meninos que perdem a cabeça por tudo e por nada…; se calhar deviam contar até dez, como diz a minha avó. As avós sabem muito da vida, não acham? Não admira, têm muitos anos!

Não estranhem, eu falo mesmo assim, quase como um adulto, por isso os meus papás dizem que sou inteligente. Um dia deste a minha avó disse a palavra “revanche”. Perguntei o que queria dizer. E não pensei mais nela.

Há meninos e até muitos adultos que têm pavor a picadelas. Eu sei bem que a dor está na nossa cabeça. Não é a piquinha que dói. É a cabeça que pensa que vai doer.

Mesmo assim, um dia, a Dr.ª Benvinda magoou-me. Um daqueles dias em que estamos mais mimalhos, acontece muito com crianças e até com adultos. Nesse dia senti a piquinha e doeu-me a sério! Zangado disse à médica: revanchista!

O que ela riu! O riso dela é bonito. Por isso eu esqueci a picadela e ri com ela. O meu riso é contagioso. E acabamos todos a rir no consultório. A médica até contou aos outros meninos e aos outros pais. Ficaram a olhar para mim divertidos… e muilo respeitosos!

Há meninos aqui na sala que choram. Alguns até berram! Que coisa feia! Eu sei, alguns são bem pequenos. Compreendo, as crianças pequenas mal sabem falar. E se tiverem dores, fome ou estiverem sujinhas, como não conhecem palavras, choram. São as frases delas, percebem?

Eu tenho pena destas crianças. Algumas são meninas. Mas mais meninos. A médica diz que é assim. A diabetes parece escolher o sexo masculino. Ou seja, se eu fosse uma menina não teria esta doença, quem sabe...   

Porque será? Eu bem pergunto à Dr. Benvinda. Mas ela diz que a medicina não tem resposta para muita coisa. Um dia, talvez, penso eu, que estou atento a certas coisas. Como aquela dum tal Galileu que quase morreu queimado por afirmar que a terra é redonda. Hoje toda a gente sabe que a terra é redonda. Está mais que provado. Por exemplo: o homem foi à lua e viu de lá a terra tão redondinha… A minha avó até diz que a imagem da terra vista da lua é como um poema que ela gostaria de escrever.

Agora vou deixar-me de coisas. A Dr.ª Benvinda chegou e sei que vai falar muito comigo e com os meus pais.

- Uma seca, o que nos vai dizer - digo logo, um pouco esquecido da minha voz açucarada, voz de Afonso, já vos expliquei.

- Sim – diz a Dr.ª Benvinda -, mas uma seca que te vai permitir viver muitos, muitos anos. Outra coisa, como tens picos de descida brusca de açúcar no sangue, tens de estar atento à sensação de desmaio. E nunca deves estar muito tempo sem comer.

Entrega-lhes uns aparelhos, uns livros, uns papéis onde o meu pai terá de escrever diariamente os meus valores de glicemia. Esta palavra é um bocado dura. Não gosto muito dela. Só lhe acho piada porque termina em “mia”. Lembra-me o gato do Rui, já vos falei dele. Mete-se debaixo do meu sofá e fica lá escondido durante o dia todo. Eu gosto dele. Por isso nunca digo à mamã que ele fez o seu esconderijo debaixo do sofá. Somente, à tardinha, com o silêncio almofadado nas patinhas, lá vai ele para a casa do dono.  

Agora vou-vos contar um segredo: Sou uma máquina trituradora. Gosto tanto de comer. E de tudo!

A médica ainda diz:

- Deves respeitares as horas das refeições, ter cuidado com os alimentos que podes comer, e com as quantidades. Mas, acredita, depois de habituado, não custa nada…

- Custa sempre um bocadinho. Porque eu tenho sempre apetite – respondo dum jeito muito doce. Eu sei que a Dr.ª gosta muito de palavras saborosas. Não admira, é mulher!

Tudo o que acabei de dizer é verdade. Penso mesmo assim.  O meu maior problema é ter um grande apetite. Ao que parece é próprio de quem tem a diabetes. E nem sempre cumpro direitinho com o que a médica e os meus papás me pedem. Agora, digo-vos um segredo, não vale contar: então vou à caixa das bolachas, ao frigorifico… e meto qualquer coisa gostosa à boca.

(continua)

 

BERNARDETE COSTA

publicado por Bernardete Costa às 19:14

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Quarta-feira, 18 de Julho de 2018

A FONTE DAS VIRTUDES

 

cascata.jpg

 

A FONTE DAS VIRTUDES

 

Estava-se num tempo antigo. Naquele tempo em que os moiros, vindos do sul das terras da Ibéria, avançavam pelo norte da península aí se instalando à procura de riquezas várias. Sendo um povo guerreiro, todavia de política comunitária pacifica, até porque mais rendosa para os seus objetivos de conquista. Acima de tudo permitiam a liberdade religiosa dos povos subjugados. Deste modo, os autóctones da Ibéria e este povo muçulmano estabeleceram relações, pode-se dizer, de alguma cordialidade. E muitas foram as histórias de amor nascidas entre estas gentes, tais como germinam esplêndidos frutos em árvores enxertadas.

Certa vez uma linda moira foi matar a sua sede a uma bica de água. Debruçou-se sobre a nascente e, com as suas palmas níveas como porcelana, fez uma concha que levou aos lábios rubros e sequiosos.

Um lenhador, que por ali andava nas suas tarefas de amanhar árvores, viu a bela e copiosa rapariga e logo foi espreitá-la. De nada se apercebeu a moira, e como a canícula do verão a incomodava, depois de saciar a sua sede, entreteve-se a refrescar as pernas rijas como madeiros num gozo ingénuo e pueril, não se apercebendo que era alvo da concupiscência dum homem que devassava a sua nudez.

O lenhador cobiçou aquele corpo que previa sinuoso e rijo como se fora um desejo extremo de fome e sede.  Durante uns dias a procurou junto da fonte. E a carne tenra da jovem mexia com o seu corpo de macho predador. Um dia, demasiado excitado para se mais conter, chegou-se à moira tentando subjugá-la com os braços grossos e nodosos como troncos antigos de árvores. A rapariga gritou, gritou, esbracejou, mas naquele isolamento ninguém a escutaria. Teve então uma ideia: como uma mansa pomba olhou-o nos olhos gulosos e disse:

“Peço-te, não me roubes a virtude. Porque ta darei com agrado se me fizeres a vontade.”

O lenhador, prevendo a cedência da jovem rapariga e quem sabe a retribuição ao seu amor tresloucado, travou os seus ímpetos libidinosos, e interpelou:

“Que pretendes que faça?”

“Apenas que me escutes a história que tenho para te contar. No fim, podes amar-me que eu também te amarei.”

O lenhador, expectante com tal fortuna de um amor correspondido, sentou-se a seu lado e escutou:

“Era uma vez um povo vindo de muito longe, que havia chegado a uma aldeia do norte dum jovem e pequeno país. Uma moça desse povo vivia escravizada pelo senhor mais poderoso da tribo a que pertencia. A rapariga fora-lhe vendida pelo pai em troca de certos favores. Diariamente, ela receava ser chamada à tenda do amo para lhe satisfazer, juntamente com outras escravas, os seus prazeres carnais. Assim, ela desaparecia ao fim do dia em direção a uma fonte. E por ali permanecia até o seu senhor adormecer nos braços de outras escravas, esquecendo-a.

“E esse senhor esqueceu-a mesmo? Não prestava a moira, por certo…” - acrescentou o lenhador já acalmado nos seus intentos e curioso com o desfiar da narrativa.

A moira não respondeu e continuou:

“Tantas vezes foi à fonte que um dia foi vista por um lenhador.  Este, excitado pela nudez que a moira, imprevidente, deixara transparecer aos raios da luz entardecida, preparava-se para se lançar sobre ela como fera esfomeada.

A moira desesperada rogou a todos os seus deuses que a transformassem numa corrente de água. Perderia a sua forma de bela mulher, mas fugiria dos braços que ameaçavam destruir o seu bem mais precioso - a sua virtude”.

O homem, desconfiado, interrompeu:

“Deixa-te de estórias, essa é a tua história. Apenas nunca te transformarás num fio de água, porque não acredito em deuses…”

“Espera, falta o fim da história.” -  A moira prosseguiu:

“O certo é que os deuses escutaram a moça. Tão rápido, como o momento dum suspiro, ela viu-se transformada numa torrente de água fresca a sair da bica da fonte.

Nesta altura, o homem já aliciado pela voz musical da rapariga e condoído pelo seu destino trágico, apaixonara-se perdidamente. Preparava-se para a tomar nos braços com ternura, quando por entre eles um ribeiro cristalino se escoava perdendo-se sob a relva que cobria a terra.

“Não!” -  Gritou desesperado. E implorou aos deuses como se neles acreditasse:

“Suplico-vos, transformem-me num rochedo! Poderei assim acariciar este fio de água, a minha adorada moira, que sobre mim correrá enquanto recebe os beijos deste amor tão puro que fez nascer no meu coração.”

Ainda hoje, naquela aldeia, se pode ver um penedo a cobrir docemente um fio de água que, sem parar, brota daquela fonte chamada pelas gentes do lugar, a Fonte das Virtudes.

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 20:56

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Quinta-feira, 21 de Junho de 2018

O TEMPO PASSA...

O tempo passou, este dia mais um passou, este ocaso da tarde, um quase efémero tempo que ficou no eventual registo da fotografia. Se o olhar atento e distraído pelo horizonte dele se apercebeu, e se lembrou da máquina a tiracolo que, como se fora um apêndice de braço, registou o quebranto do dia a pousar a cabeça no mar.
Porque este registo de me ouvir caminhar a procurar uma manhã diferente, sempre que visto a euforia do sol no verão há tanto esperado, grafa-se no sorriso travesso com que escondo o meu mundo armadilhado.
Este meu mundo feito de dias vulgares, de obrigações contrariadas. É verdade, este dia passou igual a outro dia, banal, com urgências comezinhas, como um telefonema que tive de fazer para resolver coisas: a empregada desnorteada na casa que se trancou com a chave no interior, o alarme que soou sem motivo de intrusão a não ser a invasão do sol pela vidraça, o jardim onde as flores se atropelam por entre a relva mal cuidada.
Tudo vai mal na casa, há alturas em que tudo vai mal. E a casa desgosta o coração do espanto, do deslumbramento.
A casa dá muito trabalho, assegurar o funcionamento duma casa dá muito trabalho.
Cheguei mesmo a pensar viver no monte numa tenda; ir buscar água ao ribeiro, procurar alguns ramos de castanheiro ou pinheiro, talvez me seja mais fácil, uma fogueira que me aquecesse, e ali prestes adormecesse sem esperar mais nada a não ser que o dia passe a seguir a outro dia e mais outro nasça sem pedir que nasça, e assim o tempo passa, e assim sinta o eu que mais desejo, na liberdade do compromisso. E persisto neste meu jeito de sentir pelo tempo, como um voo de pássaro disperso no horizonte que logo retorna vivo e deslumbrante ao nascer da alba.
Há uma alegria que não sei explicar. Uma sensação de tranquilidade absoluta neste meu caminhar a esmo, na despreocupação dos passos e das vozes dos passos, como uma fuga às rotinas e às normas, à maledicência putativa da bondade. O que quer que isso seja.
Eu sei, há quem se ria, há quem pense que sou louca, porque pretendo o esquecimento do comummente estabelecido, a lançar palavras para o ar, a tentar compor o possível arremesso de uma poesia, que pode ser flor, verde, sol, mar, ou também pedra de revolta e insatisfação.
Mas chegada a casa a poesia é nada, apenas palavras soltas que nem o vento acolheu. E de novo esse eu a pousar os pés no chão, a recear perder esse chão que me sustém e faz de mim mais um outro qualquer. Um eu que repudio na sua vulgaridade, todavia um eu amado, desejado. Porque a casa. A premência da casa.
Valha-me o céu, valha-me o céu, grita a avó a salvar o queimado do refogado.
Eu bem dizia. Para que serve a poesia?
Uma casa dá mesmo muito trabalho...

publicado por Bernardete Costa às 14:14

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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018

MEU AMOR

(porque é fevereiro...) 

 

casal-apaixonado-silhueta.jpg

 (imagem da net)

Eu sei que não devo, não tenho mais o direito, talvez não te seja mesmo agradável ao veres-te assim tuteado. Mas tu foste o meu enorme amor, entre tantos outros. Sei até que sentimos um idêntico amor e como tal pensamos na eternidade do nosso afeto. Como em todos os amores que preenchem o corpo e a alma, que dão pleno gozo ao corpo e à alma, tu eras a minha alma gémea, eu era a tua alma gémea, “amor da minha alma”, lembras-te?

Tu, um assumido pragmático, um descrente do amor piegas, porque os amores são todos piegas ou ridículos, tu a sorrir incrédulo a essa ternura avassaladora, a esses ciúmes contra os quais lutavas, tu guerreiro espadachim a lutar contra a razão, a razão vencida pelo amor, pela grandiosidade do teu amor por mim, tu sufocado pelos sentidos ardendo nesse “fogo que arde sem se ver” que te tomava por inteiro, te fazia duvidar da tua sanidade mental.

Um amor onde o prazer caminhava paralelo com a dor, porque as saudades, meu amor, as saudades de nós eram um ferrete cravado na carne, na necessidade imperiosa da presença.

Tu és o meu amor passado, presente e futuro, por mais que reconheça que tudo acabou, como tudo o que é eterno finda, algo em mim se agarra a um tronco, cola-se como parasita sugando o sangue das palavras e das carícias que trocámos, cobra esse mago e dorido tempo de ternuras e lágrimas e risos… e expectativas e desilusões. E nestas te deixaste ficar encurralado numa situação insuperável; tu que eras o “meu príncipe encantado” viraste sapo feio, precisamente ao invés dessa encantada história de magia e deslumbramento.

Sim, eu sei que dirás esgrimindo a lógica duma razão que me apunhala o sonho: “O nosso amor foi um episódio tão espontâneo e imprevisto na nossa vida, que não se compadece com o fardo duma obrigação e acabará por ceder ao peso do hábito”. Entendi, separar-nos-emos para que o nosso amor sobreviva.

Mas e as cartas, meu amor, cartas que não elimino do esconso duma pasta encriptada no meu computador. É verdade, falta-lhes a fita de seda envolvendo-as, os tempos são mesmo outros, apenas o amor é de todos os tempos; e os dizeres, meu amor, persistem no ridículo como nas cartas da minha avó, em papel de linhas, atadas por um laçarote, um monte de palavras de amor, ridículas, comuns, onde os risos, as lágrimas campeavam como papoilas a arder num prado.

Deixa-me dizer-te mais uma vez, vieste pelo vento, vieste pela maré, vieste pelo tanto desejar de ter-te; eras o sonho de adolescente, encarnavas o espírito duma intelectualidade que me desafiava e me contraditava.

Não sei se aportaste ao meu cais em que dia, mês ou ano. Chegaste e isso me bastou. Talvez tenhas mareado pelo meu mar trazido pela nave dum marinheiro, talvez emergido dum romance de cavalaria, talvez somente cravado pela seta de Cupido. Apenas sei que eras nuvem, aragem, ave, jacinto do meu horizonte por reinventar; um por-de-sol em fim de tarde de estio, uma bruma humedecida nas chuvas sobre o laranjal.

Sei que vais achar esta carta ridícula, mas todas as cartas são ridículas, como o nosso lamecha Pessoa o disse e ficou registado nas cartas de amor à sua Ofelinha “ beijinhi…inho pá minha bebé”. Também nós ridículos, novamente adolescentes, num desvario quase burlesco de abraços e beijos e mãos dadas – tão ridículos a pretender a utopia da eternidade do amor - ou então velhos ridículos sem noção das conveniências, só nos vemos, só nos sentimos, só nos penetramos.

Meu amor, lá estou eu a persistir no “amor”, será este um vício de linguagem, ou um defeito do hábito, esta pieguice a permanecer, meu amor; mas que fazer se tu permaneces armadilhado nesse tempo de memórias de “amor eterno”. As memórias a salvarem-me, a condoerem-se de tantas outras memórias, ainda que doam, vidros e lumes a rasgarem-me o corpo e a alma, a alma que contigo reencontrei, e novamente perdi quando te perdi.

Tu, meu amor, quando foste assaltado pelas dúvidas, quando sentiste a intranquilidade do nosso afeto perante as vicissitudes da vida, escolheste as rotinas mornas duma vidinha sem percalços, sem insónias, sem a falta de apetite que te emagrecia e descoloria as faces; tu, meu amor, reencontraste um outro amor tão grande como o meu, mas não tão louco, nem doente, nem exigente assim, e fugiste de mim e eu fugi de ti para eternizar este tão irracional e desvairado amor.

Muitos beijinhos, meu amor lindo, meu doce de ambrósia, meu herói…

(Desculpa este chorrilho de saudades, tantas.)

Sempre,

a tua bebé

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 18:42

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Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018

Depois do natal

Quando o Natal se passa e a sua iconografia simbólica é praticamente esquecida, eu, que sou descrente em deuses e profetas, apenas acredito no homem bom, fico sinceramente doente. Duma doença psíquica e até muito física. Possuo esta simbiose orgânica e espiritual que me arrasta para o desequilibro do sistema parasimpático, assim como para uma tristeza, agora, com esta idade, mais tranquila. A tranquilidade que me advém de certa capacidade em aceitar todo o tipo de disparate, mesmo aquele que mexe com as memórias mais gratas da infância. Aceitar disparates - quão dissemelhantes -, poderão quem aqui me lê, torcer o nariz de incompreensão, tendo em conta, aqueles que melhor me conhecem, que a rebeldia é característica do meu eu desde os tempos infantes. Mas, como disse, a idade, esse ganho do tempo, pois nem apenas rugas nos marcam o rosto, outros ganhos, outros saberes, outra capacidade de entendimento, dizia, a idade como que nos adormece. Melhor. Solicita a já referida tranquilidade. Nestes entretantos, para apenas deduzir da frustração das festas natalinas. Raramente esta época se representa com o presépio. Ganham-lhe em pontos os pinheirinhos,os enfeites, as luzinhas, e os embrulhos mais embrulhos e mais embrulhos. Os nossos meios de comunicação, com destaque para as TVS, aliciam, crianças e adultos, para compras, mais compras e mais compras... Se perguntarmos a uma criança o que representa o Natal, correremos o risco certo de ouvir a resposta “presentes”. Depois, a nossa visão e não apenas física, pelo menos a minha, divaga por outros mundos, outros povos, outras culturas...E perante o nada de tantos, mais o sofrimento, a violência, a exclusão, a discriminação a que são sujeitos, seja dia de Natal ou não, atira-me como farrapo inútil para os meandros da tristeza. Que, saiba-se, em nada contribuo para a minorar. A não ser a lançar palavras como pedras que se perderão pelas voltas do caminho. Do caminho da inação. Do caminho confortável onde me instalo. Jesus veio ao mundo e nada resolveu. O homem persiste no ódio, na agressão, na ambição do poder. Eu vim ao mundo para nada resolver. Apenas para tentar ser melhor. Desde muito nova que me rejo pelos princípios da humanidade, da sensibilidade. E venham muitos Cristos ao mundo, e outros tantos profetas da palavra iluminada, assim como a muita vontade de a e b e c... de o transformar, que o ser humano carrega nos genes a maldição com que nasceu. Ser terrivelmente desumano! Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 15:23

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Terça-feira, 9 de Janeiro de 2018

Teatro na universidade autodidacta Esposende

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Ainda que não sendo uma leitora ardente da obra de António Lobo Antunes, procuro com prazer ler todas as suas crônicas que publica na revista Visão. Numa delas escrevia, “a escrita sempre foi para mim um penar profundo. Termino os dias exausto”. Possuo a convicção de que nem todos os escritores se identificarão com António Lobo Antunes. Fico sem saber bem o que pensar. Sendo um grande mestre da literatura portuguesa, mesmo que não da minha eleição, respeito as suas palavras, assim como respeito a de outros escritores que assumem, essencialmente, o oficio da escrita como um ato de prazer. Esta introdução para reconhecer, isso sim, que todo o bom trabalho, em qualquer expressão da arte, e não só, exige muito esforço, dedicação e exigência. No verão passado levei à cena, aqui em Esposende, uma comédia baseada num conto do meu estimado amigo José Felgueiras, “O Chico do Ti’Farturas”. Quando iniciei os primeiros ensaios senti-me apavorada. Sem saber por onde lhe pegar - para mais, reconhecendo que esta era a primeira aventura do género em que me metia. Pedi ajuda, conselhos.... e correndo o risco de todos os meus atores me abandonarem, iniciei os ensaios da mesma forma como pautei toda a minha vida enquanto professora e enquanto pessoa: com rigor, com exigência. Não foi fácil. Como Lobo Antunes, tive momentos de longo penar, até de quase desistência. Este trabalho cênico surgiu no âmbito das atividades da Universidade Autodidata, Esposende, e as pessoas nele envolvidas, com idade já muito respeitável, assim como sem qualquer experiência de palco, condicionavam a tal exigência. Acabei por protelar aqui e acolá. E ainda bem. E o grupo, inicialmente muito disperso, irmanou-se neste projeto com empenho e garra. Sei que fui alvo de muitas críticas. Que entendo sempre como construtivas. Pois foram elas que me incentivaram a nunca desistir. Agora esperam-me mais desafios. Novamente, e tendo em conta a vontade expressa do grupo de teatro, também a boa receptividade do público, iniciarei os ensaios de uma outra comédia. Mas que se faça a distintiva diferença: uma comédia, nunca uma palhaçada, se bem me entendem. Desde a cultura antiga grega, dramaturgos como Aristófanes, Menandro..., Moliére, o nosso Gil Vicente, e muitos outros, apostaram neste registo teatral. Sabe-se, a comédia, send divertida e originando boas gargalhadas, é uma forma de arte representativa muito respeitável. No entanto, já a palhaçada, uma espécie de perversāo da comédia, apenas uma brincadeira, quantas vezes de muito mau tom.

publicado por Bernardete Costa às 12:13

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Domingo, 17 de Dezembro de 2017

TEATRO PARA CRIANÇAS - NATAL

 

TEATRO (PARA CRIANÇAS)

NATAL

 

Esta é a história comum do nascimento dum menino, num dia qualquer. Esta é também uma história possível, tanto no passado como hoje, quando se bate a uma porta e somente o silêncio responde. Este é um Natal que nos faz recordar um outro no passado longínquo. Que também este menino possa ser um mensageiro da paz. Apesar da ambição do homem e da guerra que ele faz.

 

Personagens

CORO

Maria

José

voz

 

Cenário - Um casal desloca-se pela autoestrada num velho veículo.

Vão apreensivos. A mulher está grávida, no fim da gestação.

 

CORO - dum dos lados de cena colabora na contagem da história do casal.

 

 

           CORO

Estes são José e Maria

Velozmente pela autoestrada.

Tamanha sua correria

Que hora de Maria é chegada.

 

 

José - Então Maria, já estás cansada

Como vai o meu amor?

 

Maria – Ai, José, minha barriga é tão pesada

carrega lá no acelerador!

 

José - Tem calma, só me interessa

Mais este caminho percorrer.

E se for mais depressa

Esta carripana vai arder!

 

Maria – Ai, José, não sei que diga

Que mais te hei-de dizer

Ai, esta dor de barriga!...

A criança quer nascer...

 

José - Maria, tem paciência

Àquela estação vamos ter

Mão amiga por excelência

Alguém nos há-de valer...

 

Maria – Ai, José, que o tempo é contado

A criança quer nascer

Se o percurso é demorado

Não sei o que vai acontecer!

 

José - Eis-nos aqui chegados!

Batamos fortemente.

Alguém nos há-de atender

Que é tudo boa gente.

 

Voz  - Quem bate a esta porta

Cujo silêncio dá resposta?                                            

 

José – Ai, Maria, esta é hora incerta

De a esta porta bater

Se não há uma mão aberta

Que mais se há-de fazer?

 

 

Maria - Toda a porta fechada...

Ai, que não posso mais!

Minha barriga tão inchada

Minha voz aqui aos ais!...

 

José - Vê Maria, naquela ponte

Algum lugar por certo

É só subir o monte...

E o longe se faz perto.

 

CORO

 

E por entre ais e o ofegar

Duma vaquinha tresmalhada

Nasceu um menino a berrar

Já a pedir sua mamada.

 

José - Vê Maria, o teu filho nasceu

Ao frio duma noite estrelada

Como outro que está no céu

Nos braços de sua mãe amada.

 

Maria - Também este é seu natal

Dia de seu nascimento.

Poremos notícia no jornal

É grande este acontecimento!

 

CORO

 

E este nascer invulgar

Que verdade nos traz?

Ouvem-se anjos a cantar

Salvé, mensageiro da paz!

 

José - Maria, que nome lhe daremos

Já que aqui foi nascido.

Pois toda a noite o veremos

Sobre as palhas estendido.

 

Maria - Chamar-se-á Jesus

Como esse outro menino.

E também do céu virá a luz

Para iluminar seu caminho.

 

CORO

 

E assim aconteceu

Como também em Belém.

Uma criança nasceu

Do ventre de sua mãe.

 

Esta é a mais bela história

Que na terra teve lugar

Que vos fique na memória

Pra mais tarde a recordar.

 

Bernardete Costa

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 19:04

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Sábado, 25 de Novembro de 2017

CHUVA

a chuva caiu na noite. rejubilou a terra e o homem

ameaçou tempestade. logo serenou.

em seus passos de dança abriu a porta às estrelas.

como uma criança depois da traquinice

deixou-nos apenas um sorriso na vidraça das janelas

o bastante para embalar o sono.

 

a manhã de novo se coroou de sol

e escrito na corola da azálea

uma gota de cristal alimentou meus dedos

que em sobressalto buscam pela marginal

os segredos que a chuva teimosa

teima em guardar. do alto

uma gaivota hesita entre a terra e o mar.

 

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publicado por Bernardete Costa às 19:37

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Sexta-feira, 10 de Novembro de 2017

A MINHOTA

A minhota rural é natural como a água da ribeira. Faz-se paisagem na própria paisagem.

Veste a roupa de ver Deus aos domingos -  também em dias festivos. Depois entrega-se no abraço da igreja ao divino Ser persignando-se amiúdas vezes. Levanta-se, senta-se e ajoelha-se. Cumpre os rituais. Entrega a alma ao Senhor Jesus engolindo-o com devoção até às entranhas.  A serenidade recebida do alto comanda-lhe os gestos e molda-lhe o rosto com luz de ternura. E canta. Dir-se-ia um anjo a entoar com delicadeza subalterna as preces aprendidas na meninice. Mal sai do recinto oloroso de incenso e salpicado de luzes cálidas, agora no adro da igreja, a minhota abre-se em sorrisos que lembram margaridas doiradas ou pontinhos de sóis. E com saracoteios de anca atreve-se aos machos. Fingindo um orgulho feminino que não possui. Porque ser minhota ainda implica aceitação, resignação.  Ainda assim, misteriosa. Avança e recua. Promete e despromete. Quando se compromete rende-se num desejo subtendido, quase calado, à masculinidade que a procura.

A minhota veste as cores fortes da sua personalidade. Estampa-se na natureza como mais um ramalhete vivo de rosas, de margaridas… Com rendas e bordados em alvas blusas atrai como mariposa. E goza esta atração com vivacidade de gaiata e com risos abertos e gargalhadas atrevidas.

A minhota prende os cabelos em lenços coloridos, chamativos, as saias de renda branca em suspiros sob o negrume cauteloso da saia de cima. Nos pés traja as chinelas herdadas das avós; aliás, toda a indumentária foi tirada para a respiração do dia, naquele dia, da arca da avó. E a minhota dança em roda, levando na roda o atordoamento dos rapazes casadoiros. Porque a dança é o ritual por excelência para atrair os machos, para os subjugar. A melhor bailarina terá a seus pés o rapaz mais donairoso, mais bonito. A melhor bailarina é sempre a minhota mais bela, a mais sorridente. O sorriso desce do céu e faz dela uma aparição celestial.

A minhota é conservadora. Respeita os mortos. Chora a saudade dos mortos com lágrimas de viúva, soltas e pungentes. E traja de negro se a viuvez a procurou. Recua na casa buscando o silêncio que lhe mitigue a dor. A minhota ama uma vez. Verdadeiramente. Apenas aceitará um novo amor para assegurar o pão dos filhos. O seu maior prazer é embalar os filhos, depois os netos, no imenso regaço de ternura com que Deus fadou a mulher. Uma ternura, um amor que ameaça rebentar pelas costuras do coração. A minhota quando desaprende de amar torna-se amarga. Deixa de ser minhota. Porque o Minho detém em si todas as alegrias dos verdes, dos ribeiros, das encostas abraçando os vales. O Minho não é viúvo. Refaz-se das vicissitudes dos tempos, ou do tempo, na explosão das margaridas, das urzes, das miosótis, das camélias, dos maios, das mimosas…

Dizem que a minhota é bonita. Quando jovem, sim. Para mim todas, ou quase todas as jovens são bonitas. Como as noivas. Já se viu uma noiva feia?

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Tela "A minhota" de Fernando Rosário

publicado por Bernardete Costa às 19:48

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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

O DIABO NO VERÃO DE 2017

 

 

Um estranho governo saiu das últimas eleições para a Assembleia da República. De tal forma que foi nomeado “geringonça”. Depreciativamente. Futurando enguiços de cremalheiras, quebra de rodas dentadas, ferrugens e outras coisas que tais propiciadoras ao seu péssimo funcionamento.

Pelo contrário, a dita “gerigonça” lá se vai aguentando, mesmo funcionando muito além dos limites previstos para tal conjunto de engrenagens. Saldo positivo. Nas últimas eleições autárquicas o povo reconhece o maior partido da dita, ou seja, a carruagem e as rodas que a movimentam. E esse partido sobe significativamente agoirando, num próximo futuro, não já uma “geringonça”, mas… Esperemos pelo batismo. Que lhe virá da sua direita. Ou não. Talvez a inspiração falte.

 De tal forma ressabiados pelo bom desempenho da “geringonça” há quem confie no aparecimento do diabo. Ah, quando aparecer diabo é que vão ser elas!  O riso escarninho de quem se está marimbando para o país e para o povo.

Mas o diabo surgiu em forma de labaredas de fogo. Num verão atípico, nem muito atípico, já em 2007, se a memória não me atraiçoa, esse mesmo diabo devorou Portugal de lés a lés.

O PR (Presidente da República) ocorre às regiões mais flageladas. E muito bem. Palavras de conforto e abraços urgem em tempo de luto e de tragédia. Mas sabe-se, o PR pouco tem de fazer, a não ser a representatividade do país, quer dentro ou fora de Portugal. O PR não governa. Pode dispensar o gabinete de trabalho. Pode ficar no rincão natal sem obrigações de monta que exijam a sua presença. E pode voar, semelhante ao super-homem, já ninguém lhe extirpa o cognome de superpresidente, de sul para norte, de norte para o sul, de oeste para este, de este para oeste, mesmo a desrespeitar todo o protocolo, que se lixe! E a segurança que não se aflija: quem atacará um PR tão carinhoso e amante de selfs com este e aquele?

A comunicação social exulta. Nunca tamanha matéria incandescente, ainda que trágica, e até mais por isso, lhe permite encher as TVS, os jornais…Os articulistas pulam de felicidade. O manancial de matéria candente e a consequente destruição da floresta e a perda de vidas humanas, mais outras labaredas ateadas pelos políticos que visam o poder, são elásticos para dissertações empolgadas que visam o registo efémero na fotografia e no filme.  Por sua vez, as redes sociais são poços de ditos e desditos. De ofensas, de injúrias, de concordâncias ou discordâncias seguidistas… É a democracia a funcionar. Vale tudo. Dizem, somos livres!

Urgem demissões. Pede-se a demissão do governo. E os que as solicitam são precisamente aqueles que afundaram o país, que o algemaram a uma troica que já reconheceu o seu erro: não era a austeridade que salvaria Portugal.

O PR adora desempenhar o papel de bonzinho. Adora agradar a gregos e a troianos. Desde o tempo em que foi articulista na TV. Sabe-se. Dá um puxão de orelhas ao governo, assumindo, ou dando a entender, que foi nestes dois anos de governação que tudo não se fez para o que se devia fazer. Quando o ordenamento florestal, a vigilância, etc. é um processo longo e cuidado. A pedir intervenção e coordenação de todos os governos de Portugal.

Depois, a questão das ignições. Da parte do PR ouve-se o silêncio. Dá que pensar. E não em coisas boas!

 Mas o mais caricato, o PR acusa o PM ( primeiro ministro) de não pedir desculpas ao país e aos flagelados. Tão fácil seria, mesmo o mais fácil, pedir desculpas. Mas o mais hipócrita.

As desculpas não se pedem, evitam-se.

Desconheço muita da personalidade do PM. Mas quero crer que, essencialmente, tudo fará, ou tentará fazer, para que outro verão idêntico não se repita. Mesmo que se ponha a jeito, Tipo diabo!

 

Bernardete Costa

 

publicado por Bernardete Costa às 20:09

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