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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018

MEU AMOR

(porque é fevereiro...) 

 

casal-apaixonado-silhueta.jpg

 (imagem da net)

Eu sei que não devo, não tenho mais o direito, talvez não te seja mesmo agradável ao veres-te assim tuteado. Mas tu foste o meu enorme amor, entre tantos outros. Sei até que sentimos um idêntico amor e como tal pensamos na eternidade do nosso afeto. Como em todos os amores que preenchem o corpo e a alma, que dão pleno gozo ao corpo e à alma, tu eras a minha alma gémea, eu era a tua alma gémea, “amor da minha alma”, lembras-te?

Tu, um assumido pragmático, um descrente do amor piegas, porque os amores são todos piegas ou ridículos, tu a sorrir incrédulo a essa ternura avassaladora, a esses ciúmes contra os quais lutavas, tu guerreiro espadachim a lutar contra a razão, a razão vencida pelo amor, pela grandiosidade do teu amor por mim, tu sufocado pelos sentidos ardendo nesse “fogo que arde sem se ver” que te tomava por inteiro, te fazia duvidar da tua sanidade mental.

Um amor onde o prazer caminhava paralelo com a dor, porque as saudades, meu amor, as saudades de nós eram um ferrete cravado na carne, na necessidade imperiosa da presença.

Tu és o meu amor passado, presente e futuro, por mais que reconheça que tudo acabou, como tudo o que é eterno finda, algo em mim se agarra a um tronco, cola-se como parasita sugando o sangue das palavras e das carícias que trocámos, cobra esse mago e dorido tempo de ternuras e lágrimas e risos… e expectativas e desilusões. E nestas te deixaste ficar encurralado numa situação insuperável; tu que eras o “meu príncipe encantado” viraste sapo feio, precisamente ao invés dessa encantada história de magia e deslumbramento.

Sim, eu sei que dirás esgrimindo a lógica duma razão que me apunhala o sonho: “O nosso amor foi um episódio tão espontâneo e imprevisto na nossa vida, que não se compadece com o fardo duma obrigação e acabará por ceder ao peso do hábito”. Entendi, separar-nos-emos para que o nosso amor sobreviva.

Mas e as cartas, meu amor, cartas que não elimino do esconso duma pasta encriptada no meu computador. É verdade, falta-lhes a fita de seda envolvendo-as, os tempos são mesmo outros, apenas o amor é de todos os tempos; e os dizeres, meu amor, persistem no ridículo como nas cartas da minha avó, em papel de linhas, atadas por um laçarote, um monte de palavras de amor, ridículas, comuns, onde os risos, as lágrimas campeavam como papoilas a arder num prado.

Deixa-me dizer-te mais uma vez, vieste pelo vento, vieste pela maré, vieste pelo tanto desejar de ter-te; eras o sonho de adolescente, encarnavas o espírito duma intelectualidade que me desafiava e me contraditava.

Não sei se aportaste ao meu cais em que dia, mês ou ano. Chegaste e isso me bastou. Talvez tenhas mareado pelo meu mar trazido pela nave dum marinheiro, talvez emergido dum romance de cavalaria, talvez somente cravado pela seta de Cupido. Apenas sei que eras nuvem, aragem, ave, jacinto do meu horizonte por reinventar; um por-de-sol em fim de tarde de estio, uma bruma humedecida nas chuvas sobre o laranjal.

Sei que vais achar esta carta ridícula, mas todas as cartas são ridículas, como o nosso lamecha Pessoa o disse e ficou registado nas cartas de amor à sua Ofelinha “ beijinhi…inho pá minha bebé”. Também nós ridículos, novamente adolescentes, num desvario quase burlesco de abraços e beijos e mãos dadas – tão ridículos a pretender a utopia da eternidade do amor - ou então velhos ridículos sem noção das conveniências, só nos vemos, só nos sentimos, só nos penetramos.

Meu amor, lá estou eu a persistir no “amor”, será este um vício de linguagem, ou um defeito do hábito, esta pieguice a permanecer, meu amor; mas que fazer se tu permaneces armadilhado nesse tempo de memórias de “amor eterno”. As memórias a salvarem-me, a condoerem-se de tantas outras memórias, ainda que doam, vidros e lumes a rasgarem-me o corpo e a alma, a alma que contigo reencontrei, e novamente perdi quando te perdi.

Tu, meu amor, quando foste assaltado pelas dúvidas, quando sentiste a intranquilidade do nosso afeto perante as vicissitudes da vida, escolheste as rotinas mornas duma vidinha sem percalços, sem insónias, sem a falta de apetite que te emagrecia e descoloria as faces; tu, meu amor, reencontraste um outro amor tão grande como o meu, mas não tão louco, nem doente, nem exigente assim, e fugiste de mim e eu fugi de ti para eternizar este tão irracional e desvairado amor.

Muitos beijinhos, meu amor lindo, meu doce de ambrósia, meu herói…

(Desculpa este chorrilho de saudades, tantas.)

Sempre,

a tua bebé

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 18:42

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Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018

Depois do natal

Quando o Natal se passa e a sua iconografia simbólica é praticamente esquecida, eu, que sou descrente em deuses e profetas, apenas acredito no homem bom, fico sinceramente doente. Duma doença psíquica e até muito física. Possuo esta simbiose orgânica e espiritual que me arrasta para o desequilibro do sistema parasimpático, assim como para uma tristeza, agora, com esta idade, mais tranquila. A tranquilidade que me advém de certa capacidade em aceitar todo o tipo de disparate, mesmo aquele que mexe com as memórias mais gratas da infância. Aceitar disparates - quão dissemelhantes -, poderão quem aqui me lê, torcer o nariz de incompreensão, tendo em conta, aqueles que melhor me conhecem, que a rebeldia é característica do meu eu desde os tempos infantes. Mas, como disse, a idade, esse ganho do tempo, pois nem apenas rugas nos marcam o rosto, outros ganhos, outros saberes, outra capacidade de entendimento, dizia, a idade como que nos adormece. Melhor. Solicita a já referida tranquilidade. Nestes entretantos, para apenas deduzir da frustração das festas natalinas. Raramente esta época se representa com o presépio. Ganham-lhe em pontos os pinheirinhos,os enfeites, as luzinhas, e os embrulhos mais embrulhos e mais embrulhos. Os nossos meios de comunicação, com destaque para as TVS, aliciam, crianças e adultos, para compras, mais compras e mais compras... Se perguntarmos a uma criança o que representa o Natal, correremos o risco certo de ouvir a resposta “presentes”. Depois, a nossa visão e não apenas física, pelo menos a minha, divaga por outros mundos, outros povos, outras culturas...E perante o nada de tantos, mais o sofrimento, a violência, a exclusão, a discriminação a que são sujeitos, seja dia de Natal ou não, atira-me como farrapo inútil para os meandros da tristeza. Que, saiba-se, em nada contribuo para a minorar. A não ser a lançar palavras como pedras que se perderão pelas voltas do caminho. Do caminho da inação. Do caminho confortável onde me instalo. Jesus veio ao mundo e nada resolveu. O homem persiste no ódio, na agressão, na ambição do poder. Eu vim ao mundo para nada resolver. Apenas para tentar ser melhor. Desde muito nova que me rejo pelos princípios da humanidade, da sensibilidade. E venham muitos Cristos ao mundo, e outros tantos profetas da palavra iluminada, assim como a muita vontade de a e b e c... de o transformar, que o ser humano carrega nos genes a maldição com que nasceu. Ser terrivelmente desumano! Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 15:23

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Terça-feira, 9 de Janeiro de 2018

Teatro na universidade autodidacta Esposende

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Ainda que não sendo uma leitora ardente da obra de António Lobo Antunes, procuro com prazer ler todas as suas crônicas que publica na revista Visão. Numa delas escrevia, “a escrita sempre foi para mim um penar profundo. Termino os dias exausto”. Possuo a convicção de que nem todos os escritores se identificarão com António Lobo Antunes. Fico sem saber bem o que pensar. Sendo um grande mestre da literatura portuguesa, mesmo que não da minha eleição, respeito as suas palavras, assim como respeito a de outros escritores que assumem, essencialmente, o oficio da escrita como um ato de prazer. Esta introdução para reconhecer, isso sim, que todo o bom trabalho, em qualquer expressão da arte, e não só, exige muito esforço, dedicação e exigência. No verão passado levei à cena, aqui em Esposende, uma comédia baseada num conto do meu estimado amigo José Felgueiras, “O Chico do Ti’Farturas”. Quando iniciei os primeiros ensaios senti-me apavorada. Sem saber por onde lhe pegar - para mais, reconhecendo que esta era a primeira aventura do género em que me metia. Pedi ajuda, conselhos.... e correndo o risco de todos os meus atores me abandonarem, iniciei os ensaios da mesma forma como pautei toda a minha vida enquanto professora e enquanto pessoa: com rigor, com exigência. Não foi fácil. Como Lobo Antunes, tive momentos de longo penar, até de quase desistência. Este trabalho cênico surgiu no âmbito das atividades da Universidade Autodidata, Esposende, e as pessoas nele envolvidas, com idade já muito respeitável, assim como sem qualquer experiência de palco, condicionavam a tal exigência. Acabei por protelar aqui e acolá. E ainda bem. E o grupo, inicialmente muito disperso, irmanou-se neste projeto com empenho e garra. Sei que fui alvo de muitas críticas. Que entendo sempre como construtivas. Pois foram elas que me incentivaram a nunca desistir. Agora esperam-me mais desafios. Novamente, e tendo em conta a vontade expressa do grupo de teatro, também a boa receptividade do público, iniciarei os ensaios de uma outra comédia. Mas que se faça a distintiva diferença: uma comédia, nunca uma palhaçada, se bem me entendem. Desde a cultura antiga grega, dramaturgos como Aristófanes, Menandro..., Moliére, o nosso Gil Vicente, e muitos outros, apostaram neste registo teatral. Sabe-se, a comédia, send divertida e originando boas gargalhadas, é uma forma de arte representativa muito respeitável. No entanto, já a palhaçada, uma espécie de perversāo da comédia, apenas uma brincadeira, quantas vezes de muito mau tom.

publicado por Bernardete Costa às 12:13

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Domingo, 17 de Dezembro de 2017

TEATRO PARA CRIANÇAS - NATAL

 

TEATRO (PARA CRIANÇAS)

NATAL

 

Esta é a história comum do nascimento dum menino, num dia qualquer. Esta é também uma história possível, tanto no passado como hoje, quando se bate a uma porta e somente o silêncio responde. Este é um Natal que nos faz recordar um outro no passado longínquo. Que também este menino possa ser um mensageiro da paz. Apesar da ambição do homem e da guerra que ele faz.

 

Personagens

CORO

Maria

José

voz

 

Cenário - Um casal desloca-se pela autoestrada num velho veículo.

Vão apreensivos. A mulher está grávida, no fim da gestação.

 

CORO - dum dos lados de cena colabora na contagem da história do casal.

 

 

           CORO

Estes são José e Maria

Velozmente pela autoestrada.

Tamanha sua correria

Que hora de Maria é chegada.

 

 

José - Então Maria, já estás cansada

Como vai o meu amor?

 

Maria – Ai, José, minha barriga é tão pesada

carrega lá no acelerador!

 

José - Tem calma, só me interessa

Mais este caminho percorrer.

E se for mais depressa

Esta carripana vai arder!

 

Maria – Ai, José, não sei que diga

Que mais te hei-de dizer

Ai, esta dor de barriga!...

A criança quer nascer...

 

José - Maria, tem paciência

Àquela estação vamos ter

Mão amiga por excelência

Alguém nos há-de valer...

 

Maria – Ai, José, que o tempo é contado

A criança quer nascer

Se o percurso é demorado

Não sei o que vai acontecer!

 

José - Eis-nos aqui chegados!

Batamos fortemente.

Alguém nos há-de atender

Que é tudo boa gente.

 

Voz  - Quem bate a esta porta

Cujo silêncio dá resposta?                                            

 

José – Ai, Maria, esta é hora incerta

De a esta porta bater

Se não há uma mão aberta

Que mais se há-de fazer?

 

 

Maria - Toda a porta fechada...

Ai, que não posso mais!

Minha barriga tão inchada

Minha voz aqui aos ais!...

 

José - Vê Maria, naquela ponte

Algum lugar por certo

É só subir o monte...

E o longe se faz perto.

 

CORO

 

E por entre ais e o ofegar

Duma vaquinha tresmalhada

Nasceu um menino a berrar

Já a pedir sua mamada.

 

José - Vê Maria, o teu filho nasceu

Ao frio duma noite estrelada

Como outro que está no céu

Nos braços de sua mãe amada.

 

Maria - Também este é seu natal

Dia de seu nascimento.

Poremos notícia no jornal

É grande este acontecimento!

 

CORO

 

E este nascer invulgar

Que verdade nos traz?

Ouvem-se anjos a cantar

Salvé, mensageiro da paz!

 

José - Maria, que nome lhe daremos

Já que aqui foi nascido.

Pois toda a noite o veremos

Sobre as palhas estendido.

 

Maria - Chamar-se-á Jesus

Como esse outro menino.

E também do céu virá a luz

Para iluminar seu caminho.

 

CORO

 

E assim aconteceu

Como também em Belém.

Uma criança nasceu

Do ventre de sua mãe.

 

Esta é a mais bela história

Que na terra teve lugar

Que vos fique na memória

Pra mais tarde a recordar.

 

Bernardete Costa

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 19:04

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Sábado, 25 de Novembro de 2017

CHUVA

a chuva caiu na noite. rejubilou a terra e o homem

ameaçou tempestade. logo serenou.

em seus passos de dança abriu a porta às estrelas.

como uma criança depois da traquinice

deixou-nos apenas um sorriso na vidraça das janelas

o bastante para embalar o sono.

 

a manhã de novo se coroou de sol

e escrito na corola da azálea

uma gota de cristal alimentou meus dedos

que em sobressalto buscam pela marginal

os segredos que a chuva teimosa

teima em guardar. do alto

uma gaivota hesita entre a terra e o mar.

 

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publicado por Bernardete Costa às 19:37

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Sexta-feira, 10 de Novembro de 2017

A MINHOTA

A minhota rural é natural como a água da ribeira. Faz-se paisagem na própria paisagem.

Veste a roupa de ver Deus aos domingos -  também em dias festivos. Depois entrega-se no abraço da igreja ao divino Ser persignando-se amiúdas vezes. Levanta-se, senta-se e ajoelha-se. Cumpre os rituais. Entrega a alma ao Senhor Jesus engolindo-o com devoção até às entranhas.  A serenidade recebida do alto comanda-lhe os gestos e molda-lhe o rosto com luz de ternura. E canta. Dir-se-ia um anjo a entoar com delicadeza subalterna as preces aprendidas na meninice. Mal sai do recinto oloroso de incenso e salpicado de luzes cálidas, agora no adro da igreja, a minhota abre-se em sorrisos que lembram margaridas doiradas ou pontinhos de sóis. E com saracoteios de anca atreve-se aos machos. Fingindo um orgulho feminino que não possui. Porque ser minhota ainda implica aceitação, resignação.  Ainda assim, misteriosa. Avança e recua. Promete e despromete. Quando se compromete rende-se num desejo subtendido, quase calado, à masculinidade que a procura.

A minhota veste as cores fortes da sua personalidade. Estampa-se na natureza como mais um ramalhete vivo de rosas, de margaridas… Com rendas e bordados em alvas blusas atrai como mariposa. E goza esta atração com vivacidade de gaiata e com risos abertos e gargalhadas atrevidas.

A minhota prende os cabelos em lenços coloridos, chamativos, as saias de renda branca em suspiros sob o negrume cauteloso da saia de cima. Nos pés traja as chinelas herdadas das avós; aliás, toda a indumentária foi tirada para a respiração do dia, naquele dia, da arca da avó. E a minhota dança em roda, levando na roda o atordoamento dos rapazes casadoiros. Porque a dança é o ritual por excelência para atrair os machos, para os subjugar. A melhor bailarina terá a seus pés o rapaz mais donairoso, mais bonito. A melhor bailarina é sempre a minhota mais bela, a mais sorridente. O sorriso desce do céu e faz dela uma aparição celestial.

A minhota é conservadora. Respeita os mortos. Chora a saudade dos mortos com lágrimas de viúva, soltas e pungentes. E traja de negro se a viuvez a procurou. Recua na casa buscando o silêncio que lhe mitigue a dor. A minhota ama uma vez. Verdadeiramente. Apenas aceitará um novo amor para assegurar o pão dos filhos. O seu maior prazer é embalar os filhos, depois os netos, no imenso regaço de ternura com que Deus fadou a mulher. Uma ternura, um amor que ameaça rebentar pelas costuras do coração. A minhota quando desaprende de amar torna-se amarga. Deixa de ser minhota. Porque o Minho detém em si todas as alegrias dos verdes, dos ribeiros, das encostas abraçando os vales. O Minho não é viúvo. Refaz-se das vicissitudes dos tempos, ou do tempo, na explosão das margaridas, das urzes, das miosótis, das camélias, dos maios, das mimosas…

Dizem que a minhota é bonita. Quando jovem, sim. Para mim todas, ou quase todas as jovens são bonitas. Como as noivas. Já se viu uma noiva feia?

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Tela "A minhota" de Fernando Rosário

publicado por Bernardete Costa às 19:48

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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

O DIABO NO VERÃO DE 2017

 

 

Um estranho governo saiu das últimas eleições para a Assembleia da República. De tal forma que foi nomeado “geringonça”. Depreciativamente. Futurando enguiços de cremalheiras, quebra de rodas dentadas, ferrugens e outras coisas que tais propiciadoras ao seu péssimo funcionamento.

Pelo contrário, a dita “gerigonça” lá se vai aguentando, mesmo funcionando muito além dos limites previstos para tal conjunto de engrenagens. Saldo positivo. Nas últimas eleições autárquicas o povo reconhece o maior partido da dita, ou seja, a carruagem e as rodas que a movimentam. E esse partido sobe significativamente agoirando, num próximo futuro, não já uma “geringonça”, mas… Esperemos pelo batismo. Que lhe virá da sua direita. Ou não. Talvez a inspiração falte.

 De tal forma ressabiados pelo bom desempenho da “geringonça” há quem confie no aparecimento do diabo. Ah, quando aparecer diabo é que vão ser elas!  O riso escarninho de quem se está marimbando para o país e para o povo.

Mas o diabo surgiu em forma de labaredas de fogo. Num verão atípico, nem muito atípico, já em 2007, se a memória não me atraiçoa, esse mesmo diabo devorou Portugal de lés a lés.

O PR (Presidente da República) ocorre às regiões mais flageladas. E muito bem. Palavras de conforto e abraços urgem em tempo de luto e de tragédia. Mas sabe-se, o PR pouco tem de fazer, a não ser a representatividade do país, quer dentro ou fora de Portugal. O PR não governa. Pode dispensar o gabinete de trabalho. Pode ficar no rincão natal sem obrigações de monta que exijam a sua presença. E pode voar, semelhante ao super-homem, já ninguém lhe extirpa o cognome de superpresidente, de sul para norte, de norte para o sul, de oeste para este, de este para oeste, mesmo a desrespeitar todo o protocolo, que se lixe! E a segurança que não se aflija: quem atacará um PR tão carinhoso e amante de selfs com este e aquele?

A comunicação social exulta. Nunca tamanha matéria incandescente, ainda que trágica, e até mais por isso, lhe permite encher as TVS, os jornais…Os articulistas pulam de felicidade. O manancial de matéria candente e a consequente destruição da floresta e a perda de vidas humanas, mais outras labaredas ateadas pelos políticos que visam o poder, são elásticos para dissertações empolgadas que visam o registo efémero na fotografia e no filme.  Por sua vez, as redes sociais são poços de ditos e desditos. De ofensas, de injúrias, de concordâncias ou discordâncias seguidistas… É a democracia a funcionar. Vale tudo. Dizem, somos livres!

Urgem demissões. Pede-se a demissão do governo. E os que as solicitam são precisamente aqueles que afundaram o país, que o algemaram a uma troica que já reconheceu o seu erro: não era a austeridade que salvaria Portugal.

O PR adora desempenhar o papel de bonzinho. Adora agradar a gregos e a troianos. Desde o tempo em que foi articulista na TV. Sabe-se. Dá um puxão de orelhas ao governo, assumindo, ou dando a entender, que foi nestes dois anos de governação que tudo não se fez para o que se devia fazer. Quando o ordenamento florestal, a vigilância, etc. é um processo longo e cuidado. A pedir intervenção e coordenação de todos os governos de Portugal.

Depois, a questão das ignições. Da parte do PR ouve-se o silêncio. Dá que pensar. E não em coisas boas!

 Mas o mais caricato, o PR acusa o PM ( primeiro ministro) de não pedir desculpas ao país e aos flagelados. Tão fácil seria, mesmo o mais fácil, pedir desculpas. Mas o mais hipócrita.

As desculpas não se pedem, evitam-se.

Desconheço muita da personalidade do PM. Mas quero crer que, essencialmente, tudo fará, ou tentará fazer, para que outro verão idêntico não se repita. Mesmo que se ponha a jeito, Tipo diabo!

 

Bernardete Costa

 

publicado por Bernardete Costa às 20:09

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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

ABSTENÇÃO ELEITORAL

 

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O país votou. O outono abraçou com seus esplendores de ouro e cobre o dia. Ainda assim a abstenção persiste. Não tenho dados no momento que me indiquem se aumentou ou diminuiu. Mas vislumbro uma abstenção, essencialmente da camada mais jovem do eleitorado. Uma preocupação presente, mas também futura. O voto é um instrumento democrático, que nunca se esqueça, conquistado em abril, que nos permite escolher quem nos governa. Para o bem ou para o mal. Ou nem por isso. Agora, quem se abstém, está no seu direito. A nossa Constituição assim o permite. Apenas, no meu entender, não cabe ao abstencionista a razão de contestar este ou aquele resultado eleitoral. Refutar esta ou aquela política. Há vozes que proclamam a obrigatoriedade do voto. Prefiro que cada cidadão entenda a “obrigação de votar” como uma atitude cívica essencial ao exemplar - ainda que com reservas, sabe-se - funcionamento da democracia.

A liberdade, assim como a democracia, é uma espada de dois gumes.

 

Bernardete Costa

 

 

publicado por Bernardete Costa às 18:29

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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS 2017

 

Entretanto muita água correu sob a ponte. Para dizer o óbvio. Muita coisa na vida pessoal, na sociedade, no país, no mundo, evoluiu, algumas vezes para o bem, muitas para o mal.

Em tempos adolescentes, as feiras semanais e festas anuais com os seus carrosséis, pistas de carrinhos, etc., fizeram as delícias da minha geração. E os ruídos, excessivos, a eles ligados sentiamo-los como o embalar estrépito do longínquo mar. Ainda a política se amamentava dum cauteloso silencio; não fosse o Zé povinho acordar para a realidade de uns, miséria e pobreza extremas, e para a verdade de outros, conforto e quantas mordomias.

Seguramente, que a idade está na razão direta da rejeição aos ruídos, sejam eles até nascidos de acordes musicais que tanto me/nos deleitam.

Indubitavelmente, os mais jovens aceitam com maior tranquilidade o excesso de decibéis debitados nas variadas circunstâncias, mormente no que à audição de musica diz respeito.

Este preâmbulo, apenas para afirmar que não serão os múltiplos altifalantes a propalar este ou aquele partido, este ou aquele candidato, que merecerão a atenção da juventude - afirma-se, e bem, o futuro da nação. Esta juventude tão “surda” ao idealismo político (por que razão, por que razões, deuses!), tão assoberbada por outros ruídos e interesses, não comparecerá nas urnas, no próximo dia um de outubro – gostava de estar enganada –, por mais que as televisões e os altifalantes apregoem as vantagens e as promessas deste ou daquele candidato. Além do mais, a juventude, uma boa parte dela, vive essencilmene segundo regras hedonistas, por isso voltada contra o pensamento, assimilando o fácil, de preferência de mão estendida.  

Sim, nos primórdios da liberdade politica, em Portugal, também se usou das mesmas estratégias de “sedução”. Todavia, a abstenção nas urnas era pouco significativa. E suponhamos que sim, ainda se acreditava em certos valores e princípios que haveriam de ornamentar a democracia. Talvez por isso, a geração da "peste grisalha" dispensa estrondosas baboseiras publicitárias venham elas donde vierem; mais, elas incomodam, elas podem induzir, por cansaço e esgotamento auditivo, à fraca participação eleitoral – e façamos de conta que não!

A juventude, mais, as crianças, urgem uma aposta na formação da cidadania. Para que possam entender os compromissos e os ideais políticos. E façamos de conta que sim, para que possam/queiram reconstruir uma sociedade suportada por uma política transparente, justa e democrata.

No entanto, os mais velhos, ou a malfadada peste “grisalha”, e façamos de conta que sim, ainda tentam discernir o melhor para a sociedade e democracia portuguesas.

Pelo menos ainda  sentem e desejam a “obrigação” de exercer um direito conquistado em abril.

 

Bernardete Costa

 

publicado por Bernardete Costa às 17:38

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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

O REFLEXO NO ESPELHO

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Vejo-me ao espelho e que vejo? O meu reflexo, dirão. Sim, vejo o meu reflexo mas não vejo uma grande parte de mim.

Aquela parte de tristeza sem razão ou de motivo ainda que fútil, aquela insatisfação de estar sem saber para quê…, mas também a parte de sorriso fácil, de alegria embebida pelo simples voo duma ave, aquela parte de mim caminhante de sol, vento, neblinas e areias…

Acabei de ver o filme" Meu nome é Alice", em que à personagem principal, Alice, é-lhe diagnosticada a doença de Alzheimer genético com 50 anos de idade; e até esse repúdio de medo não se visualiza na imagem que o espelho me retribui.

Mas, essencialmente, a partida da Daniela, a jovem de ossos de vidro, como diz o povo, em muito contribuiu para este meu estar no espelho sem identificação com o meu eu.

Nada, a não ser um rosto impávido, transparece no meu reflexo que se assemelhe ao aperto na alma que ainda permanece ao saber da partida da Daniela, sei lá para onde; ao saber que a Daniela resolveu, ou alguém por ela, abandonar este mundo por onde caminhou sempre de sorriso aberto e doçura na voz. Se foi um deus que a chamou é inaceitável, um deus não obriga ninguém a partir quando esse alguém sorri com tanta facilidade ao sofrimento, à vida macabra que viveu desde o nascer.

A Daniela, depois de 34 anos de vida a sorrir e amar tudo e todos, não resolveu ir-se embora. Assim, sem mais, desistir. Talvez tenha sido daquele aperto no peito que a estrangulava. A Daniela viu-se obrigada a aceitar o destino de nascimento. Contrariada, creio. Os sorrisos não enganam. O último sorriso não enganou.

Quando soube, o meu eu retido no espelho não se alterou. Mas o meu coração encolheu como um punho a doer no peito. E nada se viu no espelho.

Cortei a mais linda e alva orquídea do meu jardim. Era mais fácil comprar algumas brancas rosas, mas aquela orquídea significava tanto para mim, que só, tu, Daniela, a merecias. A recusa em aceitar a tua ausência definitiva levou-me, resoluta, com tanto amor o fiz, com que delicadeza, a cortar a flor que te seria destinada.

Ainda te fui ver à igreja. Apenas lobriguei a enorme quantidade de flores que te cercava; apenas senti a dificuldade em caminhar até ti numa igreja completamente cheia.

Sentei-me no largo da igreja a imaginar-te tão frágil. Mas tão resistente. Rejeitei seguir-te até à última morada. Depois, sentindo o sol varrer a avenida naquele fim de tarde, dirigi-me sozinha até  defronte ao lugar onde teu corpo já adormecia na inclemência de morte. Tua mãe não suportava a tua partida. É normal: o destino dos filhos não é partirem antes dos progenitores. E ela, os teus familiares, os teus amigos, quem de ti gostava, não acreditavam que de pois duma luta de 34 anos te fosses assim sem mais.

E o meu reflexo no espelho nada diz da minha revolta contra esse deus que te levou.  Deus assim quis, ouvi de alguém que chorava copiosamente junto aos sete palmos de terra que te eram destinados. Não só por ti, Daniela, mas também pela Sofia distraída numa  praia do Algarve, por outras crianças trucidadas pela guerra, pela desumanidade do homem. A haver um deus a sério, ele não te levaria, nem à Sofia, nem a milhares de crianças mortas pelas balas da guerra e pelas agruras da miséria e da fome.

Continuo a tentar visualizar no meu reflexo do espelho uma parte de mim que o espelho não reflete.

Assim por aqui ando, apenas o meu reflexo a sorrir, com modos educados. A conversar normalmente com modos educados.  A aceitar cada dia como mais um com resignação educada. Sou apenas o meu reflexo no espelho. A outra parte de mim perdeu-se nesta inquietação.

 

Bernardete Costa

 

 

publicado por Bernardete Costa às 17:07

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