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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2014

UM ÚLTIMO DIA

 

Um último dia, pedi. Um dia para um adeus por entre o disfarce de olhares emocionados. Vindo à tona na premência da continuidade dos dias. Para a revisitação dos lugares e dum tempo comum. E esse soçobrar de pernas pedindo amparo nos teus braços. E tu seguires parecendo indiferente no teu caminho.

Depois do que aconteceu ou mesmo antes do que aconteceu. Mas que fosse um dia pleno da tua presença para além da materialidade dos corpos.

 

Percorremos as ruas da mesma cidade, levámos os filhos às mesmas escolas, parámos nos mesmos cruzamentos, violámos a rigidez da seriedade na troca dos sorrisos gentis com que saudámos os nossos encontros tão casuais. Para que viesses. E pudéssemos celebrar a plenitude do amor na vertigem do sonho.

 

E tu vieste. Escudado pela proximidade da morte. Vieste à revelia da tua própria essência. Todavia, vieste, vieste para a experimentação da vida, num tempo inadiável. Vieste dizer-me que o amor é eterno.

 

Este é o rio por onde corre o nosso amor, dirás.

Um rio sereno cujas margens demarcam com precisão o caudal sempre igual e constante, acrescentarei.

Persistirás na eternidade do amor. Mas nem sequer ousarás a loucura das palavras. Ficarás, ficaremos aguardando mutuamente a liberdade de amar na correnteza espartilhada dos dias em que vivemos.

 

Um último dia contigo, insisti. Um dia, onde não haja lugar para humilhações, renúncias, decepções e rotinas circunscritas à realidade dos confrontos unívocos. Um dia somente. Onde as asas já trémulas da eterna juventude ousem o retorno a um tempo inesquecível; e seu voo prevaleça na alegria estampada nos rostos, nas mãos e no escândalo dos risos.

 

E tu vieste. Pela força da alquimia com que celebrávamos as nossas memórias. Mas tu vieste tão próximo do fim!

Porém, o espelho ainda reflecte o verde da margem do rio, o cristal da água, o dourado das areias da praia fluvial. O som duma viola emparceira com o voo das cigarras. A prata da lua espreita na noite de outono. E no quarto, o tempo mago da adolescência senta-se no trono erguido pelas nostalgias.

Pelo nosso amor, dizes. E ergo o altar do meu corpo onde depositarei as oferendas ao único deus que reconheço.

Pelo nosso amor, acrescento. Ainda que na morte ou na sua proximidade, pedi.

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 21:57

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