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Quarta-feira, 15 de Julho de 2015

POETA DE BICICLETA

 

 

Mal desponta o dia, os plátanos da avenida

sussurram enredos e desassossegos de viagem

numa primavera tardia. Nem os pássaros nem mais os pássaros

se acolhem na fragilidade da folhagem. Apenas o poeta

reescreve asas nas nuvens do norte; apenas o poeta

estampa nos beirais o ninho do verão.

 

Hoje esqueci o meu país, esqueci a crise, recessão, euro,

esqueci o propriatairo, como diz Fialho, esqueci o proprietário

a garrotear o próximo…; até esqueci a fome na mão estendida;

hoje esqueci o desemprego, a diáspora encartolada,

o desemprego neste país desempregado…

 

Hoje esqueci que sou um cidadão ludibriado

para ser um pouco do que sou…

                                   somente um pouco do que sou.

 

Mal aflorou o dia,

sem pássaros no entretecer da ramagem,

apenas o poeta que sou em mim se levantou.

Pegou na bicicleta, pedalou pela avenida a desafiar as artimanhas

da nortada, neste país de estiagem atrasada.

 

Hoje pedalei como uma parte de mim, esquecida da raiva

uma parte de mim sem país, sem mais mar por onde navegar…

Hoje, poeta, pedalei pela avenida até ao mar…

 

Ó meu mar, meu amante de cada instante,

beijaste meus pés nus e sussurraste canções de ninar;

e de ti as nereidas invadiram o meu sonho,

esse pouco sonho

                                   que meu país ainda permite sonhar.

 

Ah, poeta, sente o sol, a ardência deste sol evocando

tanta ausência aninhando-se sobre a tua pele,

tomando-te por inteiro…, este sol que te conduz poeta

ao amor do sul, te conduz poeta ao azul do poema, te enlaça

                                               num sopro astral de pássaros.

 

Foste poeta um pouco do teu eu, do eu que te resta.

Do eu que te resta sempre que a fragrância do jasmim

invade a primavera instalando em seus braços

                                                           o verão antecipado.

 

Hoje, foste unicamente a lágrima duma nuvem,

a sombra duma bruma; e sobre o mar entoaste a canção do amor,

esse amor, ó quanto amor que nunca esqueceste.

Hoje, foste gotas de chuva, lágrima de mulher viúva, coração de mulher,

foste talvez mais uma qualquer:

apenas o desejo no corpo, o sol ardente premente

na evocação de ti, meu amor…

 

Ó manhãs e tarde dos dias, ó quantos dias,

tu meu amor, tu meu olhar verde musgo, tu Apolo deus solar surgido

na sépia das fotografias a dizeres sim,

a dizeres sim ao amor, a dizeres sim a este odor

a fermentar na espuma das maresias.

 

Depois deste meu acordar, deste eu que me resta,

este eu esquecido do país, da crise, da usura, do euro que nos esgana,

pegaste na bicicleta e retomaste o trilho da banalidade:

foste, poeta, raiz quebrada do teu país, renúncia

                                               e angústia do mal que não fiz.

 

E foste, ah, foste poeta nesse pouco que te resta

                                                                       mais um na bicicleta.

 

 

Bernardete Costa

bicicleta_5.jpg

 

publicado por Bernardete Costa às 20:01

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