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Quinta-feira, 16 de Julho de 2015

O GOSTO PELA LIBERDADE

 

 

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O gosto pela liberdade

 

Corria o verão. Talvez 76 ou 77. Não interessa.

Somente um verão com a sua canícula idêntica a outros estios, os seus aguaceiros acompanhados de trovoadas abafadas e repentinas, as suas neblinas matinais e chuviscos...esses mais presentes na orla marítima onde vivíamos.

Vivíamos temporariamente. Só no verão.

Mas foi esse o tempo escolhido, mal escolhido, por certo, na minha opinião intransigente da altura, tinha ainda 13 anos de idade. Porque era esse o tempo (conseguido a ferros) destinado ao pouco que tinha para nos dar.

A noite chegara. Outra a noite depois.

Não fora que estranhasse muito o facto da ausência dele. Coincidentemente ou não a sua ausência ecoava numa tranquilidade que me aprazia no momento. Detestaria dar-lhe aquelas explicações que lhe eram devidas depois da cena presenciada, todavia eu não achasse motivo para alarme ou mesmo qualquer explicação. Fora só um beijo, e isso na minha idade era o início do despertar para a primavera da vida, aquela que eu sentia desabrochar dentro de mim, como uma flor que abre as suas pétalas em filme de câmara lenta, estonteando e estonteando-se. Ele haveria de entender, pensava.

Como já eram passados três dias, perguntei:

- O pai não vem dormir?

Respondeu-me o silêncio. E pelas caras esquisitas da minha mãe e da minha irmã (o meu irmão passava férias nos tios em Espanha), tinha concluído, decisivamente, que este seria mais um verão idêntico a muitos: as ausências, o tardio da hora, as preocupações, o desassossego constante...

Mesmo assim, algo estranho se passava.

Não! – Respondeu-me a mãe . Ficas aqui enquanto vou a casa tratar duns assuntos.

Depois... Bem, depois as lágrimas corriam-lhe pelo rosto, enquanto estendia uma carta que ele deixara pousada no toucador do quarto, na nossa vivenda da cidade.

Ele partira.

Não nos amava.

Talvez amasse. Só que não o suficiente para ficar.

Partira para voar mais alto. Sentira-se preso como pássaro na gaiola. E antes que o tempo se escoasse (porque “o tempo se escoava como areia numa peneira” eu não entendi), precisava de outros espaços, outras dimensões que não aquelas. As nossas. Concluí através das lacónicas palavras com que se despedira.

O Natal chegou.

A família era insuportável.

Deixara de haver família com o seu lugar vazio. E Natal também!

À meia-noite tocou o telefone. Era ele!

- Perdoai!...

Desligaram-lhe o aparelho na cara.

Que sofra! – disseram – Que sofra o que nos fez sofrer! – gritou a avó.

E assim se passaram vinte natais. Todos os anos o telefone tocava. Todos os anos o telefone era desligado.

Até que um dia, quando percorria a cidade do Porto a caminho do emprego (formara-me sem grande dificuldade – todos os meses era depositada uma mensalidade de que reconhecíamos a origem), hesitei perante aquela figura andrajosa de homem deitado no passeio e parcialmente coberto por pedaços de cartão e farrapos.

O coração quis saltar pela boca:

 – Pai! – gritei!

Era ele. Dormia. Não me ouviu.

Completamente transfigurado, não seria facilmente reconhecido. Velho. Muito velho. Um farrapo humano.

Era um mendigo. Mas como?..., estranhei! As mensalidades enquanto ela e o irmão estudaram nunca faltaram.  Suspeitara (todos, família e amigos eram unânimes no mesmo assunto) que havia outra mulher na sua vida. Também a mãe refizera a sua sem tentar a via do divórcio ou este lhe fora pedido por ele. Nada fazia adivinhar a decrepitude a que chegara. Fora para voar assim alto que se transformara num indigente?

Vi-o mexer-se ligeiramente. E fugi daquele lugar.

Nunca mais o vi.

Jamais o telefone tocou pelo Natal.

 

 

 

Bernardete Costa (Natal 99) 

publicado por Bernardete Costa às 22:07

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