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Terça-feira, 3 de Março de 2015

O cemitério dos vivos

 

Cada um de nós traz no fundo de si um pequeno cemitério aqueles que amou.

(Romain Rolland)

 

O cemitério dos vivos

 

Fernando era uma criança virada para a sua interioridade, mesmo um pouco nefelibata, e, talvez por isso, sentia-se envolto numa nuvem de feitiço que o transportava para os tempos lendários de honra, de cavalaria, de defesa dos mais desprotegidos: bebia da punção mágica de Merlin, e logo se instalava na corte do Rei Artur a empunhar a lendária espada Excalibur com Sir Lancelot do Lago e os outros Cavaleiros da Távola Redonda; via-se Robin Wood ao lado dos pobres e indefesos aldeãos; ou Ivanhoe em luta contra o usurpador do trono, enquanto Ricardo Coração de Leão se ausentava em cruzada pela Terra Santa.

Na escola apaixonou-se pelos mais significativos acontecimentos históricos: com D. Nuno Álvares Pereira cavalgou pelos campos de batalha reconstruindo a independência do seu país; embarcou em frágeis caravelas dominando o mar e seus monstros e conquistou o mundo com Vasco da Gama, Fernão de Magalhães, Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral.

Ainda bebeu em goles de atordoamento a ficção de Júlio Verne, transportado num halo de magia onírica a bordo do Nautilús pelas profundezas oceânicas, na companhia do Capitão Nemo, em Vinte Mil Léguas Submarinas.

Todavia foi com o imortal Camões, lendo Os Lusíadas, que empreendeu a proeza do seu povo ao longo dos mares e das terras do longe; e se apercebeu da vertente poética e mítica duma epopeia que haveria de sustentar toda a dignidade histórica dos seus antepassados.

Era, imediatamente após essas leituras, na mirada do rio que vagueava majestoso fronte à sua janela, que rasgava as vestes da sua timidez; empunhava, então, a espada da justiça, e erguia do esconso de si mesmo, numa vertigem de heroicidade, a vontade inabalável de participar num mundo em reconstrução, que desejava, inequivocamente, fraterno e igualitário.

Fernando cresceu, e a alteração inevitável do seu imaginário sofreu reveses profundos; porque, um código ideológico, no arquétipo duma sociedade voltada para o colonialismo, alimentava o seu país, como um veneno com efeito retardador, visto que todo o mundo ocidental havia já desistido do papel superior de colonizador, reconhecendo o direito à independência dos povos autóctones; e o país da sua inocência desmoronava-se, paulatinamente, como a implosão dum prédio em câmara lenta.

De certo modo, prevalecia ainda o desejo de ser imortalizado como um herói, tal D. Nuno Álvares Pereira da sua meninice. A pátria, a sonoridade gritada no hino nacional, tomava-lhe o ser como se uma punção alienatória lhe enchesse o peito de um patriotismo largo.

Chegou o dia tão almejado. Com a impaciência de um noivo perante o altar, aguardava a hora de partir. Haveria de lutar, até morrer pela sua pátria se tal fosse imperioso. “Angola é nossa” vibrava nas rádios; era urgente extorquir da posse sanguinária dos rebeldes a terra que havia sido conquistada pelos seus de antanho; “pela igreja e pela pátria”, murmurava como numa litania; e Fernando evocava Ulisses: “Ao mar, pois eu me fiz, mar alto aberto”.

O navio refulgia como uma gema incrustada na prata tranquila do atlântico. Sempre o intenso azul a fazer doer os olhares, sempre o sol a fazer arder a pele como num fogo eterno. Aquele batalhão fervia de ansiedade aguardando a vista de terra. Um forte sentimento patriótico unia-os manifestado pelas exclamações e pelas emoções exacerbadas que fluíam dos seus íntimos como uma verdade inquestionável, como um sopro divino: um pedaço do seu país que urgia defender dos usurpadores rebeldes que, a pretexto de interesses do povo, haviam chacinado um grupo considerável de famílias brancas. Aqueles 2000 soldados, havia-os de todo o território continental desde o litoral à interioridade esquecida pelos governantes e pelos citadinos mais cosmopolitas, partilhavam consigo do mesmo fervor patriótico, ou assim lhe assemelhava.

Contudo, Fernando isolara-se do ruído proveniente das conversas exacerbadas do grupo: a proximidade de terra, a aventura e o fascínio de um verde que o sugava, corpo e alma, que exigiria dele, talvez, a própria vida, prendia-lhe o olhar emocionado transformando-o num lago morno de sal.

Durante oito dias, num barco de todo dissemelhante às caravelas e às naus dos heróicos marinheiros das histórias de menino, havia mareado pelo oceano por rotas já navegadas há séculos. Até que ancorou na foz de um rio em terras negras de África.

Da cidade de Bissau, partiu quase de seguida para 65 quilómetros a este. Inegavelmente, entrou num mundo novo. Um mundo estranho de odores, de cores…de deslumbramentos. Após os primeiros dias de acomodação no quartel, iniciou os contactos com pessoas e lugares; e nada batia certo com o apregoado através das rádios e dos jornais no seu país. E diziam-lhe que aquela terra era Portugal, e diziam-lhe que aquela terra havia-lhe sido sonegada…

As dúvidas instalaram-se no seu espírito de soldado. Que fazia ali? Lutaria por quem e para quê? Que guerra “bendita” poderia gerar a paz, como seria possível uma arma, uma única arma, transmutar-se na mensageira pomba branca?

Fernando iniciou a sua aprendizagem do medo uns dias depois, quando a coluna militar em que seguia se atolou no lamaçal, que restou da impetuosa chuvada acabada de cair dum céu de chumbo e electrizado.

De repente, um restolhar na mata paralisou Manuel, um dos empacasseiros ao serviço daquele batalhão, que procurava com mais dois soldados desencalhar do lodaçal o rodado dumas das viaturas. Os três combatentes estacaram num silêncio sepulcral; simultaneamente que puxavam o cão das suas G3, tentavam ver o impossível através dos diversos tons de impenetráveis verdes. A restante coluna ficou suspensa num mutismo pesado de chumbo, somente quebrado pelo cuidado engatilhar das armas e dos corpos que se refugiavam na protecção das viaturas.

Verificando que da floresta somente se ouviam os sons peculiares da vida animal selvagem, o comandante, Fernando, deu ordem de marcha. À frente, seguia nas sombras projectadas pela mata o batedor, que usando o detetor de metais, pesquisava a eventual existência de minas, tão abundantes pela picada. Com sorte haveriam de passar, com sorte haveriam de entrar pela aldeia adentro por entre a escuridão que a ausência da lua provocava. Depois, bem, o comando geral havia sido preciso. As armas troariam matando o silêncio desprecavido da noite, e a retirada rápida e segura seguir-se-ia: meter medo, assustar e…se assim fosse necessário, “Matar para não se ser morto!”

 O tempo foi decorrendo por entre a angústia dos dias e de rotinas exasperantes e de medos, sempre os medos de ser apanhado por uma mina, por uma bala perdida…Essencialmente, o medo de se confrontar rosto a rosto com o inimigo. Ou com o rosto da vingança.  

Com o decorrer do tempo, acabou, inevitavelmente, por desenvolver em si o instinto da sobrevivência e até de alguma insensibilidade.

Numa noite de investida, para intimidar a população, que supostamente albergaria no seu seio alguns rebeldes, Fernando, apesar dos sentimentos patrióticos que lhe inchavam a alma como um balão, reflectia no que se ia passar: eles não iriam ser atacados, não urgia a defesa, nem a proteção de alguém dos seus em perigo eminente. Eles iam resguardados, acautelados e dissimulados com os seus fatos envoltos em ervas, a coberta da inexistência da lua, numa acão surpresa…

 

Os seus sonhos acabaram por refletir as memórias terríficas dos dias e mal conseguia dormir; na sua alma prenhe de idealismos e de amor ao próximo, os conflitos morais instalavam-se como parasitas no hospedeiro; sentia a própria identidade em perigo.

Entretanto, aos poucos despertou para o outro lado da guerra. E passou a interessar-se pelos costumes, lugares, pessoas e religiões. Descobriu olhares e expressões, sorrisos e choros, danças e cantares, num povo bom e afável; apaixonou-se por magníficas paisagens de rios e matas; aprendeu a identificar aromas na vegetação, na terra e no ar; tornou-se cúmplice dos sons, principalmente os da noite. África começara a exercer o seu fascínio de feiticeira negra. Amava já aquela terra tanto como o seu berço de nacionalidade.

Porém, os conflitos bélicos não cessavam; nas noites e nos dias permanecia em alerta angustiante…. Até que deixou de questionar a sequência do tempo, das estações. Porque Fernando fora treinado para comandar, combater, e obedecer.

Uma noite…

 Comandava o seu pelotão numa missão de reconhecimento através da escuridão traiçoeira que se cerrava densa na mata. Um delator, colhendo informações junto da população, avisara que um grupo de guerrilheiros andava por perto,

Um ruído, uma sombra fugidia… e dezenas de armas abriram fogo sobre a povoação adormecida que contornavam. Não havia dado qualquer ordem, o medo avançava dentro dos seus soldados e apoderou-se dos seus corpos, dos seus reflexos: dezenas de G3 vomitaram fogo das suas goelas assassinas, matando, matando à toa, homens, mulheres, crianças… Estupefacto, Fernando, e em estado de choque, presenciou o drama da morte num cenário dantesco e animal.

Recuperou algum sangue frio e deu ordens de cessar-fogo e de retirada. Mas o pior estava para acontecer,…quando teve um encontro inesperado com um menino africano.

Instruído pela máquina de fazer a guerra, Fernando ordenara a retirada rápida, como lhe haviam ensinado e ordenado, e cumpriu fazendo o que lhe ensinaram e ordenaram. Quando se preparava para regressar, e após o troar das armas ter cessado, deparou com um menino africano, prostrado em agonia sobre a terra queimada, submetido à dor de uma bala que lhe dilacerava o corpo e suplicando por ajuda. Fernando ainda hesitou, mas as ordens que recebera martelavam-lhe o cérebro e embotavam-lhe a alma, a compaixão. Olhou ainda o céu, vagamente, como se uma luz estelar o pudesse aconselhar, ou o salvasse daquele momento em que o seu cérebro lutava desigualmente com a sua alma; numa imagem surrealista, visualizou um helicóptero descendo, recolher em seu ventre salvador aquele menino que num suplício de dor implorava: ajuda-me…, mamã, mamã….

 

*(…) Depois o azul do céu toldava sob / o fumo das granadas / que o soldado lançava/ ignorando a morte nas trevas. / Reconhecia que os braços lhe obedeciam enquanto / o medo o envolvia numa mortalha animal e / arrastava pelo verde o que sobrava da sua dignidade. / Nos olhos retinha os espectros dos estilhaços enterrados na carne carbonizada / e apenas identificava sombras fugindo aos horrores / e seus gestos eram apenas gestos / de um autómato articulado pelo pavor da morte. (…) (1)


Ainda hoje no cemitério da sua alma, onde permanecem os fantasmas de homens, mulheres, velhos, crianças de todas as cores, há um menino negro abandonado a escoar-se em sangue, que o visita pela noite…E a voz suplíce entranha-se nas paredes, propaga-se pelo quarto, enche de horror o pesadelo, a noite…E quantas vezes os dias, quando o troar das armas mata outros velhos, outros homens, outras mulheres, outras crianças.

 

* Por fim, trouxe consigo o silvo das granadas / e o ódio chispava no seu olhar / sempre que reconhecia a terrífica verdade. / Rebelde em seus lancinantes gritos / ergueu a arma das palavras / e enfrentou a mentira do poder e da manipulação. / Hoje, quando o cansaço lhe treme as mãos / e a boca perdeu a memória das vogais / foge como as aves nocturnas à luz do alvor / e remete-se ao silêncio.

 

*(Excertos do poema “O soldado” de Bernardete Costa)

 

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 19:04

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