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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017

NO MEU TEMPO...

 

No meu tempo…
Que pérfido começo para uma narrativa quer se trate dum conto, duma crónica, quer dum artigo de opinião…
No entanto, convenhamos, esta noção temporal empurra-nos para uma determinada ação situada num tempo mais ou menos preciso, o meu, o da minha geração, aquele em que se alapam as memórias mais idealistas, mais líricas, mais coloridas, mais inocentes.
Obviamente, reconheço que todos os tempos são tempos com grandes similitudes.
Ainda assim, a tentação de aqui espelhar algumas diferenças é enorme.
No meu tempo sofria-se de solidão que se comprazia nas páginas dum livro, "morria-se" de tristeza por amor… e vivia-se loucamente, minuto a minuto, sugando até ao tutano o que de bom a vida ofertava - o sexo era o objectivo romântico a concretizar, nunca o princípio para a gravidez dos afetos.
No meu tempo, quando a solidão pesava, reunia-se em grupos de café, em tertúlias, em bailes, onde os corpos se enlaçavam e consentiam emoções e sensações idílicas, quantas vezes consentidas, quantas vezes proibidas.
No meu tempo as pessoas prezavam estar juntas. Trocavam experiências, conhecimentos, vivências, deliciavam-se com música que embalava o corpo e a alma. Tinham ideias, eram voluntários na construção dum mundo melhor. A idealidade, ainda que remetida ao espartilho da utopia, orientava-lhes os passos, norteava-lhes a vida.
No meu tempo vivia-se com pouco, o pouco nos satisfazia, o ser dominava o ter.
Hoje a solidão curte-se em bares e discotecas exíguas e fumacentas sob o som manuseado pelos DJS, numa asfixia de espaço e de ar; lugares altamente perigosos, onde os corpos suados exalam hormonas a transpirarem shotes e cerveja. Vive-se… e até se morre nestas tumbas à superfície da terra. E é-se feliz “micando” companhia por uma noite.
Hoje não se conversa, grita-se para que algo escape por entre o inferno duma música metálica e composta em computador. Grita-se e gesticula-se no vazio ideológico. Vive-se para o sexo destruindo a sua beleza, banalizando-o.
Hoje encarreira-se pelos lugares in frequentados pelas celebridades das revistas cor-de-rosa e esboça-se sorrisos dissimulados para a fotografia.
Hoje sofre-se de uma solidão alienada. Homens e mulheres procuram-se como sempre o fizeram, ou não fossemos todos bichos, mas camuflando o ser numa agonia de ideias, num vazio de alma, acorrentados ao domínio do supérfluo, do imediato, da conquista fácil…
Hoje dispensam-se praticamente os livros e as palavras estão em demodé. Tudo o que faz pensar é um alvo a abater!
Sendo certo que hoje os tempos são outros, no entanto com aprazimento o digo em relação às novas tecnologias, que abriram outros horizontes, à escolaridade obrigatória até ao décimo segundo ano, ao serviço nacional de saúde, à facilidade em nos locomovermos rapidamente dum lado para outro... ; tudo é mais fácil de conseguir (o simplex ainda vigora, creio...), tudo se encontra ao alcance da mão usando um computador e a Internet, e os serviços públicos respondem rápido e eficientemente (malgrado alguma burocracia que alguns mais papistas que o papa se empenham em fazer prevalecer) e muito mais que em muito nos facilita a vida.
Hoje chamam-me cota. Mas sou infinitamente feliz por o ser e ainda deter alguma capacidade de lógica. Sou uma espécie em vias de extinção. Vivo numa solidão de livros, de palavras e de poucas amizades. Porque ainda não desisti de ser eu própria. Porque quero ser eu a puxar pelos cordelinhos da vida que traço…
Pelo menos esforço-me.


Bernardete Costa

 
 
 
publicado por Bernardete Costa às 18:22

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