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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

“EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É REI”

 

“EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É REI”

 

Um sol de vapor ardente vestia a hora de meio-dia, naquele sábado.

Gabriel atirava à imobilidade sufocante do verão uma agressiva gargalhada. Com efeito, ele previa, com algum cinismo, a pacatez amorfa dos seus companheiros, sempre que lhes procurava abrir os olhos e os ouvidos para o drama dum mundo prestes a sucumbir.

Era uma constante quando que se encontrava com o seu grupo de café: conversa puxa conversa, e do trivial enviesava-se pela política, ou por temas fraturantes que ameaçavam o mundo e a civilização europeia em particular; sempre com indignação a sublinhar o seu discurso, Gabriel invadia encalmado aquele espaço sonolento ao ponto de Carlos, o proprietário, de rosto rubicundo, aludir com o silêncio do olhar quem no seu ledo sossego se comprazia na leituras de jornais, na feitura de palavras cruzadas, no desafio do sudoku…

Luana, com um brilho foliáceo nos seus olhos verdes, lançava a voz para o companheiro elevando-a sobre as demais:

- Deixa-te de silogismos ou de gritos de razão… - Sabia a que Gabriel se expunha com tal diatribe - Que raio de mania de remar contra a maré. Falas com a imponderabilidade dum louco… ou dum poeta.

- Interessante o que dizes, Luana, logo tu - resmunga Gabriel. - Mas reconhece, ainda que loucos, os poetas, são eles que dão chicotadas de luz na escuridão!

- Querido, eu só quero que te acalmes, ainda te dá uma apoplexia! - e Luana, simultaneamente que num gesto mole lhe acaricia o rosto por barbear, alega: – Com efeito, trata-se de uma confraria secreta de alquimistas a conspirar nas costas do mundo. Detém o poder que lhes confere a usura…

- Efetivamente, mas eu sei pelo menos o que está errado no mundo - interrompe Gabriel, agradecendo a cumplicidade da amiga com a ternura rápida dum olhar.

Por sua vez, Almeirinha, encolhido num refúgio de sombra, diz na sua voz suave de quem está de bem com tudo e com todos:

- Reconheço que, por mais errado que esteja, não o podemos mudar. Muitas das coisas más do mundo não eram assim tão más até alguém as modificar - realça com alguma timidez. E de alguma forma satisfeito com a facúndia retirada de algum livro que lera, levanta-se e sai como uma silhueta a evaporar-se na tarde fumegante de sol.

- Desiste, pá, volta costas à realidade… Cagarolas…! - explode Gabriel, enquanto a figura de Almeirinha  se dilui pela rua. Depois, com uma tranquilidade forçada, sente o apelo de Carlos, que com o dedo nos lábios pede que baixe a voz, continua:

 -  Eu não sou melhor do que qualquer um de vós, só estou mais atento, porra!; vejo para além dessa muralha que eles continuam a erguer dia a dia que passa - e num exaltamento crescente - Eles não desistem, eles estão por aí. Parasitas, sugando-nos a pele, roendo-nos os ossos até ao tutano! O que nos acontece, é que permitimos, com a preguiça duma lesma e a mente dum caracol, a supressão da indignação e de exame. Vivemos formatados, a única realidade é aquela em que estão empenhados; sentimos, vemos e ouvimos da forma que melhor serve os seus interesses. E digo-vos mais - acrescenta com desdém e elevando de novo o tom de voz -, a comunicação social detém o maior poder, comandantes bárbaros dum exército de idiotas. E sabem quem os domina, quem os sustenta? Eles, sob o disfarce da virtude propalada até ao ridículo. Mas nem todos somos burros com palas nas orelhas…

Manuel Maria, por sua vez, levanta o olhar mortiço dos jornais:  - Que mal têm os jornais? Eu pelo menos leio alguma coisa, são jornais, pois então, mas sei do que se passa por esse mundo fora. Enquanto tu, Gabriel…

- Eu! -  corta desabrido o amigo - Nem perco tempo com eles. Que verdade, que ética jornalística, que merda informativa: manipulação é o que é, lavagem ao cérebro…; simples fogachos de palavras e imagens, armadilhas para incautos, o que parece não é, e o que é não parece.

A mão ligeira de Luana acaricia o cocuruto do companheiro, contemporizando:

- Ele tem razão, amigos. É só investigar quem são os donos da comunicação social. Todos ou quase todos disfarçados, difícil detetar-lhes a origem…

- Manuel Maria, acorda! - persiste Gabriel com agressividade a aflorar a todos os poros da pele - Quando deres por ela comem-te as papas na cabeça. Pesquisa, descobre o “traseiro” dos gajos.

- Bem, interpela Luana, vê se te acalmas e tem tento na língua, ainda arranjas sarna para te coçar!

- Venham eles, venham eles! – gesticula Gabriel tonitruante. Somos uns idiotas, tolos, cegos, e maior cego é aquele que não quer ver; e com gosto diabólico pela controvérsia, prossegue: - São como uma água de mina infiltrando-se gota a gota nas mentes, distorcendo valores, descaracterizando sociedades, provocando a aculturação… Assim ninguém dá por eles, e claro, manobram, minam…

- Pois, alucinações, realidades que só tu vês. Ainda gostaria que me provasse por A mais B mais C…- interpela Carlos, já uma fadiga crónica a instalar-se no embaciado dos olhos.

- Queres mais provas? Ousa, levanta o cu, pensa. Se não fosse dramático...

Carlos, querendo colocar alguma sabedoria no calor da dissertação, exclama:

- Bem, não és o único inteligente, eu já verifiquei certas coisas, muitas dessas afirmações que fazes…Porém, não as atiro aos quatro ventos como tu. Sou dado às pacatezes, possuo porta aberta, à menor, aí vem sarilho…

- Eu nem acredito numa vírgula do que dizes – profere agastado Manuel Maria, apontando o dedo em riste a Gabriel. - Teorias da conspiração, e está tudo dito; eu fico-me com o meu sossego, a minha tranquilidade, se quiseres, a minha vida algemada, mas segura, sem riscos desnecessários…

- Porra! - insiste Gabriel - Levanta também o cu, tenta ouvir os silêncios, ler nas entrelinhas, pesquisa, dribla a censura… Ao que parece, tenho a rede dos neurónios mais estimulada, e não como gato por lebre, ora essa!

Luana, tentando refrear os ímpetos, interrompe em tom sereno mas firme:

- Bom, Gabriel tem razão, sei bem quem são os patrões da comunicação social; até mudam de nome os fulanos, além de que ao longo do tempo a história não lhes poupou os epítetos: parasitas, agiotas, especuladores…

- E a banca, e a banca! – interrompe Gabriel gesticulando - Se não fosse dramático…  

- Claro, e gamam-no todo, e nós por aqui, de olhos vendados, a dizer amém, nesta escuridão sem pontapés na luz…, que não sou poeta – acrescenta Luana sorrindo para o companheiro com mal dissimulada ternura.

- Quando menos se esperar - garante Gabriel que retém na sua a mão de Luana - estão em cima de nós. E continuaremos a chiar como ratos, e não esperem que nos pisem os rabos, se é que me entendem!

Carlos levanta-se:

- Por hoje já chega, não adianta nada, não temos poder algum ou como lutar contra eles, tu próprio o dizes, eles dominam. Se assim é…, vamos à nossa vidinha.

- Isso também não - retruca a mulher -, podemos escoicear, dar respostadas…

- Ou mereceremos o vitupério de completos idiotas - interrompe o companheiro - Vencidos mas de cabeça erguida, irra! Pelo menos eles hão de reconhecer que lhe descobrimos a careca, que lhes apontaremos o dedo…, e hão de tremer de susto; um só soldado em La lys fez estremecer os alemães, vencido, mas deu cabo de muitos. Chamaram-lhe o Milhões, tantos os que caíram sob as rajadas da sua metralhadora - assegura Gabriel, enleado numa onda de admiração.

- Ah, a tua eloquência é capaz de aniquilar moscas em voo - enfatiza Luana. Porque não vais para a política? – e mais cordata -  São os tempos de hoje, querido!

Do fundo da sala, uma voz tímida, “os tempos são sempre bons, a gente é que não presta mais”.

 

O casal resolve por fim abandonar aquele espaço de sombras onde a apatia sufoca corpos e mentes. O silêncio caiu desamparado no café. Os poucos que ficaram respiraram de alívio. Para quê conhecerem uma outra realidade… e viver com o susto do imprevisto. Mil vezes preferível o seu cantinho sossegado, onde até a poeira pede licença para entrar.

- É bom saber o que está errado no mundo - alvitra alguém a medo.

As ruas, submergidas por uma neblina ardente de fazer suar os termómetros, acolheram-nos desinteressadas.

Luana e Gabriel caminham lado a lado num mutismo cúmplice. Entretanto, Luana interrompe o sossego dos seus pensamentos, explanando:

- De pouco ou de nada valem as nossas palavras; depois, são tantas as mentiras, a crueldade dessas mentiras propagandeadas até à exaustão em falsas  imagens…, as distorções dos acontecimentos! A realidade é como uma espada de Dâmocles, nem todos se apercebem do perigo iminente.

Gabriel, pegando num gesto doce a mão de Luana, vira-se para ela e retruca, insubmisso:

 - Mas o que mais me irrita é dizerem-se “os eleitos”! E o resto uma trampa, milhões de seres humanos, visco, merda pura. Óbvio, os americanos, os grandes culpados, dão-lhes toda a cobertura… Hipócritas, ou idiotas mais do que todos, nem sei, deixam-se abocanhar. Ah, a hipocrisia é outra forma de crueldade.

 - Querido, todavia alguém tem razão quando diz: “a civilização é definida por aquilo que proibimos mais do que por aquilo que permitimos”. Num mundo perfeito todas as pessoas seriam como os gatos às duas da tarde – corrobora conciliadora Luana, tomando o braço do companheiro.

- São as minhas convicções, querida, alimentadas no raciocínio, e com terror sei que as minhas certezas verão a luz do dia, talvez tarde demais para o mundo ocidental. O pior é esta apatia, este deixa correr…, este charco lodoso onde nos afundámos. Sabes bem, os pesadelos duma realidade emergente apanharão muita gente desprevenida; talvez em gerações vindouras… Lamento por quem cá fica.

- Eu sei, querido, mas precisas de ter algum cuidado, talvez debaixo deste céu azul não caibamos todos.

- Quero lá saber, que me algemem, que me recolham num fundo cavernoso, que me estripem a luz; a maior luminosidade é o meu discernimento, não me deixo alienar - gesticula com o desamparo dos braços.

- Então, vamos os dois, amor. E num amuo de gata, não estejas zangado comigo…

- Nunca, amor, e com um sorriso morno, se eu pudesse dava-te agora um trio de rosas.

Luana arremessou ao sufoco da tarde uma risada cristalina.  - O que mais me delicia em ti… é essa transmutação.

Gabriel para olhando-a com o musgo doce do olhar, para acrescentar de seguida com teimosia: - É execrável, a banca, os média, os seguros…e até o cinema, vê lá…, descobre-os, estão todos lá, lobos com pele de cordeiro, estás a ver…

- Acalma-te, acabas por endurecer o coração…

- Mortos. Fuzilados, todos, vão prá puta que os pariu! Mas a culpa é nossa, cambada de mentecaptos - e com ódio a sair pelas órbitas - Em terra de cego quem tem um olho é rei – e acrescenta -  Mas a minha raiva nada tem a ver contigo, meu amor.

Ouve-se um grito de gente, um eco de medo, o pavor salta dos inúmeros olhares que se fixam no casal enlaçado. Distraído pelo amor que os une. O veículo de reluzente negrura não trava.

 

Bernardete Costa (2014)

 

publicado por Bernardete Costa às 21:46

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