https://youtu.be/QLCDymoJD_0

Os Meus Livros

https://youtu.be/Fke4JjUZDTs

posts recentes

O REFLEXO NO ESPELHO

"O VELHO DA HORTA", PELA ...

MÚSICA DE TODOS OS TEMPOS...

ESPETÁCULO UAE (UNIVERSID...

PORTUGAL EM FESTA

O REI TRISTE

A VOZ DO RIO - CONTO INFA...

A POESIA NA ESCOLA DE ABA...

ÓDIO

SORRISO

arquivos

pesquisar

 
https://youtu.be/Fke4JjUZDTs
Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016

CARAÍBAS - atropelos de uma viagem

 

 

 

           

 

            Atropelos de uma viagem

          

          Era ainda noite cerrada e já o trânsito, nomeadamente o pesado, afluía pela via e prenunciava mais um dia de Verão movimentado, com as devidas consequências para os que, em gozo de férias, percorreriam pacientemente o asfalto à procura duma brisa marítima e de uma clareira rendilhada pela sombra dos pinheiros, onde fosse possível piquenicar com a família, e a traquinice infantil pudesse estar resguardada de eventuais perigos.

          Já dentro do avião - TAP 380 (voo) - Porto – Lisboa, aguarda-se que o aparelho inicie as manobras e levante voo. Neste momento, fecho a torneira do pensamento e recorro à leitura "Eva Luna" de Isabel Allende como forma de fuga aos meus medos.

          O grupo está silencioso. Sobressai o roncar dos motores, simultaneamente com o palrar de uma criança, aqui ao meu lado direito.

            O avião inicia a descida em direção à cidade de Lisboa. Não olho pela janela. Depois do meu batismo de voo nas férias passadas, passou-me um pouco a curiosidade e a capacidade de me deslumbrar com o panorama do manto de nuvens sob o meu olhar, ou com o recortado sinuoso da costa portuguesa. E depois há este ligeiro enjoo que me não larga sempre que o aparelho elabora alguma manobra, descida ou subida.

          Eis-nos no aeroporto de Lisboa que evidência, mais do que nunca, nesta época de veraneio, tráfego aéreo excessivo, talvez a precisar de ampliação urgente! Compro um livro de poesia de Maria Rosário Pedreira. Ótima oportunidade para descobrir esta escritora até então desconhecida para mim. Isolada dos outros, deixo-me levar pela poesia até dimensões impensáveis onde as emoções se quebram entre risos e lágrimas.

          Já dentro do avião Airbus 310 TAP,  a viagem recomeça dando lugar ao eterno encanto quando a visão incide sobre o que se ama: Lisboa,  varina e moça, como diz o poeta, vista do alto: pequenina, arrumada, encantadora! É a vantagem da visão das alturas: desaparecem, como por encanto, as lixeiras, as barracas, a mendicidade, o atropelo rodoviário. Lisboa, adormecida no regaço do Tejo, é agora um ponto arrumado no território português.

          No momento, é um manto denso de algodão que provoca reminiscências da infância: as batalhas de almofadas entre irmãos na fugaz ausência de minha mãe; logo de seguida, o espaço cobre-se de mantos de seda quase transparentes, com rasgos de água azulada: o mar que se funde no horizonte com o azul infinito do céu. Deste lugar virado ao óculo da janela, é azul e branco o que nos cerca; uma sensação plena de tranquilidade, ainda que, de quando em vez, contrariada pelo pensamento catastrófico dum desastre aéreo!

            Depois de muitas horas de voo, o aparelho sobrevoa o destino: uma ilha plana, esta da República Dominicana, onde sobressaem extensos campos de verdura bem demarcados… e casebres, muitos casebres! Muitos servirão de abrigo aos díspares produtos agrícolas, mas a sua maioria, concluirei mais tarde, é a miserável habitação dos autóctones. Adivinha-se com constrangimento a pobreza da população. Todavia, vislumbra-se do alto o aeroporto de linhas modernas e aerodinâmicas. Desoladamente, desorganizado no seu interior; patenteando infra-estruturas precárias. Gente de raça negra e mestiça, aspeto triste e num quase silêncio envergonhado, acorrem pressurosos procurando ajudar os viajantes a troco de uma moeda.

          Segue-se viagem por uma estrada povoada de remendos que me faz recuar ao passado, recordando as vias portuguesas, há uns bons 30 anos. A camioneta, assinalada como turística, evidência muitos anos de árduo trabalho através do seu aspeto ruinoso e desengonçado; outras, porém, vistosas e transpirando modernidade e conforto, são destinadas ao usufruto dos turistas mais desafogados financeiramente; sendo que, a constatação é flagrante: a população desloca-se em transportes complemente obsoletos, amontoada até nos tejadilhos entre cestas e os mais diversos e inesperados artigos!

          Sentindo o calor à mistura com o cansaço, procuro debelar o sono que pretende cerrar-me as pálpebras e vislumbro, por entre a miséria generalizada, zonas turísticas sujeitas a um esmerado tratamento urbanístico e estético. A paisagem envolvente é composta por arvoredo rasteiro, muitas palmeiras, bananeiras aqui e acolá, plantações de cana-de-açúcar, laranjeiras e gado, muito gado alimentando-se dos verdes pastos em que a região é rica.

As povoações são pobres: dominam os casebres já referidos, ou então pseudas habitações, meros cubos de tijolo que têm como telhado o faiscante azul do céu ou o negro da noite pontilhada de estrelas; os passeios são inexistentes, ou na melhor das hipóteses, escaqueirados, e as ruas precariamente pavimentadas ou sem qualquer tipo de pavimentação; muitos dos esgotos correm a céu aberto imperando com o seu odor forte e nauseabundo naquela anarquia urbanística. Ainda assim, aqui e acolá, avistam-se algumas residências ornamentadas por arabescos áureos e protegidas por gradeamento que, praticamente, só deixa livre a porta de entrada da moradia, já que até as varandas e os recintos de lazer são complemente vedados de cima abaixo. Prisões douradas, é a impressão marcante que ficará retida na minha memória.

           

          Consternados pelo passeio noturno, o assombro é geral quando deparamos com as imediações do hotel: num encaixe perfeito com a natureza, isento de muros e de vedações e de grades, rodeado por belíssimos canteiros ajardinados, onde as plantas tropicais - sempre a profusão das palmeiras, como cartão de visita - alternam com arbustos prenhes de flores multicolores – hibiscos na sua maioria -, numa composição que de tão artificial nos exorta  à visão perfeita duma tela naturalista! Aqui e acolá, pontilhando os jardins cuidados, surgem brechas de lodosa floresta, que sombreiam os passeios empedrados orientados nas diversas direções das vivendas, da praia, dos restaurantes, dos lagos, das fontes...Ah!, e a água caindo em cascata é como um fundo musical neste admirável cenário! E projetada pelo mundo do imaginário, um apelo indomável impele-me através daquele espelho líquido até ao País de Alice das Maravilhas!

            O dia acorda cedo e, por entre os reposteiros, os raios atrevidos da claridade cumprimentam convidando-nos à contemplação deste cenário edílico, que nos conduz até à praia de areias macias e brancas como açúcar.

          Logo de manhãzinha, ainda antes do pequeno-almoço - que de pequeno nada tem, já que a profusão de alimentos é tal que contentaria um dia inteiro uma família de 5 pessoas! - o sol chapeia todo o conjunto hoteleiro inundando-o do calor promissor. Depois de um Inverno húmido e gélido em Portugal, sabe bem esta espécie de torreira, que desafia para os inúmeros mergulhos nas águas azuis - esmeralda das Caraíbas.

          Diariamente, sopra um brisa morna que, bem-vinda, arrefece os corpos do ardor deste sol escaldante; algumas nuvens, como se verificará ser vulgar, passageiras e apressadas, mas por vezes carregadas de pesadas gotas de chuva, encobrem esporadicamente a abóbada azul do céu; e desabam com uma força torrencial sobre os incautos passantes que se divertem sob o dilúvio refrescante e imprevisto.

          É, quase sempre, no self-service que tomamos a avantajada refeição primeira: são os frutos tropicais, nomeadamente o abacaxi, (tem a minha preferência), a manga, a papaia….; seguem-se os doces (prefiro a goiabada); os fritos (salsichas, ovos mexidos ou em omeleta, banana frita e outros (nestes não toco); os pãezinhos, as tostas, os queijos, o fiambre...e mais, muito mais que tenho dificuldade em enumerar.

          Parte da manhã é passada na praia, mais precisamente junto ao mar. Esse mar dos guias e postais turísticos: azul e verde, terrivelmente verde e azul!; a praia é extensa e bordada pelo rendilhado das palmeiras carregadas de cocos; e os frágeis pinhos batidos pelo vento, entrelaçam-se no porte esguio daquelas refrescando a extensão assombrosamente branca do areal.

          Na praia, raparigas mestiças - é um povo traçado do índio Taíno com o Africano, todavia existe cruzamento com raças Hispânicas – oferecem, numa graciosidade inerente a esta mestiçagem, nomeadamente nos gestos, no ondear dos corpos, nas mãos expressivas e, indubitavelmente, nos sorrisos alvos, espetadas de frutas dispostas com harmonia num tabuleiro ornamentado com plantas e flores tropicais.

          De noite, holofotes dispersos por entre tufos de plantas coloridas dão uma imagem de sonho ao ambiente - poder-se-á idealizar o país das Maravilhas de Alice, repito!; e no interior dos pequenos espaços de floresta virgem a noite densa e negra carrega um profundo mistério de duendes, fadas, monstros....

          Mas é o povo de sorriso aberto, corpo bamboleante, vibrante de música que transporta dentre de si como parte integrante da sua individualidade, de gestos delicados e sensuais, que mais me cativa. Não é comum verificar obesidade neste povo: são elegantes, cintura flexível; o pessoal servente é praticamente de uma classe etária jovem a contribuir para a jovialidade e a alegria reinantes. É sempre o povo que mais me atrai numa paisagem diferente: e é aqui e agora que conheço o artista e escultor Júlio, Maia de origem, que traz no rosto a marca dos seus antepassados: olhos oblíquos, nariz adunco, boca rasgada, cabelos escuros e lisos, sorriso aberto, dentes alvos a cativar quem o escuta e olha.

            Muitos trabalhadores existem  neste complexo turístico. E impressiona o  vestuário andrajoso, nomeadamente naqueles que se dedicam à limpeza e ao tratamento dos jardins. Fico intrigada com o número de funcionários! Excederão os 200?, os 300?, que ordenado auferirão? Dizem, os jardineiros trabalham de sol a sol, só pela comida! É vê-los silenciosos, o suor escorrendo pelos corpos escuros..., olhando-nos com cobiça (não tenho qualquer dúvida), observando os prazeres de outras vidas que, pelo simples facto de sorte de nascimento, usufruem de toda uma manifesta luxúria, gozando os prazeres de um paraíso ( o seu paraíso) onde lhes é trancada a entrada. É ultrajante! Olhar os pratos repletos de comida que, rejeitados, são abandonados pelas mesas..., sabendo, como tentei indagar, que a fome lhes será mitigada, parcialmente, após 12 a 13 horas consecutivas de trabalho.

          Aqui, dentro do complexo hoteleiro, é ilusória a noção de vida deste povo. Lá fora, a fome desencadeia a violência: de arma na mão, violam, roubam, matam. A grande maioria das crianças vive como animais, abandonadas à sua...sorte, a si próprias, como feras em território virgem: a lei do mais forte é a lei dominante. As jovenzinhas, perante a maturidade precoce dos corpos, aos 11, 12 anos, entregam-se aos instintos da natura, quais animais em ciclo de cio, e copulam, parindo os filhos que entreguem aos mais velhos, ou na ausência destes entregando-os “à boa mãe natureza”. Assim se deixa arrastar este povo moreno, vivendo à sombra do branco; os mais sortudos arranjam  emprego por uns míseros pesos nos postos de gasolina, nos mercados, nos hotéis...Outros, e muitos, principalmente os jovens, é vê-los vagabundeando, montados em motorizadas ferrugentas e decrépitas, de um lado para o outro, numa desocupação e inércia produtiva total! De que vivem? Como sobrevivem?

         

         

          Júlio lá estava laborando no mural da receção, “domingo e a trabalhar”, perguntei-lhe. “Trabalho 366 dias por ano, 28h por dia” diz ele, o que me parece facto comum a quase todos os trabalhadores do complexo hoteleiro. “E a praia, não vai à praia?” “Às 5.00 da manhã, levanto-me e faço o meu passeio matinal” “Então dorme pouco”, digo. O sorriso escancarado, o olhar risonho e a sua máxima “ a noite é para dormir e fazer amor, o dia para viver e fazer amor!”. Boa!, gostei. Dito isto no seu linguarejar, soou ao repenicar de sinos na alvorada! São as gentes, estas gentes com quem vamos travando conhecimento, puxando os fios das nossas emoções, que mais nos atraem, irresistivelmente: Júlio, Simon, Martin, Miguel, Inando, Ian, Júlio, Naomi, Neli, Jaacline são alguns dos nomes que ficarão colados aos limos das nossas memórias, fazendo parte integrante das nostalgias de cada um.

          Ao almoço é já habitual a luxúria alimentar, apreciado mais por uns que por outros. Por mim, batem já umas saudadezinhas duma sopa de legumes, dum cozido com todos...Tentei saborear uma manga: fruto macio, duma doçura suave. Creio que passei a gostar; o melão é rijo e verde; a melância vermelha e suculenta (pena não ser mais fresca); o abacaxi, esse, faz a minha preferência; a laranja e a tangerina são ácidas e intragáveis; a uva é idêntica à nossa; a papaia continua a saber-me a flor!

            Dia de partida.         

          Segue-se a viagem de autocarro até Santo Domingo. Durante três horas, o mesmo percurso já feito aquando da chegada: o estado degradado da via, a pobreza das povoações, as ruas lamacentas pela últimas chuvas, a sujidade, aqui e além os complexos turísticos e algumas vivendas gradeadas, sinais pontuais duma outra civilização, e o verde - a clorofila tomando-nos os sentidos -  pano de fundo da floresta a colorir a pobreza miserabilista da paisagem humana circundante.

          Por fim, devidamente sacudidos pelos balanços do transporte e derreados pelo calor, o ar condicionado já deu o que tinha dar, chegamos ao aeroporto; agora há que aguardar nas sonolentas filas de espera para fazer o check out. É notória a manifesta incompetência de um povo que se inicia nos preâmbulos da civilização. Retirado à praia, ao mar, à sombra revigorante das palmeiras, ao ritmo bamboleante do merengue, à sesta na hora de maior aperto de calor quase tropical, sente-se como peixe fora de água. Em seu abono o sorriso perene no rosto, o negrume do olhar a fazer promessa…, o corpo torcendo-se ao ritmo da música que lhes incendeia o sangue; o prazer simples de agradar, pelo simples prazer de assim ser. Por sua vez, pululam fora das instalações turísticas os esfomeados, sempre na procura de algum peso - obtido pelo trabalho ou pelo roubo - que lhes permita a precária sobrevivência.

            O voo está atrasado. As informações solicitadas são nulas, ninguém sabe de nada, nada é com ninguém. Sabe-se, somente, que o avião não partiu de Caracas. Alguém se apodera do microfone e tenta liderar a situação! “Ficar um dia, dois, três em Santo Domingo, não muito obrigado!” Há um cheirinho a revolução pelo ar! Alguém mais sensato chama à razão os mais exaltados que, curioso, são portugueses. Cada um expõe os seus problemas. Três passageiros entendem-se e lideram o grupo dos “revoltosos” dirigindo-se à administração, a fim de esclarecerem devidamente a insólita situação. As crianças mostram sinais visíveis de cansaço. Um bebé negro chora desalmadamente, creio que picado por insectos...,e a exaltação ameaça crescer: A minha irmã, aflita, chama por mim que, entre curiosa e até divertida, me encontro sitiada entre os “revoltosos”, procurando saborear o inédito com algum toque de aventura e comoção. Elisabete carrega no pedal da emoção física, mais orientada para as sensações preocupantes da fome e da sede que se avizinham.

          Por fim, somos enviados para o hotel Patelle....À chegada, a confusão é ponto de honra. Agora são as malas que se julgam perdidas. Por fim, um funcionário da TAP (o desgraçado pode ser incompetente, mas também não há, hierarquicamente, quem melhor o oriente) procura amenizar a situação (também há cada intransigente!). Até que as bagagens sempre aparecem. São 2.00 da manhã, melhor, é madrugada quando deparamos com os nossos aposentos. Enormes, excessivamente amplos, mas... a cheirarem a mofo que tresanda! O cansaço e o sono impõem o seu ritmo e a noite decorre tranquila e, penso, reparadora para todos.

 

          Chegada ao aeroporto. São visíveis as dificuldades dos funcionários a manusearem os computadores, trabalhando ao ritmo de lesmas. A paciência está pelas bordinhas e há quem embirre comigo afirmando ter chegado primeiro à fila do check out. Olho o rosto da desafiadora e, entre divertida e impositiva, avanço “menina, eu andei na escola”; foi o que me ocorreu no momento, todavia não me sinto orgulhosa, a impaciência faz das suas....Depois, deixo-me enredar pelos acontecimentos e limito-me a sorrir com alguma bonomia.

          Estão a terminar estas férias passadas em ambiente paradisíaco, onde, salvaguardados por uma civilização fictícia, não tomámos contacto real e directo com a vida deste povo sempre tão prestável, acolhedor, sorridente mesmo que, como dizer, incompetente?! Tomara que pudessem estar a salvo da dita civilização! Não creio que ela possa contribuir no seu todo para a  felicidade destas gentes.

          Neste momento, sentados uns, outros vagueando pelas lojas dispersas, aguardamos, mais uma vez, que nos informem sobre o voo 35, direção a Lisboa. Como? Não se sabe nada? Outra vez? Eu sorrio um pouco divertida (não esquecer que ninguém me obrigou a frequentar estes lugares que dizem, e confirmo, paradisíacos); a anarquia é total: um grupo de passageiros portugueses (os mesmos já aqui falados), de livre arbítrio, apodera-se do fax, do microfone e galhofam com a situação decorrente; vêem-se alguns polícias devidamente identificados, que passivos, bem refastelados nas cadeiras, sorriem tolerantes perante o desenrolar insólito dos acontecimentos (insólito?, duvido!). Mais uma vez desaparece do ecrã o voo para Lisboa. Terá chegado o avião? - questiona-se. São 19.30, a grande maioria das pessoas corre em atropelo de encontro à vidraça de onde se pode visualizar os aparelhos aéreos. Lamentável que a educação e a civilização tão apregoadas por alguns neste “processo revolucionário” não sirvam de exemplo a este povo ainda tão rudimentar (como é?, já o disse, diz-se, incivilizado).

          É agora! Soam urros de gozo, de troça, de desalento. Vá lá entender-se o ser humano!...O povo, não digo passageiros propositadamente, enlouqueceu: urram, gritam, batem nos bancos..., o motivo?, chegou o avião da TAP. Agarra--se o fiinho da esperança de embarque imediato. Será?

          Eis-nos dentro do avião, depois de um atraso de 26.30. Que é, que se passa lá atrás? Ah!, pois, duas pessoas a mais no avião. Que será, será? (é favor dizer em espanhol).

          Puf! Sempre se arranjou um cantinho para os dois, como quem diz, dois lugares que sempre existiam...Pobre do comissário, o alvo indesejável do grupo contestatário: sorriso morno, poucas falas, um olhar ligeiramente altivo de quem entende mas não se sente. Trocam-se as últimas palavras com um dos comissários de bordo. Palavras para quê? Uma companhia aérea portuguesa! Ou simplesmente o excessivo trânsito aéreo num mês por excelência de vacaciones? (escrevi bem? Deixem-me espanholizar sempre que penso sabê-lo).

          Bolas!, a partida está emperrada. Continua a existência de gente a mais no aparelho. Bom, uma mãe de raça negra levas filhos sem bilhete, pois é, há muito que havia suspeitado, daquele lugar viria, por certo, a confusão. Fica tudo explicado com uma simples verificação dos bilhetes. Ainda que, duma forma nada convincente, a mãe argumenta ter adquirido bilhetes para todas as crianças. Os ânimos exaltam-se, há quem corra a  fazer de cavaleiro andante da dama ofendida, porém há quem, “não senhor não há direito, levo uma também uma criança, paguei bilhete...”. Ora, agora os braços esticam-se no ar, os corpos tomam posições defensivas e ofensivas e,...não, não é desta (felizmente) que assistimos a uma cena do Farwest - para mais dentro de um avião! Trocam-se os já últimos e gastos galhardetes, uns apelam ao bom senso, uma outra chora de nervosismo, certamente mais sensível a este tipo de desaguisados, parece-me a mim, pouca traquejada nestas andanças internacionais! Há quem se ofereça - ó gente de coração bom! - para abandonar o avião, permitindo a viagem conjunta da mãe e dos filhos. Aleluia!, uma luz surge no fundo do túnel, duas hospedeiras cedem gentis e convenientemente os seus lugares e tudo se resolve a contento de todos.

          São 21.20. Os ânimos serenaram, o avião enche-se de choros de cansaço e de irritação das crianças em viagem. Rumo ao céu negro da noite, no avião Airbus A 310, finalmente!

            Depois das extenuantes e indormidas nove horas de voo, a transferência é imediata para o avião que nos transportará ao Porto. E até lá perdura a expectativa do reencontro familiar a querer impor-se com uma lágrima lamecha no canto do olho; os beijos e abraços, a ternura beijoqueira do meu pequenito, saudades, saudades, pois então, ah!, tantas!

 

 

Bernardete Costa

         

 

publicado por Bernardete Costa às 18:07

link do post | comentar | favorito
 O que é? |  O que é?