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Domingo, 15 de Abril de 2012

O ANIVERSÁRIO DO AVÔ

 

Na casa da avó era dia de festa, o avô fazia anos. Eu até acho que os avós fazem mais vezes anos do que as outras pessoas, mas deve ser impressão minha. A avó dissera, “há bolo especial”, ainda que eu desconfie sempre das especialidades da avó, ela entusiasma-se com tão pouco!

O certo é que o avô fazia anos. A avô também dissera, “é arroz de marisco, e nada de caras feias”, mas acrescentara, “quanto mais tarde gostardes de marisco, melhor”, ela lá tinha as suas razões para afirmar tal coisa, para mim Indecifráveis.

Claro, o arroz de marisco era para os adultos, para nós, as crianças, ela fez massa com carne, sempre com a teimosia de lá enfiar uns feijões, e, o pior, não faltavam umas rodelas de cenoura, um pouco disfarçadas, reconheço, mas elas lá estavam, a provocar os resmungos da Inês e do Luís, este até as enfiou debaixo do prato. Mas a avó tem olhos de lince, logo o obrigou a misturá-las na massa, a fechar os olhos e a fazer de conta que elas eram invisíveis; para avó tudo se resolve fazendo de conta.

Voltando ao bolo de anos. Eu cheguei primeiro. E logo vi o fantástico bolo a centrar a mesa da sala. Não resisti. Aquela doçura todo de avô colorido em vestes brancas e verdes, já disse que o avô é sportinguista?, atraiu-me como pólen de flor a inseto. Quis ver de que era feito aquele avô; ter respostas às perguntas que começavam a fermentar na minha cabeça de criança, e, catrapus, a doce cabeça do avô levantou asas e caiu-me aos pés. Fiquei petrificada, esperando ouvir a avó a dar-lhe um chilique. Entretanto chegam o Luís e o André. Miram o bolo descabeçado, a cabeça que devia ser careca e não era, a meus pés, e trocam aquele olhar matreiro dos meninos com vontade de asneirar, como se a luz das traquinices se tivesse acendido de repente, entendem? E num ápice cada um arranca uma perna ao já deficiente avô. Já podem imaginar, as gargalhadas malucas daqueles dois enquanto esmagavam na boca os membros inferiores e docinhos do avô. Eis então que chega o avô; e pondo a cara de mau que a avó detesta, corre na nossa direção e… zás, apanha debaixo da sapatilha nova um pé dele que havia saltado da boca lambuzada do Luís. Num espalhafato de cabeça, tronco e membros tomba de costas no chão. Ai… ai… ai… ai.., gemia como uma criança, o que não me admira, os velhotes são crianças outra vez, é a avó que diz e eu confirmo.

A avó não demorou a descer as escadas com a pressa do costume, ela tem sempre pressa, e ao deparar connosco muito aflitos e muito divertidos,  olha para nós, escuta com o sobrolho já carregado a lamuriice do avô e grita, “ai o Afonso!”

Para que se saiba, o Afonso é o meu primo diabético. Diz a avó numa aflição de avó, “ai o Afonso!”; a avó esquecera-se que ele não podia comer bolos ainda que fossem partes dum avô docinho. Pega numa rapidez de avó apressada no bolo com um avô que já não era avô e esconde-o no armário.

Esta foi uma das festas de aniversário mais engraçadas da minha vida, porque quando chegaram todos, a avó com as lágrimas malucas de riso, ela até escrevera um poema onde afirmara ser mesmo louca, com o desplante de que só as avós são capazes, dizia, a avó, com as lágrimas malucas de riso a soltarem-se dos olhos travessos, apontava-nos cada qual em pleno flagrante de canibalismo, esquecida de tudo o mais que não fosse o espectáculo gratuito que lhe estávamos a oferecer, inclusive o avô que persistia caído no chão a gemer como uma criança, “teatro”, reiterava a avó.

Até que, ai… ai… ai… ai… o arroz…! De novo a avó a tirar a seriedade do bolso, a irritação da manga da camisola, ela a extrair de lá lenços como um mágico coelhos duma cartola, ela a secar as lágrimas do riso como a roupa ao sol no estendal…

 

Bernardete Costa

 

publicado por Bernardete Costa às 18:28

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