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Quinta-feira, 18 de Novembro de 2010

REFLEXÕES DE POUCO SISO…

Por vezes não quero ser diferente, pretendo ser normal como as outras pessoas, então escondo as palavras debaixo da minha cama

mesmo ao lado da caixa dos berlindes.

Mas ser normal para mim é anormal para os outros, porque me perco sem as palavras e, num arremesso de incompreensível loucura, faço de mim o que nada sei de mim…

 

Assim, ando sempre com palavras no bolso e com a ansiedade nas mãos, mexo-lhes como se fossem berlindes, depois beijo-as, arremesso-as para longe, e de novo as recolho como sementes de flores; só então as semeio no papel, e é nesse momento que aproveito a boleia do poema até o cansaço me adormecer a criação.

 

Há dias em que a loucura de mim se estende, exaurida, num banco de jardim na demanda de palavras e da irrequietude dos berlindes que moram no fundo do meu bolso.

Mas eu preciso das palavras para que elas digam o que não sei dizer sem elas, ainda que na travessura fortuita dos fonemas

more a loucura no esquecimento das  coisas práticas.

 

…e os meus netos adormecem numa nuvem, o ferro esquece-se de engomar a roupa e o pó – sempre empoleirado num raio de sol –

acomoda-se à mobília da casa. Só porque sou louca duma loucura por resolver, penso eu, menos a minha família, que permite alguns devaneios, mas nunca ausências duradoiras.

 

A questão é esta: ainda que apaixonada por palavras dou em doida à procura do seu lugar definitivo.

Por vezes, fingindo saber delas como não sei de mim, brinco com o riso dos berlindes que ainda trago no bolso, para depois os guardar, temporariamente, na saudade inviolável da infância.

 

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 18:29

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