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Terça-feira, 29 de Junho de 2010

ALGUMAS LINHAS GENÉRICAS SOBRE SARAMAGO

 

 ....…Sem pretensões a elaborar aqui algum tratado sobre o assunto e seguindo apenas linhas genéricas, creio que a qualidade de um escritor deverá ser apreciada sob duas vertentes fundamentais: as ideias (acrescente-se emoções, vivências, sonhos e fantasias) que a sua obra veicula e a forma como as veicula. Em relação ao 1º aspecto, o que me ocorre dizer é um lugar-comum, sei isso, é um chavão, mas é uma feliz realidade: o pensamento «é livre como o vento» e não há «machado» que lhe «corte a raiz».
……Salvaguardo, naturalmente, o caso da Literatura comprometida com a divulgação de ideias ditas perversas, sendo que tal perversidade não pode ser “achada” e “apanhada” por “crivos” impróprios para esta análise, como é, por exemplo, o “crivo” da Religião. Se assim fosse, como poderia estudar-se hoje nas escolas o Auto da Barca do Inferno, obra de leitura integrada no programa de Português do 3º ciclo? O autor, Gil Vicente, como todos sabem, inclui na prodigiosa galeria de personagens deste texto dramático uma ALCOVITEIRA, cuja tarefa era, nem mais nem menos, a de arranjar meninas para os CÓNEGOS DA SÉ! Ah! Acrescente-se o pormenor: meninas virgens, mais propriamente falsas virgens! Dispenso-me de explicações, num espaço como este, sobre o modo de mascarar de donzela quem donzela já não era…, mas o Autor explica também isso!!! Haverá ousadia mais provocadora do que essa, num Portugal Católico de fim de século XV, princípio de XVI? A título de curiosidade, apenas este aparte interessante: Gil Vicente era um crente dos quatro costados, tinha por Nossa Senhora uma devoção comovente e, depois de “meter no inferno”, de parceria com fidalgos e exploradores do povo os ditos CÓNEGOS DA SÉ, “leva para o Céu” 4 CAVALEIROS DE CRISTO!
……Peço-vos desculpa, amigos, pela longa derivação para um escritor tão distante no tempo, quando o tema destas considerações é o nosso Nobel da Literatura, José Saramago, falecido há dois dias. Em boa verdade, não foi uma derivação; foi a forma que encontrei de expor o meu pensamento quanto aos critérios utilizados para ajuizarmos sobre a bondade ou a maldade do conteúdo de uma obra literária. Um escritor não é perverso por não pensar segundo padrões tidos por vigentes ou recomendados, e torna-se difícil, muito arriscado mesmo, definir até onde vão as fronteiras do correcto, do decente ou do justo. José Saramago foi um autor provocador. Como são provocadores os simples versos de uma balada "rebelde", que dizem isto: «Meu pensamento partiu no vento/ Podem prendê-lo, matá-lo, NÃO».
……Quanto ao conteúdo do legado de Saramago, deixei o meu ponto de vista.
……Quanto à forma, à expressão literária que veicula o conteúdo, QUEM SOU EU PARA CONTESTAR UM PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA? Mesmo assim, ainda arrisco uma sugestão: detenham-se só, caros amigos, no MEMORIAL DO CONVENTO. Não precisamos ir mais longe, para recolher pérolas de escrita verdadeiramente geniais! A narração do encontro primeiro de Baltazar Sete-Sóis com Blimunda, que tem «olhos como nunca se viram» e «olha por dentro», é uma preciosidade!
……Peço-vos de novo desculpa, amigos, mas não podia deixar de mostrar aqui na nossa rede, onde há tanta gente que gosta de ler e outra tanta que pode começar a gostar, a minha opinião sobre um escritor que elevou as Letras Portuguesas ao mais alto nível. Um escritor cuja obra podemos obviamente não apreciar, mas que, por ter projectado no mundo, de tão ilustre modo, o nome de Portugal, merece o nosso respeito máximo.
……Se eu não apreciar Picasso, porque prefiro outras escolas de Pintura, esse facto jamais me impedirá de ser lúcida e acreditar que o mundo ficou mais pobre quando Picasso morreu. COMO FICOU, SEM DÚVIDA, MAIS POBRE, NO DIA EM QUE PERDEU JOSÉ SARAMAGO.

 

 

Maria Luísa Lamela

 

(Transcrição, com a devida permissão do autor, do blog Famalicenses na Ribeira e no Mundo)

publicado por Bernardete Costa às 14:03

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