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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

PEDRADAS NAS PALAVRAS

Escutava o deslumbre e o esmagamento de pedras

e palavras enformadas

na rudeza e agudeza de umas, na beleza de umas e outras,

todas a esgrimirem sons, rimas, versos, poemas, música…

E as pedras a rolarem esquinas

a ferirem terras, a matarem águas, as palavras como armas

de fogo e lava, como chuva, rios e mares a destruírem

vidas… e insensibilidades.

Pedras a invocarem morte, pedras a ressuscitarem das levadas

como os poemas das palavras e não as palavras dos poemas,

a fazer doer, a juntarem mãos, a comporem preces,

a comungarem do frio e do calor, do azul, dos perfumes da flor,

mesmo  pedras que não bem pedras nem tão pouco palavras,

todas agudas, ferinas e leves, frescas, divinas e vivas

como são todas as pedras que nascem de partos prematuros

e as palavras que lançam o grito da dor enorme como o mundo.

De pedras e palavras ficamos enfermos, permanecemos

soterrados em lameiros e tortuosas correntes,  naufragamos no mar,

 indiferentes ao naufrágio, ao arrepio de medo e desespero.

A poesia precisa do ciciar das palavras como não dispensa

 o toque rijo, a ferida da pedra.

Pelas pedras se caminha, se arquitectam trilhos, se escutam ecos…

Pela poesia se desnudam virgens, auroras e horizontes…

As pedras não fazem pó mas transformam

 os nomes de palavras em pó.

As pedras são casas que encravam com as palavras na garganta.

O menino enche os bolsos de pedras e joga ao junquilho

mas também as atira aos pássaros na sua inocência malvada.

Como a poesia as palavras atravancam-nos o coração e esmagam-nos

de solidão se não as sabemos murmurar ao céu, ao mar, ao rio…

Como o menino sofremos duma inocência malvada porque são

tão inocentes as palavras que estilhaçam governos, derrubam

Impérios…encarceram inocentes, maltratam velhos…

As pedras quase sempre doem, sangram da pele de granito

ferem o pés nus, são lápides e tumbas.

A poesia das palavras ama como nunca uma pedra o saberá fazer.

O meu poema derradeiro é o meu testamento: fala da morte

para reencontrar a vida sob uma pedra, no esqueleto dum bicho

no vagido duma onda de mar. Mas esta é a poesia a fingir

de esperança como toda a pedra finge presa à montanha.

Pois logo que sacudida pelos ventos e pelas chuvas

derrama-se sem dó nas ondas do mar

e por lá fica agarrada às algas esquecida do cume da sua origem.

 

 

Bernardete Costa

 

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 00:20

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