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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

A FOME GERA ESCRAVOS

A minha janela rasga-se ao horizonte. Na minha janela espelha-se a minha cidade, o deslizar do rio, a proximidade do mar, a fauna e a flora quase primitivas em liberdade de verdes, asas e voos.

Para além todo o mundo. O poder e a opressão. A riqueza e a miséria. A bem-aventurança e a desgraça. A alegria e a dor.
A minha janela é um jornal aberto: sóis inclementes, chuvas torrenciais, violências, armas…imagens e palavras aviltantes, e um ou outro sorriso, sedutor, de certos ídolos e seus pés de barro.
Da minha janela os dias seguem-se a outros dias, a rotina é sempre a mesma rotina, todos os finais de mês as compras enchem a despensa.
Mas na minha janela, à revelia da beleza natural que se lhe estampa, assenta o pó dos escombros, as lágrimas de sangue, a dor de um povo que não possui uma só janela onde possa pousar uma rotina, porque em cada dia que passa maior é a interrogação.
A minha janela dá-me segurança, protege-me dos ladrões, afasta-me os mosquitos e, por vezes, permite-me vislumbrar um sol com olhos travessos de um deus. Quem sabe, esse mesmo ser que, inadvertidamente (recuso-me a acreditar na maldade plena), num tumulto desastroso, abanou sobre o Haiti o balde da areia de todos os mares arquitectando um país-cemitério. Esse deus perdido em contemplações quiçá olímpicas, com desculpas cataclísmicas, esqueceu-se de que a dor, a fome e a miséria podem forjar ladrões e assassinos.
Na minha janela a minha neta esboçou com o dedo de névoa da manhã fria, a cena de pilhagens, de ataques entre irmãos, de armas apontadas a rostos similares, iguais.
Preciso de ensinar essa criança que o homem é um mero animal. Perseguido pela tragédia, pela miséria, num apelo derradeiro de sobrevivência, seca as lágrimas, resquício de pontual humanidade, e ruge como bicho acossado pela fome.
Estende, numa súplica que dói, as mãos à esmola, porque não mesmo à solidariedade, à bondade humana, que, quero crer, de todos os lugares do mundo acorre à tragédia alheia, sem outra cobrança que não seja um sorriso feliz.
Preciso de lhe explicar que a fome gera escravos. Como já aconteceu com outros povos, como poderá acontecer com o povo do Haiti.
Preciso de ensinar esta criança que um povo não deve baixar os braços, permitir que outros construam as suas casas, com janelas onde outras crianças estamparão as flores e a águas cristalinas de um rio desaguando na foz...   
Preciso de fazer compreender essa criança que não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar.
Para a construção do homem livre.
 
Bernardete Costa
                                                   
publicado por Bernardete Costa às 21:14

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1 comentário:
De flavio lopes da silva a 9 de Fevereiro de 2010 às 18:05
belo poema!
é preciso deitar mãos á obra para começara a construir esse homem.
cumprimentos

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