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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

SOLDADO

Ontem como hoje também é natural ir para a guerra. Ontem como hoje o homem desce à sua condição mais animalesca quando empunha uma arma. Ontem como hoje, olha-se para o lado se uma  criança suplica  por ajuda enquanto se esvai na terra cravada pelas balas...

 

 
 
Era tão natural ir para a guerra
tão natural como ao domingo passear pela praia.
Chegava o dia marcado e abalava-se num barco
levando sonhos numa viagem azul.
Partia somente porque o mandaram que fosse
e ele acreditava no seu papel de soldado
defensor da honra e da pátria.
Depois o azul do céu toldava-se sob o fumo
das granadas que o soldado lançava
ignorando a morte nas trevas.
Reconhecia que os braços lhe obedeciam enquanto
o medo o envolvia numa mortalha animal e
arrastava pelo verde o que sobrava da sua dignidade.
Nos olhos retinha os espectros dos estilhaços
enterrados na carne carbonizada
e apenas identificava sombras fugindo aos horrores
e seus gestos eram apenas gestos
de um autómato articulado pelo pavor da morte.
À noite, o sono instalava-se no cansaço do corpo
mas a alma era sacudida pelos tremores
de uma integridade ferida que se esvaía das entranhas.
Só mais tarde a luz da razão descobriu
a penumbra que toldava as árvores e a compaixão
aninhou-se no seu coração; assim reconheceu
que não lhe cabia a ele o direito de matar a liberdade.
Por fim, trouxe consigo o silvo das granadas
e o ódio chispava no seu olhar
sempre que reconhecia a terrífica verdade.
Rebelde em seus lancinantes gritos
ergueu a arma das palavras
e enfrentou a mentira do poder e da manipulação.
Hoje, quando o cansaço lhe treme as mãos
e a boca perdeu a memória das vogais
foge como as aves nocturnas à luz do alvor
e remete-se ao silêncio para atenuar o sofrimento.
 
 
Bernardete Costa
 
publicado por Bernardete Costa às 11:14

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