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Quinta-feira, 19 de Março de 2009

CARTA A MEU PAI

Pai:

Paizinho, como sempre te chamei.
Partiste cedo. Ainda a juventude – sempre a tua eterna juventude – te corria nas veias quando partiste ou assim te obrigaram.
Aí, nessa imensidão onde agora habitas percorrendo o trilho das estrelas, quem sabe se sentado nalguma etérea nuvem cor-de-rosa, aí nesse lugar onde encontraste a paz e o descanso depois da vida atribulada que cá em baixo levaras, sei que me olhas, me escutas talvez…e sorris, sorris como sempre fizeras, como naquele retrato que tenho dependurado numa das paredes da casa.
Escrevo-te. Falo contigo. Como nunca te escrevi. Como nunca te falei.
Tiveste filhos, muitos.
Chegavas de madrugada. De manhã, dormias ainda quando saía para a escola. Lembro bem: passava uma semana inteira e eu não te via! E as saudades? Sabes que tinha saudades? Sempre do teu sorriso!
O tempo, o teu, era escasso. Escoava-se pelos dedos como grãos de areia! Dizias: Tenho de sair, gente à espera, negócios a tratar, ganhar a vida…E nunca perderas um pouco do teu parco tempo naquele pequeno gesto de ternura, naquele beijo que nunca recebi. Acredita, Paizinho, que compreendo, até aceito com naturalidade que assim procedesses. O teu tempo não era um tempo pródigo de beijos, nem de ternuras…
Ah! Mas como lembro bem aquele dia em que orgulhoso (sim, como vi o orgulho nos teus olhos!) mostraras as minhas notas aos teus amigos e disseras: São da minha filha! E enchias a boca com a palavra “filha”!
Do pouco que me ficou de ti, foi, Paizinho, o que perdurou gravado no sótão imperecível da memória: o orgulho com que pronunciavas a palavra “filha”!
Paizinho:
Neste teu dia, 19 de Março, eu escrevo-te. Não o faço somente porque os homens convencionaram assim ser. Mas porque me encho de coragem, aquela que sempre me faltou para fazer pequeninas coisas como erguer-me em bicos de pés e dar-te um beijo.
Eu sei que todos os dias são o teu dia. Porque todos os dias olho o teu retrato buscando no teu sorriso a força que me falta para prosseguir na corrente quantas vezes adversa dos meus dias.
Há um lugar. Dizem que é o teu: ermo, gélido, sacudido pelos ventos que assombram os ciprestes.
Não, não é a tua derradeira morada. Recuso esse sítio de morte e luto. Para mim, Paizinho, olho o imenso espaço negro e cintilante do céu que me cobre e vejo-te lá: és com certeza a estrela mais brilhante que lá mora!
Já te identifiquei. Moras naquela imensa luz sorridente. Só podes ser tu no sorriso dessa estrela que me fascina sempre que te procuro!
Sempre fui a filha mais parecida contigo – assim o dizia quem nos conhecia – “o mesmo sorriso”, faziam questão de vincar.
Pareço-me contigo, Paizinho. Sim, talvez no sorriso.
Só que, quem me vê sorrir não sabe que sorrindo imito o teu sorriso!
 
Daqui te atiro com as pontas dos dedos o primeiro e ainda único beijo que nem tu nem eu ousamos num desses tão curtos dias da tua vida!
 
Tua filha Bernardete (19 de Março de 1983)
publicado por Bernardete Costa às 23:59

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