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Terça-feira, 17 de Março de 2009

GARCIA LORCA

 

Federico Garcia Lorca, poeta do século XX e de sempre

nos 70 anos de sua morte
(5 de junho de 1898 - 19 de agosto de 1936)
Basilio Miranda

Se é verdade que a poesia nasceu dos cantadores seria possível dizer que ainda hoje há música na poesia? Também eu creio que sim. Mas me parece igualmente verdadeiro que a musicalidade própria de certos poemas não se presta ao canto, ou que é ao menos muito difícil musicá-los e cantá-los sem que se tangencie o patético.
Algumas das tentativas feitas de musicar poemas de poetas modernistas brasileiros parecem-me francamente constrangedoras. E, em muitos casos, a empreitada foi levada a cabo por bons compositores. Lembro-me, com especial pavor, de "Desencanto" de Manuel Bandeira, com música de Fructuoso Vianna. O último verso então, "eu faço versos como quem morre" reveste-se de uma retórica tão grandiosa que arrasa totalmente o sentido do poema que, ali, exigiria o tom de um suspiro.
Federico Garcia Lorca é um poeta especialmente musical - e creio que nisso toda a gente concorda.
Alguns de seus poemas foram musicados com muita felicidade - e também naturalidade. Não soa artificial, retórico ou, no ponto oposto, diluído.
Ainda assim, ao meu gosto, sua música é mais contundente na leitura solitária e silenciosa. Pois parece-me que, apesar do sucesso das canções, há algo que nelas se perde: a musicalidade, o ritmo que lhe é tão característico, tem em sua carne uma imensa força visual.
Como na poesia galega antiga o ritmo realça imagens de uma concreticidade quase física.
As coisas não parecem ser, as coisas são. Ao invés de associação, identidade.
"....................................
En las últimas esquinas
toqué sus pechos dormidos,
y se me abrieron de pronto
como ramos de jacintos.
....................................
Sus muslos se me escapaban
como peces sorprendidos,
la mitad llenos de lumbre
la mitad llenos de frio."
....................................
(em "La casada Infiel")
"Suas coxas me escapavam / como peixes surpreendidos" é, sem esforço, um pequeno tratado de arte poética...
"....................................
Las cinco llagas de Cristo
cortadas em Almeria.
Por los ojos de la monja
galopan dos caballistas.
Um rumor último y sordo
le despega la camisa,
y al mirar nubes y montes
en las yertas lejanias,
se quiebra su corazón
de azúcar y yerbaluisa
....................................
"
(em "La Monja Gitana")

E sempre que releio "Romance Sonambulo" imagino extrair dali uma história longa, com cortes e retomadas, um filme, um romance. Pleno de significados, mas condensado até mais não poder, ele acorda em nós toda a dimensão do tempo que escorre entre os dedos, da distração fatal por onde a vida passa até que já seja tarde.

Na primeira estrofe a estagnação, o estado de paralisia, mas certas imagens já insinuam o drama que há nessa quietude.

"Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montana.
Con la sombra en la cintura
ella suena en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fria plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la estan mirando
y ella no puede mirarlas."

A vida, a carne, dissolvida no verde - e "os olhos de fria prata".

A segunda estrofe introduz bruscamente, num corte, uma nota de inquietude:

"Pero quien vendra? y por donde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
sonando la mar amarga."

Na terceira estrofe essa mulher está ausente. O diálogo dos dois compadres revela-nos que outro tempo houve, que há algo mais naquela varanda dissolvida no verde que a cerca, e que as coisas poderiam ter sido de outro modo - poderiam, mas não foram.

"¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa. "

O primeiro deles busca a mulher - busca também um tempo que talvez já não esteja lá.

"Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está mi niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda! "

Quantas vezes te esperou... Houve um tempo de "cara fresca, negro pelo", houve um tempo em que apenas a varanda era verde, não a carne, não a vida. Mas esse tempo já se foi:



"Sobre el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche su puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos,
en la puerta golpeaban. "
Verde carne, pelo verde - olhos de fria prata. A morte como o tempo escorrido, o tempo que se perde por não sabermos que nós próprios somos, como criaturas, o tempo que passa e que não retorna.
Contudo, a dramaticidade do poema diz muito mais.
Pois ela se faz por imagens que ao mesmo tempo que parecem estar no plano suprareal do sonho (ou do pesadelo), são tão substantivas, tão físicas, que nelas enxergamos cenas, lugares, acontecimentos, sentimentos doloridos.
Salvador Dali e Luis Buñuel não gostaram do "Romancero Gitano" que consideraram "tradicionalista".
Consta que Federico ficou abalado com essas críticas e tentou ser "mais moderno" escrevendo "Poeta en Nueva York".

O "Romancero Gitano" revela sem dúvida a continuidade de um legado, um fio que vem da poesia galega antiga. Mas sua escrita é certamente moderna.
Dali e Buñuel deveriam talvez ler o que Ezra Pound escreveu sobre os velhos poetas provençais: sua força era tamanha que ali havia mais influências de interesse para um poeta moderno do que em certos "modernistas auto-declarados" que se tornaram apenas diluidores de formatos da moda.

Federico Garcia Lorca é um dos grandes poetas do século XX e de todos os tempos.
Por que o mataram?
O historiador Ian Gibson em "A morte de Lorca" e "Federico Garcia Lorca: uma biografia" tentou encontrar a razão. Curiosa aliás é a história do próprio Gibson e de como surgiu seu fascínio por Lorca.

Foi morto nas cercanias de Granada, talvez na localidade antes denominado como 'Ainadamar' ("fonte de lágrimas"), havendo relatos de que um dos assassinos, Juan Luis Trescastro, disparou mais alguns tiros - quando o poeta já estava morto.

Gibson levanta várias possibilidades, já que o seu assassinato não seria politicamente interessante, naquele momento, para os fascistas - ao menos para a sua alta cúpula.
Mas havia na Andaluzia muitos fascistas que odiavam pessoalmente Federico - por suas ligações com os republicanos, por seu homossexualismo, por sua poesia, e até mesmo pelo modo positivo com que considerava a influência mulçumana na formação daquela região. Lorca reunia características intoleráveis para um fascista, especialmente os ultracatólicos.
Diz Gibson:
"É minha convicção de que a perseguição que conduziu à morte do poeta foi iniciada não por um homem mas sim por grupo de ultracatólicos e membros da 'Acción Popular', de mentalidade semelhante"

Lorca tornou-se assim, à revelia, um dos grandes signos do século XX.
Esse século que foi o "século do assalto aos céus", como disse Isaac Deutscher a propósito dos tempos iniciais da revolução russa, foi, também o século de fundas descidas ao inferno.
Ah, os poetas... Esse século não passou sem eles: o assassinato de Federico Garcia Lorca, o suicídio de Vladimir Maiakóvski e a espantosa insânia criminosa de Ezra Pound são, como emblemas, signos dos vértices abismais do século XX.

Basilio Miranda.
 


LORCA 19.Paco di Lucia - El Vito, Federico Garcia Lorca. -
publicado por Bernardete Costa às 22:40

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