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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

AMÉLIA PINTO PAIS

Obituário de um ex-aluno, Sérgio Lavos, no seu blogue "Auto-Retrato":

«Não preciso da proximidade entre dois
acontecimentos para reforçar nexos de causalidade; mas ainda há poucos dias
falava daqueles instantes decisivos que podem mudar o curso de uma vida. E
falava também das pessoas ainda mais importantes do que esses instantes
decisivos, as pessoas que, ao contrário dos acasos que nos empurram para um ou
outro lado, nos puxam, nos rebocam, na direcção certa - se não certa, pelo
menos a direcção que nos traz ao presente. Uma dessas pessoas foi Amélia Pinto
Pais. Apanhei-a como professora no 12.º ano, na Escola Francisco Rodrigues
Lobo, em Leiria. "Apanhei-a" parece-me um termo adequado - ela foi
com uma doença benigna que me deixou imunizado a uma série de ideias feitas da
adolescência. Não sabemos o que somos, e sobretudo não sabemos do que gostamos
- e aquilo de que gostamos é o caminho mais rápido para a conquista de uma
identidade. A professora Amélia Pais não me abriu portas, mas janelas; fez-me
perceber por que razão gostava do que gostava e que aquilo de que gostava poderia
definir o que seria. Demasiado alusivo? Não - o tempo encarregou-se de apagar
os pormenores que a memória guardara, mas a essência continua a ser viva,
clara. Ela era a professora que incentivou esforços literários a quem pouco ou
nada tinha a oferecer ao mundo. Amante da poesia - manteve o blogue ao longe os
barcos de flores durante anos a fio - soube ensinar-me a ler poetas de quem já
gostava - Pessoa, Camilo Pessanha, Antero do Quental, Herberto Helder - e
mostrou-me outros - mas sobre esta sensação tenho já poucas certezas. Mas
também me apresentou prosadores que não estavam no limitado programa de
Português - lembro-me de O Perfume, de Patrick Suskind - a obra de culto para
os adolescentes da minha geração - mas também de Kafka, de Camus, de Garcia
Márquez, autores que definiram a minha transição para a vida adulta. E marcante
foi a confissão numa aula de que já tinha tentado ler várias vezes o Ulisses, e
que não tinha passado da página 200, provando que ao leitor tudo é permitido,
até ser derrotado por uma obra. E acima de tudo revelando a máscara de
perfeição que cobre a cara dos professores e mostrando aos seus alunos que,
mais do que servir de exemplo, um bom professor deverá sobretudo apontar
direcções, mostrar as várias escolhas com que nos iremos deparar ao longo da
vida. Cada tentativa com Ulisses é dedicada à professora Amélia Pais. Em
Outubro passado, ensaiei a terceira, e posso dizer que passei das duzentas
páginas, o marco que ela, há dezoito anos, ainda não tinha ultrapassado -
talvez tenha conseguido entretanto, nunca lhe perguntei. Aqui há uns anos,
descobri o seu blogue, enviei-lhe um mail, agradeci-lhe. Ela não se lembrava de
mim. Eu não tinha sido um aluno marcante, achei normal, mas foi simpática e
correcta. Não precisava de se lembrar de mim para eu a achar uma daquelas
pessoas que - devo-lhe também correcções aos meus clichés nos poemas que lhe
mostrava, mas a este prefiro não fugir - mudam uma vida. A minha, e a da
maioria dos seus alunos, não duvido. Dos leitores do blogue. Deixou obra em
papel - livros de apoio à leitura dos clássicos, uma adaptação em prosa d'Os
Lusíadas. Mas deixou mais - deixou paixão, amor à literatura. E conseguiu
passar esse amor a muitos. Terá valido a pena.

No meu percurso de livros por acabar, paixões por resolver, Ulisses que não
conseguem regressar a casa, ela foi um dos meus espíritos da boa fortuna,
definindo-me. Que descanse em paz - os amantes da poesia vivem sobre a espuma
dos dias, merecem essa paz mais do que ninguém.»

 

 

publicado por Bernardete Costa às 10:44

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