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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2013

Ao poeta Manuel António Pina

 

 

Meu poeta, bebes dum cantil a sede das palavras

quantas vezes sussurros como miados de gatos,

os seus gatos aninhados na ternura

que  lhe nasce das mãos, os seus gatos a vibrar nas memórias

felizes, os gatos como ramos no verde dos poemas,

talvez um pouco parte das mesmas mãos

donde brotam fonemas como árvores  ou flores

ou sóis a arder no crepúsculo da tua amada cidade.

 

Meu poeta, bebes a sede das palavras pelas mãos,

mãos a embalar estrelas na maciez  do sonho;

as tuas mãos,  esquecidas na idade e na dor

a reaprender o hoje e o outrora, meticulosas

na preciosidade da escrita:  esboças uma linha,

e as palavras  reescrevem-se acauteladas

 como a tua voz, que nem se assemelha

a uma cautela vulgar, mas o estar assim na vida,

como as aves no sereno da tarde.

 

Meu poeta, aquele estar, tu cá tu lá, mas a dizer não,

sempre que o sim te envergonha

porque a honra não te é venal, porque palavras já são ditas

e as avestruzes bicam-lhes a sonoridade

à procura de venenos escondidos  na liberdade,

como se a liberdade do poeta seja questão democrática,

como se as mãos de poeta sejam questão de lisura,

quando a teu lado, o mundo

vende a própria mãe com artes de louvor e usura.

 

Já  as sombras silenciam a figura no banco dum jardim

e o livro repousa nos joelhos…também o tempo 

se perde como linhas de novelos

sem saber por onde o pegar, o tempo  esquece

a espera da casa, os gatos e os miados

como folhetim de doçuras a dizer, és nosso não partas…

Qualquer outra realidade é mentira,

 talvez nem saibas que partes

quem sabe, apenas ficas no mais longe da tua cidade.

 

Da casa, dos gatos, do jardim, dos livros, sobeja

o nosso querer  como vício de mulher apaixonada,

a luz na arquitetura da casa, a lisura das mãos

na argamassa duma gata, a tua  voz doce de poeta…

E se a vida se afasta e se desperta nas memórias duma asa,

se a vida se fractura pelo voo das aves…,

é porque a vida se esvai

sublimada na casa e nas tardes.

 

Bernardete Costa Outubro 2012

publicado por Bernardete Costa às 12:24

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