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Domingo, 23 de Dezembro de 2012

CARTA AO PAI NATAL

 

 

 

 

 

 

Pai Natal:
Eu não te peço nada porque
sei que não existes; és apenas invenção
para mais com saco a abarrotar de tanta coisa dispensável,
ainda que te esteja no íntimo seres amável.
Mesmo assim, se tivesses um coração de verdade,
e viesses da Lapónia onde o gelo começou a derreter
há 10 mil anos, vê se te lembras
já que te fizeram imortal. Peço-te, Pai Natal,
não me impinjas também o aquecimento global
que é prenda de fogo que nos amordaça…
porque outros, fartos de deitar para o ar fumaça,
impõem negaça aos povos em crescimento
o que a si próprios permitiram. Chama-se a isto, Pai Natal,
inventado ou de verdade,
comer a carne e deixar os ossos, já dizia a minha avó
com a sabedoria que mora na idade.
Eu sei que a tua invenção não foi casual, e que todo o natal,
aos corações dos infantes, tu iludes a imaginação
por mágicos instantes.
Claro, Pai Natal, algum mérito terás na ilusão do momento
(dado o respectivo desconto ao artista americano,
pôs intenção na criação da tua figura
que até chateia pelo Natal, quando me aborda na rua…).
Pensando melhor, até te aceito:
se realmente o sol brilhar na neve mais pura
onde os sem abrigo se acomodam;
até te reconheço humano, feliz e imortal se do teu saco
pejado de quinquilharia
sair um cheque chorudo, uma mão cheia de notas
ou até um sortudo bilhete de lotaria
para repartir por todos os desempregados deste país
que esticam o cêntimo até arrancar raiz,
não vá o banco, desgraçado, com tanto prejuízo,
leiloar a casa ou o carro.
Por vezes, dou comigo a pensar: o Pai Natal é tão bom,
porque da sua risada
eu brinco à vontade de gargalhar,
e do meu riso brotam pétalas de flores
que tombam docemente pela rua
enleando no perfume as misérias e as maldades…
Contudo, Pai Natal, tudo não passa de lérias, até a poesia…
Apenas tenho saudades de mim desse tempo de criança
em que acreditava na esperança que trazias,
quem sabe escondida na neve da manhã…

Indubitavelmente, para alguns, és o Pai Natal,
inventado ou verdadeiro, em dia tão especial
tão amigo e tão porreiro, pá.

Bernardete Costa


publicado por Bernardete Costa às 00:31

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