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CLUBE DE LEITURA eb12 ANTÓNIO CORREIA OLIVEIRA
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“
Não se adivinhava motivo para tal, naquela manhã de trabalho, uma segunda-feira, início de semana. A polícia impedia a circulação normal, obrigava a desvios, chegar à praça dos Aliados, no Porto, previa-se impossível. Normalmente, o trânsito àquela hora da manhã, início de semana, impõe paciência de chinês; tudo bem, mas aquela morosidade excepcional em chegar ao destino causaria diversos incumprimentos laborais.
Questionava-se: Acidente? Mais uma manifestação dos Indignados? Estudantes em desalinho a perpetuar a queima das fitas? Festejos prolongados de vitórias e futebóis??? Não!
Seguramente, quem tentasse, ingloriamente, “pegar no batente” a horas, tratar dos seus negócios, ou seja, criar riqueza, produzir…, deparava com o acesso normal barrado pela polícia.
Para e arranca, mais para que arranca de veículos em trabalho, de passeantes e turistas poucos seriam, ainda que bem-vindos a contribuírem para a riqueza nacional.
Uma manhã de trabalho, javardamente transformada numa manhã de nervoso miudinho, numa manhã de negócios por cumprir, de ausência ao trabalho…, porque, imaginem, na praça dos Aliados se concentrava “a maior aula de judo do mundo”.
E por este projeto megalómano que em nada contribuirá para a riqueza nacional, apenas uma ostentação sem qualquer proveito para o cidadão, que não seja a da defesa pessoal, importante, com certeza, mas isso levar-nos-ia por outros caminhos…dizia, por causa deste projeto o centro do Porto como que paralisara.
Permitam-me, agora, a questão: como se podem autorizar este tipo de concentrações em plena semana de trabalho, concentrações que, essencialmente, prejudicam muita gente a pretender trabalhar, a pretender reedificar um Portugal prestes a desfalecer. Assim não se vai lá, assim não se refaz o presente, não se projeta o futuro capaz de criar uma sociedade justa, livre e saudável.
Megalomania, sim, “a maior aula de judo do mundo”. Para se fazer mais uma vez marcha à ré nesta estrada nacional de improdutividade; “a maior aula de judo do mundo”, “para inglês ver”.
Vasco Cabral (1926-2005) |
Estes alguns alunos, dos mais especiais, que tão gentilmente me receberam na escola supracitada. E seus professores que privilegiam a integração através da leitura e da escrita.
Com estes exemplos, acredito que há escolas com letra maiúscula. Escolas que não se acomodam à sombra de putativas crises e respectivas desmotivações, venham elas donde vieram.
Por me terem solicitado e com imenso prazer, redigi esta pequena história inspirada em duas máscaras de carnaval elaboradas pelo Raúl e pelo David
SASSAI E NIRUMBÉ
Sassai e Nirumbé eram muito amigos, bom, diremos até mais do que amigos, namoradinhos de fresco, acabadinhos de sair das mãos de artista de Raúl e David, meninos especiais e dotados para as artes. Sendo estes meninos especiais, também o eram porque possuíam poderes mágicos: Raúl encarnava a personagem do fantástico mago Merlim, e David vestia a roupagem do incrível Feiticeiro de Oz, ainda que a residirem no sonho da sua criatividade. Eles elaboraram um casalinho de máscaras muito diferente das restantes que, seguramente, haveriam de formigar pelas ruas da cidade de Viana do Castelo, no dia de carnaval, soalheiro, por certo.
Compete aqui esclarecer que Raúl e David, respectivamente, o mago Merlin e o feiticeiro de Oz nos seus sonhos, já cá se mencionou, fizeram nascer aquelas máscaras com muito amor. Um amor que abrasava o céu, beijava o vento… Lindo, não é?
Assim de imediato as máscaras foram batizadas: ela, Sassai, e ele, Nirumbé.
Obviamente, como grandes mágicos que eram, as suas máscaras ganharam vida própria logo após o seu nascimento, não esquecendo, como já se aperceberam, a parte sentimental, amorosa… Nas mãos dos nossos amigos, diziam as máscaras uma para a outra, “agora que te encontrei não pretendo separar-me de ti”; saiba-se que as máscaras haviam rejeitado, veementemente, serem separadas como pretenderam os seus criadores. Uma por esta rua, outra por aquela…. Dirá quem aqui me lê, “o amor não é fácil para ninguém”, não sejamos pessimistas, pressagio eu.
Retomando o início da nossa história, um casal de máscaras, namoradinhos de fresco, acabara de sair das mãos talentosas de Raúl e David, heróis virtuais em seus sonhos de criatividade e imaginação.
O dia de carnaval despertara quente, por isso, propício à brincadeira e ao desfile pelas ruas da cidade, aliás, como o boletim meteorológico havia previsto e, ainda bem, desta feita, não se enganara. Diremos mais, um dia com cheiro intenso a sol!
No princípio, o casal de máscaras chocou um pouco o grupo das outras, porque todas bem aperaltadas com laços e fitas, bocas de cereja, cabelos de fogo frisados, etc, etc, etc…
Entretanto, o desfile começou. Sassai e Nirumbé riam-se a não poder mais, imaginem, com o medo que pregavam ao susto! E as pessoas, com olhares enviesados como se dissessem, “esquisitas máscaras, diferentes, nada bonitas…”
A certa altura do divertido dia, com aquela grande confusão carnavalesca, Sassai tomba da mão de David. Cai, rola um pouco pelo chão… e perde-se da vista do menino que grita: Sassai, Sassai!…
Nirumbé, por sua vez, amarra-se com firmeza à mão do seu criador, deixando deslizar um olhar triste e lacrimoso pela rua a fervilhar de multidão, nunca mais avistando Sassai.
O feiticeiro de Oz, como quem diz David, ainda pensa recorrer aos seus dotes de mago dos sonhos, mas ele está muito acordado no momento; mira Nirumbé que cabisbaixo deixa morrer o sorriso que se transforma num esgar de dor, uma cicatriz de tristeza a riscar o seu rosto de papelão às cores.
Por sua vez, Merlin, ou seja, Raúl, com uma tristeza de pai que perde o seu filho, acaricia as barbas e o bigode de Nirumbé numa tentativa de lhe fazer voltar o riso à boca bem escancarada, num esforço de o compensar da sua perda.
De repente, uma chuva oriunda dum céu polvilhado de nuvens irrompe das sombras negras como que solidárias com a mágoa daqueles dois.
Raúl fica muito quieto, e enquanto a roupa se encharca olha desalentado Nirumbé que se vai descolorindo, amolecendo, transformando-se em papa amorfa de cartão, papel e tinta.
Pelas pedras da rua, um rio de cor forma um charco de lágrimas, vermelhas.
Raúl e David observam as suas mãos vazias sentindo de novo o sol a querer brincar ao carnaval, e sussurram como mágicos que não são: Sassai Nirumbé…Sassai, Nirumbé…
Bernardete Costa, 2012.
Porque é o dia internacional do jazz, pela primeira vez (vá lá, um dia com interesse cultural)...
Letra de Rui Knophli para um solo de Charlie Parker
Como estranha ave de presa
... que ferida de morte flectisse
a hipérbole do voo na agonia
prolongada, é um canto angular,
terso, mas de arestas poluídas.
Polígono torturado, perturba-o
a iminência adiada de um grito
de socorro. Em sua chama viva
perpassam secretas vozes de rebeldia,
bárbaros sons de tormenta. No clamoroso
incêndio da ira e da raiva
(é preciso saber escutar),
a urgência implorativa
de um pouco de ternura.
in «poezz»
Jazz na Poesia em Língua Portuguesa
Selecção: José Duarte e Ricardo António Alves
Almedina, 2004
Esfíngica visão sitia o cávado,
Sobre a sua foz.
Ela é oiro e sol e limbo e mar,
E tem no regaço o sonho côncavo,
Que faz remanso para o infinito
E quase soçobra a sonhar.
Manuel Faria
Na casa da avó era dia de festa, o avô fazia anos. Eu até acho que os avós fazem mais vezes anos do que as outras pessoas, mas deve ser impressão minha. A avó dissera, “há bolo especial”, ainda que eu desconfie sempre das especialidades da avó, ela entusiasma-se com tão pouco!
O certo é que o avô fazia anos. A avô também dissera, “é arroz de marisco, e nada de caras feias”, mas acrescentara, “quanto mais tarde gostardes de marisco, melhor”, ela lá tinha as suas razões para afirmar tal coisa, para mim Indecifráveis.
Claro, o arroz de marisco era para os adultos, para nós, as crianças, ela fez massa com carne, sempre com a teimosia de lá enfiar uns feijões, e, o pior, não faltavam umas rodelas de cenoura, um pouco disfarçadas, reconheço, mas elas lá estavam, a provocar os resmungos da Inês e do Luís, este até as enfiou debaixo do prato. Mas a avó tem olhos de lince, logo o obrigou a misturá-las na massa, a fechar os olhos e a fazer de conta que elas eram invisíveis; para avó tudo se resolve fazendo de conta.
Voltando ao bolo de anos. Eu cheguei primeiro. E logo vi o fantástico bolo a centrar a mesa da sala. Não resisti. Aquela doçura todo de avô colorido em vestes brancas e verdes, já disse que o avô é sportinguista?, atraiu-me como pólen de flor a inseto. Quis ver de que era feito aquele avô; ter respostas às perguntas que começavam a fermentar na minha cabeça de criança, e, catrapus, a doce cabeça do avô levantou asas e caiu-me aos pés. Fiquei petrificada, esperando ouvir a avó a dar-lhe um chilique. Entretanto chegam o Luís e o André. Miram o bolo descabeçado, a cabeça que devia ser careca e não era, a meus pés, e trocam aquele olhar matreiro dos meninos com vontade de asneirar, como se a luz das traquinices se tivesse acendido de repente, entendem? E num ápice cada um arranca uma perna ao já deficiente avô. Já podem imaginar, as gargalhadas malucas daqueles dois enquanto esmagavam na boca os membros inferiores e docinhos do avô. Eis então que chega o avô; e pondo a cara de mau que a avó detesta, corre na nossa direção e… zás, apanha debaixo da sapatilha nova um pé dele que havia saltado da boca lambuzada do Luís. Num espalhafato de cabeça, tronco e membros tomba de costas no chão. Ai… ai… ai… ai.., gemia como uma criança, o que não me admira, os velhotes são crianças outra vez, é a avó que diz e eu confirmo.
A avó não demorou a descer as escadas com a pressa do costume, ela tem sempre pressa, e ao deparar connosco muito aflitos e muito divertidos, olha para nós, escuta com o sobrolho já carregado a lamuriice do avô e grita, “ai o Afonso!”
Para que se saiba, o Afonso é o meu primo diabético. Diz a avó numa aflição de avó, “ai o Afonso!”; a avó esquecera-se que ele não podia comer bolos ainda que fossem partes dum avô docinho. Pega numa rapidez de avó apressada no bolo com um avô que já não era avô e esconde-o no armário.
Esta foi uma das festas de aniversário mais engraçadas da minha vida, porque quando chegaram todos, a avó com as lágrimas malucas de riso, ela até escrevera um poema onde afirmara ser mesmo louca, com o desplante de que só as avós são capazes, dizia, a avó, com as lágrimas malucas de riso a soltarem-se dos olhos travessos, apontava-nos cada qual em pleno flagrante de canibalismo, esquecida de tudo o mais que não fosse o espectáculo gratuito que lhe estávamos a oferecer, inclusive o avô que persistia caído no chão a gemer como uma criança, “teatro”, reiterava a avó.
Até que, ai… ai… ai… ai… o arroz…! De novo a avó a tirar a seriedade do bolso, a irritação da manga da camisola, ela a extrair de lá lenços como um mágico coelhos duma cartola, ela a secar as lágrimas do riso como a roupa ao sol no estendal…
Bernardete Costa
DESLUMBRAMENTO
Eu vi uma flor entontecida de tanta luz doirada;
as árvores a desabotoarem-se em brotos verdes;
voava indiscreta uma borboleta, pareceu-me atordoada
e com ela o azul dum pássaro fundia-se
na imensidão dum outro azul;
eu vi o negro e o branco da andorinha em voo circular;
como criança surpreendi o ciúme do mar namorando a praia,
na pele um sopro de riso, uma esperança de vento sul ...
Contigo fruí a incerteza do tempo
e por entre os suspiros infantes da natureza
mergulhei no rubor do teu corpo. Primavera!
UMA OPINIÃO QUE CONSIDERO, MUITO:
Abençoado seja, cara amiga Bernardete, o seu «fascínio por esta terra que foi palco do (seu) nascer»!
É que a expressão desse seu fascínio chega até nós sob formas poéticas lindíssimas, que nos fascinam a nós. Neste DESLUMBRAMENTO em 11 versos revela-se uma vez mais o seu notável talento literário.
Parabéns, amiga. Leio sempre os seus escritos com um enorme prazer.
NOTA: Na nossa próxima aula, peço-lhe que não me deixe sair sem analisar, neste seu poema, pelo menos o último verso da 1ª estrofe («na pele um sopro de riso, uma esperança de vento sul...»). Nele se encontra uma das mais refinadas marcas do verso perfeito...
Qual será?... Deixo-a a pensar no assunto e deixo-lhe também um beijinho.
Luísa Lamela