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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

O REFLEXO NO ESPELHO

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Vejo-me ao espelho e que vejo? O meu reflexo, dirão. Sim, vejo o meu reflexo mas não vejo uma grande parte de mim.

Aquela parte de tristeza sem razão ou de motivo ainda que fútil, aquela insatisfação de estar sem saber para quê…, mas também a parte de sorriso fácil, de alegria embebida pelo simples voo duma ave, aquela parte de mim caminhante de sol, vento, neblinas e areias…

Acabei de ver o filme" Meu nome é Alice", em que à personagem principal, Alice, é-lhe diagnosticada a doença de Alzheimer genético com 50 anos de idade; e até esse repúdio de medo não se visualiza na imagem que o espelho me retribui.

Mas, essencialmente, a partida da Daniela, a jovem de ossos de vidro, como diz o povo, em muito contribuiu para este meu estar no espelho sem identificação com o meu eu.

Nada, a não ser um rosto impávido, transparece no meu reflexo que se assemelhe ao aperto na alma que ainda permanece ao saber da partida da Daniela, sei lá para onde; ao saber que a Daniela resolveu, ou alguém por ela, abandonar este mundo por onde caminhou sempre de sorriso aberto e doçura na voz. Se foi um deus que a chamou é inaceitável, um deus não obriga ninguém a partir quando esse alguém sorri com tanta facilidade ao sofrimento, à vida macabra que viveu desde o nascer.

A Daniela, depois de 34 anos de vida a sorrir e amar tudo e todos, não resolveu ir-se embora. Assim, sem mais, desistir. Talvez tenha sido daquele aperto no peito que a estrangulava. A Daniela viu-se obrigada a aceitar o destino de nascimento. Contrariada, creio. Os sorrisos não enganam. O último sorriso não enganou.

Quando soube, o meu eu retido no espelho não se alterou. Mas o meu coração encolheu como um punho a doer no peito. E nada se viu no espelho.

Cortei a mais linda e alva orquídea do meu jardim. Era mais fácil comprar algumas brancas rosas, mas aquela orquídea significava tanto para mim, que só, tu, Daniela, a merecias. A recusa em aceitar a tua ausência definitiva levou-me, resoluta, com tanto amor o fiz, com que delicadeza, a cortar a flor que te seria destinada.

Ainda te fui ver à igreja. Apenas lobriguei a enorme quantidade de flores que te cercava; apenas senti a dificuldade em caminhar até ti numa igreja completamente cheia.

Sentei-me no largo da igreja a imaginar-te tão frágil. Mas tão resistente. Rejeitei seguir-te até à última morada. Depois, sentindo o sol varrer a avenida naquele fim de tarde, dirigi-me sozinha até  defronte ao lugar onde teu corpo já adormecia na inclemência de morte. Tua mãe não suportava a tua partida. É normal: o destino dos filhos não é partirem antes dos progenitores. E ela, os teus familiares, os teus amigos, quem de ti gostava, não acreditavam que de pois duma luta de 34 anos te fosses assim sem mais.

E o meu reflexo no espelho nada diz da minha revolta contra esse deus que te levou.  Deus assim quis, ouvi de alguém que chorava copiosamente junto aos sete palmos de terra que te eram destinados. Não só por ti, Daniela, mas também pela Sofia distraída numa  praia do Algarve, por outras crianças trucidadas pela guerra, pela desumanidade do homem. A haver um deus a sério, ele não te levaria, nem à Sofia, nem a milhares de crianças mortas pelas balas da guerra e pelas agruras da miséria e da fome.

Continuo a tentar visualizar no meu reflexo do espelho uma parte de mim que o espelho não reflete.

Assim por aqui ando, apenas o meu reflexo a sorrir, com modos educados. A conversar normalmente com modos educados.  A aceitar cada dia como mais um com resignação educada. Sou apenas o meu reflexo no espelho. A outra parte de mim perdeu-se nesta inquietação.

 

Bernardete Costa

 

 

publicado por Bernardete Costa às 17:07

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Segunda-feira, 3 de Julho de 2017

"O VELHO DA HORTA", PELA OFICINA DE TEATRO DA BARCELOS SÉNIOR

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No passado dia 30 de Junho, no Teatro Gil Vicente, em Barcelos, a Oficina de Teatro da Barcelos Sénior levou mais um espetáculo à cena. Agora com a comédia "O Velho da Horta", do reconhecidíssimo dramaturgo e poeta quinhentista, Gil Vicente.

Depois de meses de trabalho, quantas vezes árduo, foi com imenso orgulho que toda a Oficina de Teatro, sob a direção do professor Fernando Pinheiro, concretizou mais um projeto cultural. Elevando desta forma a um nível superior a Arte de Talma!.

O mesmo espetáculo se segue, na próxima sesta-feira, no salão paroquial de Durrães, às 21.30h. Para que também a população rural possa usufruir da criação Vicentina. 

publicado por Bernardete Costa às 19:21

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Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

MÚSICA DE TODOS OS TEMPOS E "O CHICO DO TI 'FARTURAS"

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Depois do êxito do espetáculo levado à cena pela UAE (Universidade Autodidacta de Esposende, “Música de todos os tempos e a peça de Teatro “O Chico do Ti’Farturas”, no Auditório Municipal de Esposende, no passado dia 3 de Junho, a UAE, a rogo de muitos que não tiveram a oportunidade de usufruir deste evento, até porque a casa depressa ficou lotada, fez a sua reposição no Auditório de Palmeira, no passado dia 25 de junho.

O Auditório não encheu, ficando aquém das expectativas. No entanto, e tendo em conta que as entradas eram solidárias a favor das vítimas do incêndio de Pedrogão Grande, a receita até se pautou por razoável. Ou seja, valeu a pena o sacrifício dos seniores, que nunca é de mais referir, para mais tendo em conta a idade avançada de alguns, 80 e mais anos.

Talvez lá para dezembro, também a pedido de muitos esposendenses e até da autarquia, se volte de novo aos palcos, desde que no Auditório Municipal, pois que as condições são razoáveis e já conhecemos os cantos da casa!

Aqui pretendo reiterar o apreço por todos os que contribuíram, duma forma ou de outra, para que este acontecimento fosse do apreço geral do público.

Não pretendo terminar sem uma referência especial ao autor da história, José Felgueiras, que suportou a dramaturgia encenada pela minha pessoa. Ainda realçar que as alterações à história tiverem todo o consentimento prévio do autor.  

Agora, as merecidas férias, que bem-vindas são!

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publicado por Bernardete Costa às 19:35

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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

ESPETÁCULO UAE (UNIVERSIDADE AUTODIDACTA DE ESPOSENDE) - MÚSICA DE TODOS OS TEMPOS E "O CHICO DO TI' FARTURAS"

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Um dia destes, no meu trajeto citadino, cruzei-me com o escritor e amigo de longa data José Viale Moutinho. Com normalidade insuspeita inquere das minhas andanças, invariavelmente dos meus projetos literários. Já certa vez me chamou preguiçosa porque não lhe respondi de forma conclusiva. Desta feita contei-lhe dos meus projetos teatrais e outros ligados à Universidade autodidacta de Esposende assim como à Universidade Sénior de Barcelos.

Prontamente, daquele seu jeito que não admite réplica diz: deixa-te disso. Tu és uma criativa!

Sorri, mais um esgar com laivos de acordo... e desacordo. Como acontece quando a argumentação me escapa momentaneamente.

Hoje, estou aqui para lhe responder como o desejaria ter feito no momento: Sim, sou uma criativa. Pois não é o Teatro uma arte da criação, pelo menos aparentada com tantas outras?

Ou seja, pela terceira vez armo-me em carapau de corrida, ou se preferirem em aprendiz de feiticeiro, e levei à cena já três espetáculos. Nada de grandioso, com certeza. Mas à medida do gosto deste povo simples de Esposende, terra onde o Teatro possui raízes profundas na tradição cultural do burgo. Desta feita realizou-se no último sábado, 3 de junho, no Auditório Municipal, um espetáculo com Música de Todos os Tempos e a peça “ O Chico do Ti’Farturas. Notavelmente, e apesar de outro evento em simultâneo, a sala esgotou; foi até necessário permitir acesso a pessoas que aceitaram permanecer desconfortavelmente a pé ao longo das cochias. Facto que em nada é aconselhável, como sabem.   

É pois com a intenção de “publicitar” este meu trabalho criativo que aqui deixo algumas imagens. Também, e notoriamente engrandecer a prestação de todos, professores implicados, grupo coral e atores e atrizes, que, quantas vezes com denodado esforço físico e psicológico, se prestaram às exigências deste projeto.  

publicado por Bernardete Costa às 18:24

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Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

PORTUGAL EM FESTA

 

PORTUGAL ESTÁ EM FESTA! Transborda uma tal alegria depois de se sagrar vencedor no Festival da Eurovisão! E ainda bem. Vitórias, festas, alegria fazem bem à alma, à autoestima dos povos. Depois de tantas tentativas goradas de canções elaboradas pelos mais conceituados letristas e poetas portugueses, orquestradas por músicos de renome, um jovem e sua irmã, cantor e letrista respetivamente, trazem orgulhosamente para casa, para a sua pátria amada, o almejado troféu!

Ainda que, e pago caro esta ousadia pois uma multidão eufórica quase me bate na cabeça, tenha dito no momento que a letra da canção é pobre, ainda que bonitinha, porque fala de amor. Mas quantas outras canções bonitinhas também falam de amor! E nem por isso milhões de pessoas as acham excecionais. Quanto à música, quanto a mim, evoca-me uma canção de ninar; é mais uma música que soa bem, mas sem grande notoriedade.

Penso que o grande sucesso no Festival da Eurovisão não foi tanto pela canção em si, mas pela interpretação despojada e a simplicidade tocante do Salvador.

Estes e outros aspetos remetem-me para uma Europa cansada de luzes, vaidades, pessoas festivaleiras. Que até podem ter almas grandes, mas que não souberam ou não se atreveram à humildade que caracteriza o nosso cantor. Um cantor marcado por uma apreciada modéstia, até agora nunca observada nestas andanças musicais.  Numa europa, num mundo em convulsão, presumo que este festival da Eurovisão poderá ser até temática para ensaios socio-filosóficos.

Não mudei de opinião, seguramente. Gostaria até do contrário. Um pouco como aquela de Fernando Pessoa: primeirito estranha-se depois entranha-se. Mas não, fico na minha.

E o óbvio, PARABÉNS PORTUGAL! PARABÉNS SALVADOR!

 

publicado por Bernardete Costa às 18:45

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Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

O REI TRISTE

 

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O REI TRISTE

 

            Era uma vez um país belo como a primavera; lembrava o mar, o verde, o azul… Mas onde reinava um rei triste, muito triste. Porque não tinha amigos, não sabia gostar das pessoas.

            Vestia este rei sempre de negro como a sua tristeza.

            Vivia na capital do seu reino num grande palácio cor-de-rosa.

            Não tinha rainha, nem príncipe, nem princesa. Rodeava-se unicamente pelos seus criados e por um conselheiro que o ajudava a governar.

           

De longe a longe visitava a casinha onde nascera, numa pequena terra a luzir como um diamante no sopé duma montanha.

            Sempre triste e trajado de negro.

            Indiferentes à melancolia do rei, as flores do pequeno e desarrumado jardim, que rodeava a casa da sua infância, brotavam vivas, coloridas e com um grande sorriso de pétala a pétala.

 

            Um dia, o rei triste resolveu castigar as sorridentes flores que cresciam naquele pedaço de chão.

            E mais triste do que nunca ordenou:

            - Todos neste reino, homens, animais, plantas, pedras, montanhas, serras, céus, rios, mares… e flores estão proibidos de sorrir!

 

            Ficaram de boca aberta as gentes do sítio e de todo aquele país que lembrava o mar.

            Também os mares, rios, montanhas, céus, animais, plantas…e flores não compreendiam tal lei. Por isso, não a podiam aceitar.

            - Não se pode proibir o sorriso! – clamavam zangados.

 

            No dia seguinte, o rei foi verificar se as flores tinham cumprido a sua ordem.

            Já cansado de tanto e tanto olhar para as flores, procurando nelas algum entristecimento, sentou-se numa cadeira.

            - Daqui não saio até desaparecer o sorriso das vossas pétalas – bradou, furioso!

E assim sucedeu: o rei triste, sempre de negro vestido, deixou-se ficar sentado naquela cadeira, à espera de ver as flores deixarem de sorrir.

 

E esperou, esperou.

Até que, numa límpida e clara madrugada, O rei Triste soube que os cravos, como numa explosão de fogo de artifício, floriam nos jardins, nos campos, nas montanhas daquele país que lembrava o mar, o azul, o verde…, nasciam até nas janelas do palácio cor-de-rosa. Foi então que os sorrisos dos homens, das flores, dos jardins, dos campos, das montanhas, dos rios e dos mares se transformaram em gargalhadas, como se uma crise de imensa alegria os dominasse.

            Na sua cadeira há muito sentado, já fraco e velho, o rei triste pensou que deviam ser os cravos que transmitiam aquela alegria. Tapou os ouvidos. E ainda gemeu:

            - Os cravos estão proibidos neste país…

Com tal mau jeito se mexeu, que tombou da cadeira. E não mais se ergueu.

 

Bernardete Costa

 

 

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 19:14

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Terça-feira, 11 de Abril de 2017

A VOZ DO RIO - CONTO INFANTO/JUVENIL

 

A voz do rio

 

 

A felicidade de Maria e Manuel era assombrada pela ausência de sorrisos e traquinices infantis!

Como se amavam e temiam que o seu amor não sobrevivesse àquela dura prova que a vida lhes preparara, a ausência de filhos, deslocaram-se até ao rio que serpenteava tranquilo na zona baixa da sua cidade. É que, diziam os antigos, quem permanecesse durante uma noite sob os seus arcos de pedra, chovesse ou fizesse frio, e não mostrasse qualquer medo perante os estranhos e medonhos ruídos que por lá se escutavam, com certeza conseguiria satisfazer os seus mais prementes desejos.

Verdade ou não o certo é que nascerem-lhes sete filhas, uma em cada ano, cada qual a mais bonita: uma de loiros cabelos como o sol e olhos cor de água, outra de cabelos ruivos cor de cenoura e olhos azuis de mar, ainda outra de olhar verde-esmeralda e cabelos negros como a noite mais escura...; todas belas, graciosas...e muito, muito vaidosas!

Somente uma delas era diferente: a mais nova de todas. Luana, assim se chamava, de tez morena, olhos castanhos como raízes de árvore, cabelos quase pretos e lisos, tão escorridos que nem uma permanente havia conseguido aqueles belos caracóis que faziam o orgulho das suas lindas irmãs. Além de que, para acentuar a tristeza de Luana, uma mancha circular, um angioma inoperável, desformava-lhe ligeiramente o rosto do lado direito. Por causa deste defeito e consequente fealdade, Luana trazia sempre os cabelos cobrindo-lhe parte do rosto. E olhava as pessoas timidamente, cabisbaixa, receando mostrar a face e a sua malfadada mancha.

Enquanto foram crianças, todas as irmãs brincavam juntas em correrias e atropelos. Logo que cresceram e se transformaram numas mulherzinhas, tudo mudou para Luana: que feia és!, que cabelos horrorosos!, que mancha desagradável, diziam sem piedade uma a uma as seis irmãs.

Estas meninas faziam a felicidade do casal, Maria e Manuel: seis delas eram tão belas, já aqui se disse! Ninguém na cidade e arredores se podia gabar de ter filhas com tal beleza. E quando passeavam de mão dada pela cidade, as pessoas gabavam-nas com sincero espanto: a mais bonita é a de olhos azuis...!, não, é a de olhos verdes...!, não digas disparates, é a de olhos d´água...! Com tantos elogios, já podem adivinhar, estas meninas tornaram-se muito vaidosas. Só pensavam em cabeleireiros, roupas, sapatos, carteiras... Passavam a vida ao espelho, cada uma a querer saber quem era a mais bela. E, claro, até os estudos iam de mal a pior...

Apenas Luana não tinha coragem de se ver ao espelho. No entanto, era muito boa estudante, muito arranjada, e a casa brilhava como um brinco quando ajudava a mãe nas lides domésticas. Luana mostrava-se sempre pronta para colaborar nos mais diversos trabalhos mesmo que os pais não pedissem. Parecia até que ela lhes adivinhava os mais íntimos desejos! Porém, Luana nem sempre sentia qualquer felicidade nestes atributos que só ela reconhecia. Quantas vezes mergulhou o seu no olhar ridente do pai a implorar afeto. Mas a distração do pai passava por ela e detinha-se apenas na beleza das irmãs.

Depois, na penumbra do quarto, mesmo ao lado da sua irmã de sedosos cabelos de oiro que dormia como um anjo, deixava rolar lágrimas quentes e salgadas que formavam um pequenino ribeiro a inundar a almofada.

 

 Quando a Primavera rompia pelas manhãs com a sua luz transparente, Luana, agora uma adolescente que apreciava a natureza, levantava-se cedinho e dirigia-se para junto do amado e belo rio, cujas margens eram bordadas por frondosos salgueiros muito verdes entremeados por lírios perfumados e de múltiplas cores. Levava com ela um livro e sentava-se num dos bancos de madeira pintada de verde, que ali se encontrava naquele jardim salpicado de cor e perfume virado à tranquilidade das águas.

Um dia, mais triste do que nunca, Luana reflectia no porquê de não ser tão bela como as irmãs; e como não conseguia ler, levantou-se e mirou-se no espelho da água. Que feia sou!, disse num fio de voz cheio de angústia. E para seu assombro ouviu:

Sorri, Luana! Sorri, Luana!

Quem me fala?, estranhou olhando para a direita e para a esquerda, para trás e para a frente a procurar o dono de tal maviosa voz.

O rio já divertido repetiu: sou eu, Luana, o rio que tanto admiras e amas.

Luana exultou: era a voz do rio! Ela conseguira escutar a voz do rio! Que maravilha! Que felicidade!

Que lhe dizia?? Sorri, Luana? Era preciso sorrir!?

Pela primeira vez, desde o tempo em que deixara de ser criança,  Luana sorriu, riu e deu sonoras gargalhadas.

E o rio dizia e repetia: sorri, Luana, sorri, Luana...

Quando chegou a casa, verificou que as irmãs olhavam para ela duma forma diferente.

Que aconteceu a Luana? Até parece bonita! Olha, atirou os cabelos para trás das orelhas! Fica-lhe bem assim... E o sorriso, vejam como sorri! Que belo sorriso!, exclamavam uma a uma as suas irmãs.

Quando o pai chegou a casa, Luana procurou os seus braços onde se aninhou. E olhando-o nos olhos sorriu dum jeito tão doce e terno que ele se envergonhou; havia elogiado tanto as outras filhas, enquanto permanecia cego para as qualidades de Luana como estudante e para o amor que ela lhes dedicava, a ele e à mãe, sempre que, sem resmungar, se mostrava disponível e pronta para ajudá-los nos diferentes trabalhos que a casa requeria.

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 19:37

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Quinta-feira, 23 de Março de 2017

A POESIA NA ESCOLA DE ABAÇÃO, GUIMARÃES

 No passado dia 9 de março, tive o grato prazer de apresentar o meu livro "A Luz dos Animais e das Coisas" aos meninos do Agrupamento de Escolas de Abação, Guimarães.

Falámos de poesia, da linguagem poética, trocando palavras e leituras. Um público escolar muito novinho e muito interessado  e atento ao livro, ainda! Simpáticos, estes meninos, assim como os seus docentes, não esquecendo a Professora Isabel, bibliotecária, a quem devo o amável convite, na pessoa do meu editor, Antunes Livreiros.

Uma surpresa muito agradável foi o "encontro" com o insigne escritor Raul Brandão, que estava a ser homenageado por este Agrupamento pelos seus 150 anos de vida, tendo em conta as suas ligações com a cidade vimanarense, onde viveu e acabou por falecer.

Assim ficou registado na minha memória mais um mês, por excelência, dedicado à poesia. Junto de crianças, como muito me sensibliliza!

 

publicado por Bernardete Costa às 16:59

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Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

ÓDIO

 

A morte a destempo. Não fora um acidente fortuito, uma doença imprevista, uma congestão alimentar… Não identificava o motivo, apenas se focalizava na violência. Uma enorme adaga cortava em pedaços o corpo. Alguém exercia a crueldade gerada por um ódio inexplicável. Sentia esse ódio mesmo que não identificasse as razões. Ódio puro. Irracional. O mundo estava possuído pela raiva como se todos os homens fossem meras feras. A humanidade destituía-se de sentimentos. Nem a maldade lhe era bastante.  Porque por vezes a caminho ou a meio caminho da maldade, surge o arrependimento, um qualquer estremecer que alivia a morte. Ainda que sempre morte. Mas não, a adaga cortava com precisão e sem qualquer hesitação aquele corpo em grandes sulcos de carne sanguinolenta.  E ela, como que aprisionada por forças inconcebíveis, mesmo diabólicas, não conseguia soltar um grito a pedir socorro. Apenas aquele demónio na garganta, uma dor tamanha que a arranhava e a sufocava.

Quando ao longe, os seus braços enormes se abriram vagarosamente. Olhou-o entre incrédula e confiante. Não se mexeu. A dor paralisava-a. No seu campo de visão persistia o corpo retalhado, e alguém o esfaqueava uma vez após outra. Ele chegou-se perto. Tão terno, tão tranquilo. Como se aquele ódio, aquela violência, aquele mundo de feras fosse uma enorme mentira. Como se aquele mundo fosse um sonho mau e horrível. Ela apenas teve forças para se aninhar nos seus braços. Neles sentiu toda a doçura da esperança.

publicado por Bernardete Costa às 19:23

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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2017

SORRISO

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sorriso

 

vi-te sorrir e o mundo triste mentia

não há sorriso assim um sorriso a florir permanente

neste mundo o sorriso chora tanta vez

esconde-se na raiz da boca e mente

… com desfaçatez

 

vi-te sorrir e li o teu rosto a tua alma

 

não havia pecado no teu sorriso.  

o sorriso te vestia mesmo na fala breve

na prenhez do corpo da hipocrisia

teu sorriso mistério leve

 ...por isso tanto me seduzia.

 

vi-te sorrir e li o teu rosto a tua alma

vi-te sorrir e o mundo triste mentia

 

o teu sorriso a refletir o cântico do céu 

a colorir a friagem do inverno a exalar perfume

dos lúbricos pântanos da tristeza

 

e se deus existe para além da descrença

 se deus persiste na lama lavada do teu sorrir

apenas a ausência de tal beleza sorri

 à negrura do meu vestido.

 

Bernardete Costa

 

 (foto tirada da net)

publicado por Bernardete Costa às 17:01

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