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Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

PORTUGAL EM FESTA

 

PORTUGAL ESTÁ EM FESTA! Transborda uma tal alegria depois de se sagrar vencedor no Festival da Eurovisão! E ainda bem. Vitórias, festas, alegria fazem bem à alma, à autoestima dos povos. Depois de tantas tentativas goradas de canções elaboradas pelos mais conceituados letristas e poetas portugueses, orquestradas por músicos de renome, um jovem e sua irmã, cantor e letrista respetivamente, trazem orgulhosamente para casa, para a sua pátria amada, o almejado troféu!

Ainda que, e pago caro esta ousadia pois uma multidão eufórica quase me bate na cabeça, tenha dito no momento que a letra da canção é pobre, ainda que bonitinha, porque fala de amor. Mas quantas outras canções bonitinhas também falam de amor! E nem por isso milhões de pessoas as acham excecionais. Quanto à música, quanto a mim, evoca-me uma canção de ninar; é mais uma música que soa bem, mas sem grande notoriedade.

Penso que o grande sucesso no Festival da Eurovisão não foi tanto pela canção em si, mas pela interpretação despojada e a simplicidade tocante do Salvador.

Estes e outros aspetos remetem-me para uma Europa cansada de luzes, vaidades, pessoas festivaleiras. Que até podem ter almas grandes, mas que não souberam ou não se atreveram à humildade que caracteriza o nosso cantor. Um cantor marcado por uma apreciada modéstia, até agora nunca observada nestas andanças musicais.  Numa europa, num mundo em convulsão, presumo que este festival da Eurovisão poderá ser até temática para ensaios socio-filosóficos.

Não mudei de opinião, seguramente. Gostaria até do contrário. Um pouco como aquela de Fernando Pessoa: primeirito estranha-se depois entranha-se. Mas não, fico na minha.

E o óbvio, PARABÉNS PORTUGAL! PARABÉNS SALVADOR!

 

publicado por Bernardete Costa às 18:45

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Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

O REI TRISTE

 

Salazar-Abel Manta.jpg

O REI TRISTE

 

            Era uma vez um país belo como a primavera; lembrava o mar, o verde, o azul… Mas onde reinava um rei triste, muito triste. Porque não tinha amigos, não sabia gostar das pessoas.

            Vestia este rei sempre de negro como a sua tristeza.

            Vivia na capital do seu reino num grande palácio cor-de-rosa.

            Não tinha rainha, nem príncipe, nem princesa. Rodeava-se unicamente pelos seus criados e por um conselheiro que o ajudava a governar.

           

De longe a longe visitava a casinha onde nascera, numa pequena terra a luzir como um diamante no sopé duma montanha.

            Sempre triste e trajado de negro.

            Indiferentes à melancolia do rei, as flores do pequeno e desarrumado jardim, que rodeava a casa da sua infância, brotavam vivas, coloridas e com um grande sorriso de pétala a pétala.

 

            Um dia, o rei triste resolveu castigar as sorridentes flores que cresciam naquele pedaço de chão.

            E mais triste do que nunca ordenou:

            - Todos neste reino, homens, animais, plantas, pedras, montanhas, serras, céus, rios, mares… e flores estão proibidos de sorrir!

 

            Ficaram de boca aberta as gentes do sítio e de todo aquele país que lembrava o mar.

            Também os mares, rios, montanhas, céus, animais, plantas…e flores não compreendiam tal lei. Por isso, não a podiam aceitar.

            - Não se pode proibir o sorriso! – clamavam zangados.

 

            No dia seguinte, o rei foi verificar se as flores tinham cumprido a sua ordem.

            Já cansado de tanto e tanto olhar para as flores, procurando nelas algum entristecimento, sentou-se numa cadeira.

            - Daqui não saio até desaparecer o sorriso das vossas pétalas – bradou, furioso!

E assim sucedeu: o rei triste, sempre de negro vestido, deixou-se ficar sentado naquela cadeira, à espera de ver as flores deixarem de sorrir.

 

E esperou, esperou.

Até que, numa límpida e clara madrugada, O rei Triste soube que os cravos, como numa explosão de fogo de artifício, floriam nos jardins, nos campos, nas montanhas daquele país que lembrava o mar, o azul, o verde…, nasciam até nas janelas do palácio cor-de-rosa. Foi então que os sorrisos dos homens, das flores, dos jardins, dos campos, das montanhas, dos rios e dos mares se transformaram em gargalhadas, como se uma crise de imensa alegria os dominasse.

            Na sua cadeira há muito sentado, já fraco e velho, o rei triste pensou que deviam ser os cravos que transmitiam aquela alegria. Tapou os ouvidos. E ainda gemeu:

            - Os cravos estão proibidos neste país…

Com tal mau jeito se mexeu, que tombou da cadeira. E não mais se ergueu.

 

Bernardete Costa

 

 

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 19:14

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Terça-feira, 11 de Abril de 2017

A VOZ DO RIO - CONTO INFANTO/JUVENIL

 

A voz do rio

 

 

A felicidade de Maria e Manuel era assombrada pela ausência de sorrisos e traquinices infantis!

Como se amavam e temiam que o seu amor não sobrevivesse àquela dura prova que a vida lhes preparara, a ausência de filhos, deslocaram-se até ao rio que serpenteava tranquilo na zona baixa da sua cidade. É que, diziam os antigos, quem permanecesse durante uma noite sob os seus arcos de pedra, chovesse ou fizesse frio, e não mostrasse qualquer medo perante os estranhos e medonhos ruídos que por lá se escutavam, com certeza conseguiria satisfazer os seus mais prementes desejos.

Verdade ou não o certo é que nascerem-lhes sete filhas, uma em cada ano, cada qual a mais bonita: uma de loiros cabelos como o sol e olhos cor de água, outra de cabelos ruivos cor de cenoura e olhos azuis de mar, ainda outra de olhar verde-esmeralda e cabelos negros como a noite mais escura...; todas belas, graciosas...e muito, muito vaidosas!

Somente uma delas era diferente: a mais nova de todas. Luana, assim se chamava, de tez morena, olhos castanhos como raízes de árvore, cabelos quase pretos e lisos, tão escorridos que nem uma permanente havia conseguido aqueles belos caracóis que faziam o orgulho das suas lindas irmãs. Além de que, para acentuar a tristeza de Luana, uma mancha circular, um angioma inoperável, desformava-lhe ligeiramente o rosto do lado direito. Por causa deste defeito e consequente fealdade, Luana trazia sempre os cabelos cobrindo-lhe parte do rosto. E olhava as pessoas timidamente, cabisbaixa, receando mostrar a face e a sua malfadada mancha.

Enquanto foram crianças, todas as irmãs brincavam juntas em correrias e atropelos. Logo que cresceram e se transformaram numas mulherzinhas, tudo mudou para Luana: que feia és!, que cabelos horrorosos!, que mancha desagradável, diziam sem piedade uma a uma as seis irmãs.

Estas meninas faziam a felicidade do casal, Maria e Manuel: seis delas eram tão belas, já aqui se disse! Ninguém na cidade e arredores se podia gabar de ter filhas com tal beleza. E quando passeavam de mão dada pela cidade, as pessoas gabavam-nas com sincero espanto: a mais bonita é a de olhos azuis...!, não, é a de olhos verdes...!, não digas disparates, é a de olhos d´água...! Com tantos elogios, já podem adivinhar, estas meninas tornaram-se muito vaidosas. Só pensavam em cabeleireiros, roupas, sapatos, carteiras... Passavam a vida ao espelho, cada uma a querer saber quem era a mais bela. E, claro, até os estudos iam de mal a pior...

Apenas Luana não tinha coragem de se ver ao espelho. No entanto, era muito boa estudante, muito arranjada, e a casa brilhava como um brinco quando ajudava a mãe nas lides domésticas. Luana mostrava-se sempre pronta para colaborar nos mais diversos trabalhos mesmo que os pais não pedissem. Parecia até que ela lhes adivinhava os mais íntimos desejos! Porém, Luana nem sempre sentia qualquer felicidade nestes atributos que só ela reconhecia. Quantas vezes mergulhou o seu no olhar ridente do pai a implorar afeto. Mas a distração do pai passava por ela e detinha-se apenas na beleza das irmãs.

Depois, na penumbra do quarto, mesmo ao lado da sua irmã de sedosos cabelos de oiro que dormia como um anjo, deixava rolar lágrimas quentes e salgadas que formavam um pequenino ribeiro a inundar a almofada.

 

 Quando a Primavera rompia pelas manhãs com a sua luz transparente, Luana, agora uma adolescente que apreciava a natureza, levantava-se cedinho e dirigia-se para junto do amado e belo rio, cujas margens eram bordadas por frondosos salgueiros muito verdes entremeados por lírios perfumados e de múltiplas cores. Levava com ela um livro e sentava-se num dos bancos de madeira pintada de verde, que ali se encontrava naquele jardim salpicado de cor e perfume virado à tranquilidade das águas.

Um dia, mais triste do que nunca, Luana reflectia no porquê de não ser tão bela como as irmãs; e como não conseguia ler, levantou-se e mirou-se no espelho da água. Que feia sou!, disse num fio de voz cheio de angústia. E para seu assombro ouviu:

Sorri, Luana! Sorri, Luana!

Quem me fala?, estranhou olhando para a direita e para a esquerda, para trás e para a frente a procurar o dono de tal maviosa voz.

O rio já divertido repetiu: sou eu, Luana, o rio que tanto admiras e amas.

Luana exultou: era a voz do rio! Ela conseguira escutar a voz do rio! Que maravilha! Que felicidade!

Que lhe dizia?? Sorri, Luana? Era preciso sorrir!?

Pela primeira vez, desde o tempo em que deixara de ser criança,  Luana sorriu, riu e deu sonoras gargalhadas.

E o rio dizia e repetia: sorri, Luana, sorri, Luana...

Quando chegou a casa, verificou que as irmãs olhavam para ela duma forma diferente.

Que aconteceu a Luana? Até parece bonita! Olha, atirou os cabelos para trás das orelhas! Fica-lhe bem assim... E o sorriso, vejam como sorri! Que belo sorriso!, exclamavam uma a uma as suas irmãs.

Quando o pai chegou a casa, Luana procurou os seus braços onde se aninhou. E olhando-o nos olhos sorriu dum jeito tão doce e terno que ele se envergonhou; havia elogiado tanto as outras filhas, enquanto permanecia cego para as qualidades de Luana como estudante e para o amor que ela lhes dedicava, a ele e à mãe, sempre que, sem resmungar, se mostrava disponível e pronta para ajudá-los nos diferentes trabalhos que a casa requeria.

 

Bernardete Costa

publicado por Bernardete Costa às 19:37

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Quinta-feira, 23 de Março de 2017

A POESIA NA ESCOLA DE ABAÇÃO, GUIMARÃES

 No passado dia 9 de março, tive o grato prazer de apresentar o meu livro "A Luz dos Animais e das Coisas" aos meninos do Agrupamento de Escolas de Abação, Guimarães.

Falámos de poesia, da linguagem poética, trocando palavras e leituras. Um público escolar muito novinho e muito interessado  e atento ao livro, ainda! Simpáticos, estes meninos, assim como os seus docentes, não esquecendo a Professora Isabel, bibliotecária, a quem devo o amável convite, na pessoa do meu editor, Antunes Livreiros.

Uma surpresa muito agradável foi o "encontro" com o insigne escritor Raul Brandão, que estava a ser homenageado por este Agrupamento pelos seus 150 anos de vida, tendo em conta as suas ligações com a cidade vimanarense, onde viveu e acabou por falecer.

Assim ficou registado na minha memória mais um mês, por excelência, dedicado à poesia. Junto de crianças, como muito me sensibliliza!

 

publicado por Bernardete Costa às 16:59

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Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

ÓDIO

 

A morte a destempo. Não fora um acidente fortuito, uma doença imprevista, uma congestão alimentar… Não identificava o motivo, apenas se focalizava na violência. Uma enorme adaga cortava em pedaços o corpo. Alguém exercia a crueldade gerada por um ódio inexplicável. Sentia esse ódio mesmo que não identificasse as razões. Ódio puro. Irracional. O mundo estava possuído pela raiva como se todos os homens fossem meras feras. A humanidade destituía-se de sentimentos. Nem a maldade lhe era bastante.  Porque por vezes a caminho ou a meio caminho da maldade, surge o arrependimento, um qualquer estremecer que alivia a morte. Ainda que sempre morte. Mas não, a adaga cortava com precisão e sem qualquer hesitação aquele corpo em grandes sulcos de carne sanguinolenta.  E ela, como que aprisionada por forças inconcebíveis, mesmo diabólicas, não conseguia soltar um grito a pedir socorro. Apenas aquele demónio na garganta, uma dor tamanha que a arranhava e a sufocava.

Quando ao longe, os seus braços enormes se abriram vagarosamente. Olhou-o entre incrédula e confiante. Não se mexeu. A dor paralisava-a. No seu campo de visão persistia o corpo retalhado, e alguém o esfaqueava uma vez após outra. Ele chegou-se perto. Tão terno, tão tranquilo. Como se aquele ódio, aquela violência, aquele mundo de feras fosse uma enorme mentira. Como se aquele mundo fosse um sonho mau e horrível. Ela apenas teve forças para se aninhar nos seus braços. Neles sentiu toda a doçura da esperança.

publicado por Bernardete Costa às 19:23

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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2017

SORRISO

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sorriso

 

vi-te sorrir e o mundo triste mentia

não há sorriso assim um sorriso a florir permanente

neste mundo o sorriso chora tanta vez

esconde-se na raiz da boca e mente

… com desfaçatez

 

vi-te sorrir e li o teu rosto a tua alma

 

não havia pecado no teu sorriso.  

o sorriso te vestia mesmo na fala breve

na prenhez do corpo da hipocrisia

teu sorriso mistério leve

 ...por isso tanto me seduzia.

 

vi-te sorrir e li o teu rosto a tua alma

vi-te sorrir e o mundo triste mentia

 

o teu sorriso a refletir o cântico do céu 

a colorir a friagem do inverno a exalar perfume

dos lúbricos pântanos da tristeza

 

e se deus existe para além da descrença

 se deus persiste na lama lavada do teu sorrir

apenas a ausência de tal beleza sorri

 à negrura do meu vestido.

 

Bernardete Costa

 

 (foto tirada da net)

publicado por Bernardete Costa às 17:01

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LUXÚRIA

 

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Sente a virtude da nudez

na poesia da pele, licita natura em êxtase

 

toca- a no desejo que a toma

e desce pelo abismo tremente do beijo

secreta volúpia que suspira e perdura

 

toma-a, ou toma o que dela se te oferece

e qual carícia em seus cabelos acolhida

serás vertigem num rosto sem cor.

 

derrama teu sufoco mulher e sacia a fome

neste teu sem nome

oferta mais singela

 que ao olhar se não revela

 

e tuas mãos irmãs no delíquio dos anseios

colhem nuvens de beijos

compondo no céu o adiamento da espera.

 

Quem sabe do teu rosto para a censura

o fogo da luxúria a chama do entardecer?

 

Tal é o segredo no clamor da carne

mas nas vestes da pintura és seda és sede

veemente apelo de amor.

 

 

Bernardete Costa

 

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 16:37

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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017

BORRASCA DA GROSSA

 

BORRASCA DA GROSSA

 

O sol despenhava-se no horizonte como a luminescência dum tesouro, de tal forma que não enxergava praticamente nada; apenas uma névoa rútila e os contornos dos barcos adornados nas areias a aguardar que a cegueira da luz esmorecesse na noite que se aproximava.

 

Cegueira foi a vida de madame Silva. Casara com um advogado de renome na cidade de província para onde foram residir após as núpcias. Burgo acolhedor, casario branco a bordar ruas e avenidas, apenas 4 andares acima da cota soleira; por vezes, as chuvas a gorgolejar pelos telhados de ardósia e de telha portuguesa e os ventos a brincar numa fúria de nortada descarando a ondulação ribeirinha; e quantas, o sol, magnificente, a beijar o espelho do rio, ou então escondido nas sombras terríficas da tempestade que se aproxima, como agora, a espreitar com seu olhar de fogo por entre a leveza de nuvens mansas que persistem a sossegar as gentes do povoado, a sossegar numa manhã traiçoeira os pescadores que

 

amanhã, vamos ao mar

 

Madame Silva, de seu nome de casada e bem casada, aventurava-se indiferente pela vizinhança bisbilhoteira e percorria-a numa solidão aprazível - notava-se pelo sorriso que esboçava deixando entrever os dentes pequenos e brancos, e também pelo cantarolar de modinhas que soprava por entre os lábios húmidos e apetitosos, ainda.

Deambulava pela avenida, num desses fins de tarde mágicos, a escutar os pescadores  que perscrutavam aquela tela escarlate a naufragar no elétrico cinza do horizonte

 

amanhã não vamos ao mar

 

Senhor Zé – chamava madame Silva -, tem aí o barco, pode passar-me para a outra margem?

 

Zé das Areias ficou boquiaberto perante o pedido de madame. Conhecia as águas ratoeiras do rio que não possuíam segredos tal qual os dedos de sua mão. Também conhecia o senhor Silva, ainda que não pusesse as mãos no lume por ele. Sabia do feitio amável que exteriorizava e do seu ar bonacheirão de quem pouco se importa com a vida, porque ela vinha-lhe, como é uso dizer, comer-lhe à mão através duma reforma choruda de deputado da assembleia da república; por sua vez, madame não era o tipo de senhora que fizesse tal pedido, era mesmo estranho na pessoa tão alheada da madame, um alheamento simples, é certo, mas sempre alheamento.

Senhor Zé, passa-me para outro lado, insiste madame, perante o mutismo do pescador como se o gato lhe houvesse comido a língua ao almoço.

 

Mas madame, este tempo de acalmia é breve. Logo vem tempestade, não tarda muito. A madame atravessa rio e depois? Quer que a vá buscar? Não sei se o poderei fazer, o meu saber diz-me que vem borrasca…; sabe, a experiencia é o medo!

 

 

Bem, senhor Zé, já sei que tem medo, vou pedir ao…

Madame, interrompe Zé das Areias, eu levo-a…, no entanto a experiência diz-me o quão perigoso é a madame permanecer por aqueles lados, agora que vem tempestade da grossa.

A madame olha-o por entre a vírgula dos olhos cinza de veludo; no seu rosto, parcialmente coberto por um largo chapéu, pressente-se um relâmpago de impaciência faiscar no olhar de veludo macio.  Zé olha fascinado a beleza daquele rosto e daquele corpo mal disfarçados pela capa de chuva vermelha e pelo chapéu encarnado. Se fosse uma sereia não seria mais bela, mais sedutora, até a voz lhe soava ao cristal ciciante duma fonte, ele marado a ouvir a fonte e a hesitar…

Vem ou não vem, interpela madame.

De imediato o pescador desamarra o barco do pontão e entra com um salto ágil para o seu interior; toma os remos e, nem ligo o motor, não vale a pena.

Como queira, desde que me leve para o outro lado; e a mulher salta graciosa para a embarcação.

Por longos momentos apenas se ouve o chap chap dos remos a bater na escureza profunda das águas, depois a areia a riscar a madeira lodosa, depois a água numa onda suave a beijar o casco.

Eis-nos senhora. Mas veja, ao longe, não é preciso ir à faculdade, vem borrasca e da grossa, diz-me o meu saber, persiste o bom homem no seu conhecimento de vida, experiência também é ciência.

 

Eis quando do meio do pinhal surge uma figura masculina, imponente. Arrasta os pés que impelem areias, e caminha com a decisão de quem quer e sabe o que quer e deseja a posse. Homem e mulher enlaçam-se num beijo a arder desejo. Zé das Areias permanece agarrado ao chão arenoso sem saber o que pensar da cena que se desenrola mesmo à sua frente, sem rebuço, sem disfarce: a madame e aquele cavalheiro, másculo, a colhê-la no encaixe dos seus braços, a madame casada com o senhor Silva, pessoa tão cordial, tão afetiva, a madame a por os cornos ao senhor Silva, assim mesmo, em vernáculo puro, à sua frente, nem

 

adeus senhor Zé, depois vem-me buscar

 

Zé das Areias por respeito e solidariedade com o senhor Silva, recusa aquele testemunho: vira o rosto ao cenário de loucura e de indecência que entrementes se desenrola, salta para o barco, e somente quando pega nos remos ousa levantar o olhar surpreso e indignado:  à sua frente apenas o vazio do pinhal, areal e mar, pois de amantes em amor picado, que sexo explicito era, nada. Raios onde se meteram, exclama num rugido surdo. E a responder nada, apenas pinhal, areia e mar.

Chegado à outra margem, busca refúgio em casa da tempestade ameaçadora que acaba de desabar. As águas rapidamente crescem em seu leito de pedras e lamas, e tudo arrasam à sua passagem. Do lado de lá, a península de areia submerge no sal das águas turvas e revoltas. O céu colou-se à terra, irmanou-se do mesmo furor através dos ventos que sacodem águas, arbustos, árvores.

Na fúria viril de muitos anos de experiencia em relação conjugal, Zé procura a mulher debaixo das cobertas, tateia brusco a ausência da mulher. E de espanto em espanto vê a capa vermelha e o chapéu encarnado nas costas da cadeira.

Caralho, brada o pescador num assombro infante, estou a sonhar, grande porra!

 

Bernardete Costa, 2017

publicado por Bernardete Costa às 20:28

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Domingo, 22 de Janeiro de 2017

TARDE DE MAIS

 

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Tarde de mais

 

Cheguei. Algum dia chegaria, creio que to prometi da última vez que te vi. Avancei ainda a tempo de depositar um beijo na tua fronte fria e lisa. Como estás bonita, a neve coroando-te o rosto estranhamente rosado, o corpo firme, robusto, deitado no teu último leito. Sabes, não vou pedir-te que me desculpes desta hora tardia, eu sei que te prometi voltar, e até sei que me reconheceste, “sim, és tu, a minha afilhada”, disseste e sorriste radiosa, cavando-se na tua face aquelas covinhas que fizeram o meu fascínio de criança. Porém, se me reconheceste, se entraste num tempo idêntico e num mesmo espaço, logo partiste para esse outro mundo que construíras, que era só teu, que te pertencia, onde somente cabiam os teus monólogos, as tuas cantigas, os teus risos...

Passei muito tempo sem te ver, escudei-me - sei que egoísta e vergonhosamente - no facto de te saber ausente deste mundo a que pertenço. Um mundo feito à medida dos meus passos, de atitudes clarividentes (quão suspeita esta afirmação!), de realizações, de conivência com outros que, considero, consideram-se, normais. No entanto, repara, não há remorso que faça emergir ao meu olhar uma pequena lágrima. Gostaria de poder chorar como convém nestas situações de perda, mas não o faço. Olho-te e sei que me compreendes e, porque não dizê-lo, sinto-me feliz por poder gravar a tua imagem, assim bonita, no meu coração e por ainda chegar a tempo; feliz pelo reencontro que, já frente à igreja, tive com os primos, os teus inúmeros filhos. Foi com os olhos humedecidos pelas recordações boas de uma infância partilhada, com sorrisos radiantes que nos abraçámos (vê como facilmente, então, as lágrimas me ocorreram, já tu o dizias “tens as lágrimas no primeiro andar”) e reatámos o calor dum tempo que não quero perder.

Eles cá permanecem. Tu acabas de partir. Será que o teu espírito voga sobre nós, sorri radiante da expectativa de uma eternidade em que acreditavas? Sim, vejo-te e desejaria possuir a tua fé, a crença nos teus anjos, nos santos, no Deus que trazias dentro de ti. E, se acredito que assim seja, é só porque povoas a minha memória antiga com gargalhadas e risos; porque me ficaste, e ficas, pelo halo de doçura, da ternura desmedida, da jovialidade com que rolavas connosco pelo chão, brincavas como se outra criança fosses; pela paciência e dedicação com que recebias o teu marido, depois da costumada e longa ausência. Ele chegava calado, nada justificava e tu o recebias como se houvesse partido de manhãzinha. E sabias que logo abalaria, para tardar a voltar.

Tão criança ainda, não cabia em mim qualquer discernimento de amores e desamores. De relações de conjugalidade. Apenas sentia a ausência, bastante, de quem te devia afeto e companhia. Afinal, a transportar para a tua vida uma outra ausência, da criança que eu era. Desconhecedora da exigência da vida perante um rancho de filhos.

Assim foste pai e mãe. Arcaste com a duplicidade de tarefas que competia partilhares com outrem. E ainda te sobrou tempo para acolheres no seio familiar esta tua afilhada que teima em crer que ainda existes “corpo e alma” como gostavas de dizer, porque te vejo aí.

 Talvez, devassando a boa recordação que me deixaste eu tente acreditar que, para além de ti, matéria física, perecível, algo mais exista. Talvez seja essa alma que enchia duma luz abnegada a tua vida solitária. Sei que se o pudesses fazer o negavas “não, solitária não, tinha-vos a todos”. Mas, madrinha, será que todo o amor que te demos, substituiu a ausência do grande amor da tua existência? Como suportou o teu corpo de mulher os imensos apelos duma vida que pressentia cheia de ardor e de vivacidade? Só agora, que aí estás, tão hirta e silenciosa como nunca o foste, sinto através deste solilóquio mudo que talvez te pudesse ter sido útil noutros tempos, num outro espaço. Ou não? Há dores que, quando adormecidas, deixam de magoar, parece que cicatrizam, que até inexistem. Creio que foi o que aconteceu contigo. Sublimaste-as sem recalcamentos, sem te violentares nem te humilhares, e seguiste um rumo que não traçaste, que porventura nunca sonharas em teu tempo adolescente. Como saber? Divagando, tento adivinhar através de uma outra mulher que sou, a dolorosa sensação de uma solidão que não forjaste.

Agora, tudo acabou para ti. Mas terá efectivamente acabado? Nunca mais ouvirei os teus risos, a tua cantoria, os teus monólogos sem sentido, jamais verei o balancear do teu corpo ao longo do dia, os teus gestos indecisos, o teu olhar mortiço. Porém, dir-me-ias se pudesses, que a tua alma caminha para Deus. Acredito que contigo assim seja: não podes deixar meramente de existir! Ficarás vogando entre as minhas mais saudosas recordações, e se esse teu Deus e esse paraíso pelos quais tantas vezes apelaste existem, se esse Deus quantas vezes invocado domina sobre os espíritos, para Ele caminharás, indubitavelmente.

 

 

Bernardete Costa

 

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 21:20

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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017

NO MEU TEMPO...

 

No meu tempo…
Que pérfido começo para uma narrativa quer se trate dum conto, duma crónica, quer dum artigo de opinião…
No entanto, convenhamos, esta noção temporal empurra-nos para uma determinada ação situada num tempo mais ou menos preciso, o meu, o da minha geração, aquele em que se alapam as memórias mais idealistas, mais líricas, mais coloridas, mais inocentes.
Obviamente, reconheço que todos os tempos são tempos com grandes similitudes.
Ainda assim, a tentação de aqui espelhar algumas diferenças é enorme.
No meu tempo sofria-se de solidão que se comprazia nas páginas dum livro, "morria-se" de tristeza por amor… e vivia-se loucamente, minuto a minuto, sugando até ao tutano o que de bom a vida ofertava - o sexo era o objectivo romântico a concretizar, nunca o princípio para a gravidez dos afetos.
No meu tempo, quando a solidão pesava, reunia-se em grupos de café, em tertúlias, em bailes, onde os corpos se enlaçavam e consentiam emoções e sensações idílicas, quantas vezes consentidas, quantas vezes proibidas.
No meu tempo as pessoas prezavam estar juntas. Trocavam experiências, conhecimentos, vivências, deliciavam-se com música que embalava o corpo e a alma. Tinham ideias, eram voluntários na construção dum mundo melhor. A idealidade, ainda que remetida ao espartilho da utopia, orientava-lhes os passos, norteava-lhes a vida.
No meu tempo vivia-se com pouco, o pouco nos satisfazia, o ser dominava o ter.
Hoje a solidão curte-se em bares e discotecas exíguas e fumacentas sob o som manuseado pelos DJS, numa asfixia de espaço e de ar; lugares altamente perigosos, onde os corpos suados exalam hormonas a transpirarem shotes e cerveja. Vive-se… e até se morre nestas tumbas à superfície da terra. E é-se feliz “micando” companhia por uma noite.
Hoje não se conversa, grita-se para que algo escape por entre o inferno duma música metálica e composta em computador. Grita-se e gesticula-se no vazio ideológico. Vive-se para o sexo destruindo a sua beleza, banalizando-o.
Hoje encarreira-se pelos lugares in frequentados pelas celebridades das revistas cor-de-rosa e esboça-se sorrisos dissimulados para a fotografia.
Hoje sofre-se de uma solidão alienada. Homens e mulheres procuram-se como sempre o fizeram, ou não fossemos todos bichos, mas camuflando o ser numa agonia de ideias, num vazio de alma, acorrentados ao domínio do supérfluo, do imediato, da conquista fácil…
Hoje dispensam-se praticamente os livros e as palavras estão em demodé. Tudo o que faz pensar é um alvo a abater!
Sendo certo que hoje os tempos são outros, no entanto com aprazimento o digo em relação às novas tecnologias, que abriram outros horizontes, à escolaridade obrigatória até ao décimo segundo ano, ao serviço nacional de saúde, à facilidade em nos locomovermos rapidamente dum lado para outro... ; tudo é mais fácil de conseguir (o simplex ainda vigora, creio...), tudo se encontra ao alcance da mão usando um computador e a Internet, e os serviços públicos respondem rápido e eficientemente (malgrado alguma burocracia que alguns mais papistas que o papa se empenham em fazer prevalecer) e muito mais que em muito nos facilita a vida.
Hoje chamam-me cota. Mas sou infinitamente feliz por o ser e ainda deter alguma capacidade de lógica. Sou uma espécie em vias de extinção. Vivo numa solidão de livros, de palavras e de poucas amizades. Porque ainda não desisti de ser eu própria. Porque quero ser eu a puxar pelos cordelinhos da vida que traço…
Pelo menos esforço-me.


Bernardete Costa

 
 
 
publicado por Bernardete Costa às 18:22

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