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Quinta-feira, 23 de Março de 2017

A POESIA NA ESCOLA DE ABAÇÃO, GUIMARÃES

 No passado dia 9 de março, tive o grato prazer de apresentar o meu livro "A Luz dos Animais e das Coisas" aos meninos do Agrupamento de Escolas de Abação, Guimarães.

Falámos de poesia, da linguagem poética, trocando palavras e leituras. Um público escolar muito novinho e muito interessado  e atento ao livro, ainda! Simpáticos, estes meninos, assim como os seus docentes, não esquecendo a Professora Isabel, bibliotecária, a quem devo o amável convite, na pessoa do meu editor, Antunes Livreiros.

Uma surpresa muito agradável foi o "encontro" com o insigne escritor Raul Brandão, que estava a ser homenageado por este Agrupamento pelos seus 150 anos de vida, tendo em conta as suas ligações com a cidade vimanarense, onde viveu e acabou por falecer.

Assim ficou registado na minha memória mais um mês, por excelência, dedicado à poesia. Junto de crianças, como muito me sensibliliza!

 

publicado por Bernardete Costa às 16:59

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Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

ÓDIO

 

A morte a destempo. Não fora um acidente fortuito, uma doença imprevista, uma congestão alimentar… Não identificava o motivo, apenas se focalizava na violência. Uma enorme adaga cortava em pedaços o corpo. Alguém exercia a crueldade gerada por um ódio inexplicável. Sentia esse ódio mesmo que não identificasse as razões. Ódio puro. Irracional. O mundo estava possuído pela raiva como se todos os homens fossem meras feras. A humanidade destituía-se de sentimentos. Nem a maldade lhe era bastante.  Porque por vezes a caminho ou a meio caminho da maldade, surge o arrependimento, um qualquer estremecer que alivia a morte. Ainda que sempre morte. Mas não, a adaga cortava com precisão e sem qualquer hesitação aquele corpo em grandes sulcos de carne sanguinolenta.  E ela, como que aprisionada por forças inconcebíveis, mesmo diabólicas, não conseguia soltar um grito a pedir socorro. Apenas aquele demónio na garganta, uma dor tamanha que a arranhava e a sufocava.

Quando ao longe, os seus braços enormes se abriram vagarosamente. Olhou-o entre incrédula e confiante. Não se mexeu. A dor paralisava-a. No seu campo de visão persistia o corpo retalhado, e alguém o esfaqueava uma vez após outra. Ele chegou-se perto. Tão terno, tão tranquilo. Como se aquele ódio, aquela violência, aquele mundo de feras fosse uma enorme mentira. Como se aquele mundo fosse um sonho mau e horrível. Ela apenas teve forças para se aninhar nos seus braços. Neles sentiu toda a doçura da esperança.

publicado por Bernardete Costa às 19:23

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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2017

SORRISO

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sorriso

 

vi-te sorrir e o mundo triste mentia

não há sorriso assim um sorriso a florir permanente

neste mundo o sorriso chora tanta vez

esconde-se na raiz da boca e mente

… com desfaçatez

 

vi-te sorrir e li o teu rosto a tua alma

 

não havia pecado no teu sorriso.  

o sorriso te vestia mesmo na fala breve

na prenhez do corpo da hipocrisia

teu sorriso mistério leve

 ...por isso tanto me seduzia.

 

vi-te sorrir e li o teu rosto a tua alma

vi-te sorrir e o mundo triste mentia

 

o teu sorriso a refletir o cântico do céu 

a colorir a friagem do inverno a exalar perfume

dos lúbricos pântanos da tristeza

 

e se deus existe para além da descrença

 se deus persiste na lama lavada do teu sorrir

apenas a ausência de tal beleza sorri

 à negrura do meu vestido.

 

Bernardete Costa

 

 (foto tirada da net)

publicado por Bernardete Costa às 17:01

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LUXÚRIA

 

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Sente a virtude da nudez

na poesia da pele, licita natura em êxtase

 

toca- a no desejo que a toma

e desce pelo abismo tremente do beijo

secreta volúpia que suspira e perdura

 

toma-a, ou toma o que dela se te oferece

e qual carícia em seus cabelos acolhida

serás vertigem num rosto sem cor.

 

derrama teu sufoco mulher e sacia a fome

neste teu sem nome

oferta mais singela

 que ao olhar se não revela

 

e tuas mãos irmãs no delíquio dos anseios

colhem nuvens de beijos

compondo no céu o adiamento da espera.

 

Quem sabe do teu rosto para a censura

o fogo da luxúria a chama do entardecer?

 

Tal é o segredo no clamor da carne

mas nas vestes da pintura és seda és sede

veemente apelo de amor.

 

 

Bernardete Costa

 

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 16:37

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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017

BORRASCA DA GROSSA

 

BORRASCA DA GROSSA

 

O sol despenhava-se no horizonte como a luminescência dum tesouro, de tal forma que não enxergava praticamente nada; apenas uma névoa rútila e os contornos dos barcos adornados nas areias a aguardar que a cegueira da luz esmorecesse na noite que se aproximava.

 

Cegueira foi a vida de madame Silva. Casara com um advogado de renome na cidade de província para onde foram residir após as núpcias. Burgo acolhedor, casario branco a bordar ruas e avenidas, apenas 4 andares acima da cota soleira; por vezes, as chuvas a gorgolejar pelos telhados de ardósia e de telha portuguesa e os ventos a brincar numa fúria de nortada descarando a ondulação ribeirinha; e quantas, o sol, magnificente, a beijar o espelho do rio, ou então escondido nas sombras terríficas da tempestade que se aproxima, como agora, a espreitar com seu olhar de fogo por entre a leveza de nuvens mansas que persistem a sossegar as gentes do povoado, a sossegar numa manhã traiçoeira os pescadores que

 

amanhã, vamos ao mar

 

Madame Silva, de seu nome de casada e bem casada, aventurava-se indiferente pela vizinhança bisbilhoteira e percorria-a numa solidão aprazível - notava-se pelo sorriso que esboçava deixando entrever os dentes pequenos e brancos, e também pelo cantarolar de modinhas que soprava por entre os lábios húmidos e apetitosos, ainda.

Deambulava pela avenida, num desses fins de tarde mágicos, a escutar os pescadores  que perscrutavam aquela tela escarlate a naufragar no elétrico cinza do horizonte

 

amanhã não vamos ao mar

 

Senhor Zé – chamava madame Silva -, tem aí o barco, pode passar-me para a outra margem?

 

Zé das Areias ficou boquiaberto perante o pedido de madame. Conhecia as águas ratoeiras do rio que não possuíam segredos tal qual os dedos de sua mão. Também conhecia o senhor Silva, ainda que não pusesse as mãos no lume por ele. Sabia do feitio amável que exteriorizava e do seu ar bonacheirão de quem pouco se importa com a vida, porque ela vinha-lhe, como é uso dizer, comer-lhe à mão através duma reforma choruda de deputado da assembleia da república; por sua vez, madame não era o tipo de senhora que fizesse tal pedido, era mesmo estranho na pessoa tão alheada da madame, um alheamento simples, é certo, mas sempre alheamento.

Senhor Zé, passa-me para outro lado, insiste madame, perante o mutismo do pescador como se o gato lhe houvesse comido a língua ao almoço.

 

Mas madame, este tempo de acalmia é breve. Logo vem tempestade, não tarda muito. A madame atravessa rio e depois? Quer que a vá buscar? Não sei se o poderei fazer, o meu saber diz-me que vem borrasca…; sabe, a experiencia é o medo!

 

 

Bem, senhor Zé, já sei que tem medo, vou pedir ao…

Madame, interrompe Zé das Areias, eu levo-a…, no entanto a experiência diz-me o quão perigoso é a madame permanecer por aqueles lados, agora que vem tempestade da grossa.

A madame olha-o por entre a vírgula dos olhos cinza de veludo; no seu rosto, parcialmente coberto por um largo chapéu, pressente-se um relâmpago de impaciência faiscar no olhar de veludo macio.  Zé olha fascinado a beleza daquele rosto e daquele corpo mal disfarçados pela capa de chuva vermelha e pelo chapéu encarnado. Se fosse uma sereia não seria mais bela, mais sedutora, até a voz lhe soava ao cristal ciciante duma fonte, ele marado a ouvir a fonte e a hesitar…

Vem ou não vem, interpela madame.

De imediato o pescador desamarra o barco do pontão e entra com um salto ágil para o seu interior; toma os remos e, nem ligo o motor, não vale a pena.

Como queira, desde que me leve para o outro lado; e a mulher salta graciosa para a embarcação.

Por longos momentos apenas se ouve o chap chap dos remos a bater na escureza profunda das águas, depois a areia a riscar a madeira lodosa, depois a água numa onda suave a beijar o casco.

Eis-nos senhora. Mas veja, ao longe, não é preciso ir à faculdade, vem borrasca e da grossa, diz-me o meu saber, persiste o bom homem no seu conhecimento de vida, experiência também é ciência.

 

Eis quando do meio do pinhal surge uma figura masculina, imponente. Arrasta os pés que impelem areias, e caminha com a decisão de quem quer e sabe o que quer e deseja a posse. Homem e mulher enlaçam-se num beijo a arder desejo. Zé das Areias permanece agarrado ao chão arenoso sem saber o que pensar da cena que se desenrola mesmo à sua frente, sem rebuço, sem disfarce: a madame e aquele cavalheiro, másculo, a colhê-la no encaixe dos seus braços, a madame casada com o senhor Silva, pessoa tão cordial, tão afetiva, a madame a por os cornos ao senhor Silva, assim mesmo, em vernáculo puro, à sua frente, nem

 

adeus senhor Zé, depois vem-me buscar

 

Zé das Areias por respeito e solidariedade com o senhor Silva, recusa aquele testemunho: vira o rosto ao cenário de loucura e de indecência que entrementes se desenrola, salta para o barco, e somente quando pega nos remos ousa levantar o olhar surpreso e indignado:  à sua frente apenas o vazio do pinhal, areal e mar, pois de amantes em amor picado, que sexo explicito era, nada. Raios onde se meteram, exclama num rugido surdo. E a responder nada, apenas pinhal, areia e mar.

Chegado à outra margem, busca refúgio em casa da tempestade ameaçadora que acaba de desabar. As águas rapidamente crescem em seu leito de pedras e lamas, e tudo arrasam à sua passagem. Do lado de lá, a península de areia submerge no sal das águas turvas e revoltas. O céu colou-se à terra, irmanou-se do mesmo furor através dos ventos que sacodem águas, arbustos, árvores.

Na fúria viril de muitos anos de experiencia em relação conjugal, Zé procura a mulher debaixo das cobertas, tateia brusco a ausência da mulher. E de espanto em espanto vê a capa vermelha e o chapéu encarnado nas costas da cadeira.

Caralho, brada o pescador num assombro infante, estou a sonhar, grande porra!

 

Bernardete Costa, 2017

publicado por Bernardete Costa às 20:28

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Domingo, 22 de Janeiro de 2017

TARDE DE MAIS

 

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Tarde de mais

 

Cheguei. Algum dia chegaria, creio que to prometi da última vez que te vi. Avancei ainda a tempo de depositar um beijo na tua fronte fria e lisa. Como estás bonita, a neve coroando-te o rosto estranhamente rosado, o corpo firme, robusto, deitado no teu último leito. Sabes, não vou pedir-te que me desculpes desta hora tardia, eu sei que te prometi voltar, e até sei que me reconheceste, “sim, és tu, a minha afilhada”, disseste e sorriste radiosa, cavando-se na tua face aquelas covinhas que fizeram o meu fascínio de criança. Porém, se me reconheceste, se entraste num tempo idêntico e num mesmo espaço, logo partiste para esse outro mundo que construíras, que era só teu, que te pertencia, onde somente cabiam os teus monólogos, as tuas cantigas, os teus risos...

Passei muito tempo sem te ver, escudei-me - sei que egoísta e vergonhosamente - no facto de te saber ausente deste mundo a que pertenço. Um mundo feito à medida dos meus passos, de atitudes clarividentes (quão suspeita esta afirmação!), de realizações, de conivência com outros que, considero, consideram-se, normais. No entanto, repara, não há remorso que faça emergir ao meu olhar uma pequena lágrima. Gostaria de poder chorar como convém nestas situações de perda, mas não o faço. Olho-te e sei que me compreendes e, porque não dizê-lo, sinto-me feliz por poder gravar a tua imagem, assim bonita, no meu coração e por ainda chegar a tempo; feliz pelo reencontro que, já frente à igreja, tive com os primos, os teus inúmeros filhos. Foi com os olhos humedecidos pelas recordações boas de uma infância partilhada, com sorrisos radiantes que nos abraçámos (vê como facilmente, então, as lágrimas me ocorreram, já tu o dizias “tens as lágrimas no primeiro andar”) e reatámos o calor dum tempo que não quero perder.

Eles cá permanecem. Tu acabas de partir. Será que o teu espírito voga sobre nós, sorri radiante da expectativa de uma eternidade em que acreditavas? Sim, vejo-te e desejaria possuir a tua fé, a crença nos teus anjos, nos santos, no Deus que trazias dentro de ti. E, se acredito que assim seja, é só porque povoas a minha memória antiga com gargalhadas e risos; porque me ficaste, e ficas, pelo halo de doçura, da ternura desmedida, da jovialidade com que rolavas connosco pelo chão, brincavas como se outra criança fosses; pela paciência e dedicação com que recebias o teu marido, depois da costumada e longa ausência. Ele chegava calado, nada justificava e tu o recebias como se houvesse partido de manhãzinha. E sabias que logo abalaria, para tardar a voltar.

Tão criança ainda, não cabia em mim qualquer discernimento de amores e desamores. De relações de conjugalidade. Apenas sentia a ausência, bastante, de quem te devia afeto e companhia. Afinal, a transportar para a tua vida uma outra ausência, da criança que eu era. Desconhecedora da exigência da vida perante um rancho de filhos.

Assim foste pai e mãe. Arcaste com a duplicidade de tarefas que competia partilhares com outrem. E ainda te sobrou tempo para acolheres no seio familiar esta tua afilhada que teima em crer que ainda existes “corpo e alma” como gostavas de dizer, porque te vejo aí.

 Talvez, devassando a boa recordação que me deixaste eu tente acreditar que, para além de ti, matéria física, perecível, algo mais exista. Talvez seja essa alma que enchia duma luz abnegada a tua vida solitária. Sei que se o pudesses fazer o negavas “não, solitária não, tinha-vos a todos”. Mas, madrinha, será que todo o amor que te demos, substituiu a ausência do grande amor da tua existência? Como suportou o teu corpo de mulher os imensos apelos duma vida que pressentia cheia de ardor e de vivacidade? Só agora, que aí estás, tão hirta e silenciosa como nunca o foste, sinto através deste solilóquio mudo que talvez te pudesse ter sido útil noutros tempos, num outro espaço. Ou não? Há dores que, quando adormecidas, deixam de magoar, parece que cicatrizam, que até inexistem. Creio que foi o que aconteceu contigo. Sublimaste-as sem recalcamentos, sem te violentares nem te humilhares, e seguiste um rumo que não traçaste, que porventura nunca sonharas em teu tempo adolescente. Como saber? Divagando, tento adivinhar através de uma outra mulher que sou, a dolorosa sensação de uma solidão que não forjaste.

Agora, tudo acabou para ti. Mas terá efectivamente acabado? Nunca mais ouvirei os teus risos, a tua cantoria, os teus monólogos sem sentido, jamais verei o balancear do teu corpo ao longo do dia, os teus gestos indecisos, o teu olhar mortiço. Porém, dir-me-ias se pudesses, que a tua alma caminha para Deus. Acredito que contigo assim seja: não podes deixar meramente de existir! Ficarás vogando entre as minhas mais saudosas recordações, e se esse teu Deus e esse paraíso pelos quais tantas vezes apelaste existem, se esse Deus quantas vezes invocado domina sobre os espíritos, para Ele caminharás, indubitavelmente.

 

 

Bernardete Costa

 

 

 

 

publicado por Bernardete Costa às 21:20

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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017

NO MEU TEMPO...

 

No meu tempo…
Que pérfido começo para uma narrativa quer se trate dum conto, duma crónica, quer dum artigo de opinião…
No entanto, convenhamos, esta noção temporal empurra-nos para uma determinada ação situada num tempo mais ou menos preciso, o meu, o da minha geração, aquele em que se alapam as memórias mais idealistas, mais líricas, mais coloridas, mais inocentes.
Obviamente, reconheço que todos os tempos são tempos com grandes similitudes.
Ainda assim, a tentação de aqui espelhar algumas diferenças é enorme.
No meu tempo sofria-se de solidão que se comprazia nas páginas dum livro, "morria-se" de tristeza por amor… e vivia-se loucamente, minuto a minuto, sugando até ao tutano o que de bom a vida ofertava - o sexo era o objectivo romântico a concretizar, nunca o princípio para a gravidez dos afetos.
No meu tempo, quando a solidão pesava, reunia-se em grupos de café, em tertúlias, em bailes, onde os corpos se enlaçavam e consentiam emoções e sensações idílicas, quantas vezes consentidas, quantas vezes proibidas.
No meu tempo as pessoas prezavam estar juntas. Trocavam experiências, conhecimentos, vivências, deliciavam-se com música que embalava o corpo e a alma. Tinham ideias, eram voluntários na construção dum mundo melhor. A idealidade, ainda que remetida ao espartilho da utopia, orientava-lhes os passos, norteava-lhes a vida.
No meu tempo vivia-se com pouco, o pouco nos satisfazia, o ser dominava o ter.
Hoje a solidão curte-se em bares e discotecas exíguas e fumacentas sob o som manuseado pelos DJS, numa asfixia de espaço e de ar; lugares altamente perigosos, onde os corpos suados exalam hormonas a transpirarem shotes e cerveja. Vive-se… e até se morre nestas tumbas à superfície da terra. E é-se feliz “micando” companhia por uma noite.
Hoje não se conversa, grita-se para que algo escape por entre o inferno duma música metálica e composta em computador. Grita-se e gesticula-se no vazio ideológico. Vive-se para o sexo destruindo a sua beleza, banalizando-o.
Hoje encarreira-se pelos lugares in frequentados pelas celebridades das revistas cor-de-rosa e esboça-se sorrisos dissimulados para a fotografia.
Hoje sofre-se de uma solidão alienada. Homens e mulheres procuram-se como sempre o fizeram, ou não fossemos todos bichos, mas camuflando o ser numa agonia de ideias, num vazio de alma, acorrentados ao domínio do supérfluo, do imediato, da conquista fácil…
Hoje dispensam-se praticamente os livros e as palavras estão em demodé. Tudo o que faz pensar é um alvo a abater!
Sendo certo que hoje os tempos são outros, no entanto com aprazimento o digo em relação às novas tecnologias, que abriram outros horizontes, à escolaridade obrigatória até ao décimo segundo ano, ao serviço nacional de saúde, à facilidade em nos locomovermos rapidamente dum lado para outro... ; tudo é mais fácil de conseguir (o simplex ainda vigora, creio...), tudo se encontra ao alcance da mão usando um computador e a Internet, e os serviços públicos respondem rápido e eficientemente (malgrado alguma burocracia que alguns mais papistas que o papa se empenham em fazer prevalecer) e muito mais que em muito nos facilita a vida.
Hoje chamam-me cota. Mas sou infinitamente feliz por o ser e ainda deter alguma capacidade de lógica. Sou uma espécie em vias de extinção. Vivo numa solidão de livros, de palavras e de poucas amizades. Porque ainda não desisti de ser eu própria. Porque quero ser eu a puxar pelos cordelinhos da vida que traço…
Pelo menos esforço-me.


Bernardete Costa

 
 
 
publicado por Bernardete Costa às 18:22

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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

“EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É REI”

 

“EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É REI”

 

Um sol de vapor ardente vestia a hora de meio-dia, naquele sábado.

Gabriel atirava à imobilidade sufocante do verão uma agressiva gargalhada. Com efeito, ele previa, com algum cinismo, a pacatez amorfa dos seus companheiros, sempre que lhes procurava abrir os olhos e os ouvidos para o drama dum mundo prestes a sucumbir.

Era uma constante quando que se encontrava com o seu grupo de café: conversa puxa conversa, e do trivial enviesava-se pela política, ou por temas fraturantes que ameaçavam o mundo e a civilização europeia em particular; sempre com indignação a sublinhar o seu discurso, Gabriel invadia encalmado aquele espaço sonolento ao ponto de Carlos, o proprietário, de rosto rubicundo, aludir com o silêncio do olhar quem no seu ledo sossego se comprazia na leituras de jornais, na feitura de palavras cruzadas, no desafio do sudoku…

Luana, com um brilho foliáceo nos seus olhos verdes, lançava a voz para o companheiro elevando-a sobre as demais:

- Deixa-te de silogismos ou de gritos de razão… - Sabia a que Gabriel se expunha com tal diatribe - Que raio de mania de remar contra a maré. Falas com a imponderabilidade dum louco… ou dum poeta.

- Interessante o que dizes, Luana, logo tu - resmunga Gabriel. - Mas reconhece, ainda que loucos, os poetas, são eles que dão chicotadas de luz na escuridão!

- Querido, eu só quero que te acalmes, ainda te dá uma apoplexia! - e Luana, simultaneamente que num gesto mole lhe acaricia o rosto por barbear, alega: – Com efeito, trata-se de uma confraria secreta de alquimistas a conspirar nas costas do mundo. Detém o poder que lhes confere a usura…

- Efetivamente, mas eu sei pelo menos o que está errado no mundo - interrompe Gabriel, agradecendo a cumplicidade da amiga com a ternura rápida dum olhar.

Por sua vez, Almeirinha, encolhido num refúgio de sombra, diz na sua voz suave de quem está de bem com tudo e com todos:

- Reconheço que, por mais errado que esteja, não o podemos mudar. Muitas das coisas más do mundo não eram assim tão más até alguém as modificar - realça com alguma timidez. E de alguma forma satisfeito com a facúndia retirada de algum livro que lera, levanta-se e sai como uma silhueta a evaporar-se na tarde fumegante de sol.

- Desiste, pá, volta costas à realidade… Cagarolas…! - explode Gabriel, enquanto a figura de Almeirinha  se dilui pela rua. Depois, com uma tranquilidade forçada, sente o apelo de Carlos, que com o dedo nos lábios pede que baixe a voz, continua:

 -  Eu não sou melhor do que qualquer um de vós, só estou mais atento, porra!; vejo para além dessa muralha que eles continuam a erguer dia a dia que passa - e num exaltamento crescente - Eles não desistem, eles estão por aí. Parasitas, sugando-nos a pele, roendo-nos os ossos até ao tutano! O que nos acontece, é que permitimos, com a preguiça duma lesma e a mente dum caracol, a supressão da indignação e de exame. Vivemos formatados, a única realidade é aquela em que estão empenhados; sentimos, vemos e ouvimos da forma que melhor serve os seus interesses. E digo-vos mais - acrescenta com desdém e elevando de novo o tom de voz -, a comunicação social detém o maior poder, comandantes bárbaros dum exército de idiotas. E sabem quem os domina, quem os sustenta? Eles, sob o disfarce da virtude propalada até ao ridículo. Mas nem todos somos burros com palas nas orelhas…

Manuel Maria, por sua vez, levanta o olhar mortiço dos jornais:  - Que mal têm os jornais? Eu pelo menos leio alguma coisa, são jornais, pois então, mas sei do que se passa por esse mundo fora. Enquanto tu, Gabriel…

- Eu! -  corta desabrido o amigo - Nem perco tempo com eles. Que verdade, que ética jornalística, que merda informativa: manipulação é o que é, lavagem ao cérebro…; simples fogachos de palavras e imagens, armadilhas para incautos, o que parece não é, e o que é não parece.

A mão ligeira de Luana acaricia o cocuruto do companheiro, contemporizando:

- Ele tem razão, amigos. É só investigar quem são os donos da comunicação social. Todos ou quase todos disfarçados, difícil detetar-lhes a origem…

- Manuel Maria, acorda! - persiste Gabriel com agressividade a aflorar a todos os poros da pele - Quando deres por ela comem-te as papas na cabeça. Pesquisa, descobre o “traseiro” dos gajos.

- Bem, interpela Luana, vê se te acalmas e tem tento na língua, ainda arranjas sarna para te coçar!

- Venham eles, venham eles! – gesticula Gabriel tonitruante. Somos uns idiotas, tolos, cegos, e maior cego é aquele que não quer ver; e com gosto diabólico pela controvérsia, prossegue: - São como uma água de mina infiltrando-se gota a gota nas mentes, distorcendo valores, descaracterizando sociedades, provocando a aculturação… Assim ninguém dá por eles, e claro, manobram, minam…

- Pois, alucinações, realidades que só tu vês. Ainda gostaria que me provasse por A mais B mais C…- interpela Carlos, já uma fadiga crónica a instalar-se no embaciado dos olhos.

- Queres mais provas? Ousa, levanta o cu, pensa. Se não fosse dramático...

Carlos, querendo colocar alguma sabedoria no calor da dissertação, exclama:

- Bem, não és o único inteligente, eu já verifiquei certas coisas, muitas dessas afirmações que fazes…Porém, não as atiro aos quatro ventos como tu. Sou dado às pacatezes, possuo porta aberta, à menor, aí vem sarilho…

- Eu nem acredito numa vírgula do que dizes – profere agastado Manuel Maria, apontando o dedo em riste a Gabriel. - Teorias da conspiração, e está tudo dito; eu fico-me com o meu sossego, a minha tranquilidade, se quiseres, a minha vida algemada, mas segura, sem riscos desnecessários…

- Porra! - insiste Gabriel - Levanta também o cu, tenta ouvir os silêncios, ler nas entrelinhas, pesquisa, dribla a censura… Ao que parece, tenho a rede dos neurónios mais estimulada, e não como gato por lebre, ora essa!

Luana, tentando refrear os ímpetos, interrompe em tom sereno mas firme:

- Bom, Gabriel tem razão, sei bem quem são os patrões da comunicação social; até mudam de nome os fulanos, além de que ao longo do tempo a história não lhes poupou os epítetos: parasitas, agiotas, especuladores…

- E a banca, e a banca! – interrompe Gabriel gesticulando - Se não fosse dramático…  

- Claro, e gamam-no todo, e nós por aqui, de olhos vendados, a dizer amém, nesta escuridão sem pontapés na luz…, que não sou poeta – acrescenta Luana sorrindo para o companheiro com mal dissimulada ternura.

- Quando menos se esperar - garante Gabriel que retém na sua a mão de Luana - estão em cima de nós. E continuaremos a chiar como ratos, e não esperem que nos pisem os rabos, se é que me entendem!

Carlos levanta-se:

- Por hoje já chega, não adianta nada, não temos poder algum ou como lutar contra eles, tu próprio o dizes, eles dominam. Se assim é…, vamos à nossa vidinha.

- Isso também não - retruca a mulher -, podemos escoicear, dar respostadas…

- Ou mereceremos o vitupério de completos idiotas - interrompe o companheiro - Vencidos mas de cabeça erguida, irra! Pelo menos eles hão de reconhecer que lhe descobrimos a careca, que lhes apontaremos o dedo…, e hão de tremer de susto; um só soldado em La lys fez estremecer os alemães, vencido, mas deu cabo de muitos. Chamaram-lhe o Milhões, tantos os que caíram sob as rajadas da sua metralhadora - assegura Gabriel, enleado numa onda de admiração.

- Ah, a tua eloquência é capaz de aniquilar moscas em voo - enfatiza Luana. Porque não vais para a política? – e mais cordata -  São os tempos de hoje, querido!

Do fundo da sala, uma voz tímida, “os tempos são sempre bons, a gente é que não presta mais”.

 

O casal resolve por fim abandonar aquele espaço de sombras onde a apatia sufoca corpos e mentes. O silêncio caiu desamparado no café. Os poucos que ficaram respiraram de alívio. Para quê conhecerem uma outra realidade… e viver com o susto do imprevisto. Mil vezes preferível o seu cantinho sossegado, onde até a poeira pede licença para entrar.

- É bom saber o que está errado no mundo - alvitra alguém a medo.

As ruas, submergidas por uma neblina ardente de fazer suar os termómetros, acolheram-nos desinteressadas.

Luana e Gabriel caminham lado a lado num mutismo cúmplice. Entretanto, Luana interrompe o sossego dos seus pensamentos, explanando:

- De pouco ou de nada valem as nossas palavras; depois, são tantas as mentiras, a crueldade dessas mentiras propagandeadas até à exaustão em falsas  imagens…, as distorções dos acontecimentos! A realidade é como uma espada de Dâmocles, nem todos se apercebem do perigo iminente.

Gabriel, pegando num gesto doce a mão de Luana, vira-se para ela e retruca, insubmisso:

 - Mas o que mais me irrita é dizerem-se “os eleitos”! E o resto uma trampa, milhões de seres humanos, visco, merda pura. Óbvio, os americanos, os grandes culpados, dão-lhes toda a cobertura… Hipócritas, ou idiotas mais do que todos, nem sei, deixam-se abocanhar. Ah, a hipocrisia é outra forma de crueldade.

 - Querido, todavia alguém tem razão quando diz: “a civilização é definida por aquilo que proibimos mais do que por aquilo que permitimos”. Num mundo perfeito todas as pessoas seriam como os gatos às duas da tarde – corrobora conciliadora Luana, tomando o braço do companheiro.

- São as minhas convicções, querida, alimentadas no raciocínio, e com terror sei que as minhas certezas verão a luz do dia, talvez tarde demais para o mundo ocidental. O pior é esta apatia, este deixa correr…, este charco lodoso onde nos afundámos. Sabes bem, os pesadelos duma realidade emergente apanharão muita gente desprevenida; talvez em gerações vindouras… Lamento por quem cá fica.

- Eu sei, querido, mas precisas de ter algum cuidado, talvez debaixo deste céu azul não caibamos todos.

- Quero lá saber, que me algemem, que me recolham num fundo cavernoso, que me estripem a luz; a maior luminosidade é o meu discernimento, não me deixo alienar - gesticula com o desamparo dos braços.

- Então, vamos os dois, amor. E num amuo de gata, não estejas zangado comigo…

- Nunca, amor, e com um sorriso morno, se eu pudesse dava-te agora um trio de rosas.

Luana arremessou ao sufoco da tarde uma risada cristalina.  - O que mais me delicia em ti… é essa transmutação.

Gabriel para olhando-a com o musgo doce do olhar, para acrescentar de seguida com teimosia: - É execrável, a banca, os média, os seguros…e até o cinema, vê lá…, descobre-os, estão todos lá, lobos com pele de cordeiro, estás a ver…

- Acalma-te, acabas por endurecer o coração…

- Mortos. Fuzilados, todos, vão prá puta que os pariu! Mas a culpa é nossa, cambada de mentecaptos - e com ódio a sair pelas órbitas - Em terra de cego quem tem um olho é rei – e acrescenta -  Mas a minha raiva nada tem a ver contigo, meu amor.

Ouve-se um grito de gente, um eco de medo, o pavor salta dos inúmeros olhares que se fixam no casal enlaçado. Distraído pelo amor que os une. O veículo de reluzente negrura não trava.

 

Bernardete Costa (2014)

 

publicado por Bernardete Costa às 21:46

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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

HOMENS IMPRUDENTEMENTE POÉTICOS

 

Permitam-me um segredo! Não bem um segredo. Já o contei a algumas pessoas. Que disseram, isso não é segredo, é uma coisa, assim, muito pateta. Então, vou contar-vos uma coisa mesmo e muito pateta: Andava a ler “Os homens imprudentemente poéticos”, de Valter Hugo Mãe. O livro pertencia à biblioteca. O livro rejeitava deixar-me desacompanhada. Porque assim me senti quando o fui entregar. Já fora do prazo.
Não vos vou explicar a razão do meu desacompanhamento, dava algum trabalho. A mim a escrever e a vocês a ler as minhas palavras. Apenas vos digo que fiz o que entendi melhor fazer. Comprei o livro.
Não me sinto mais desacompanhada. Nunca um outro livro fez esse efeito em mim. Talvez algo parecido. Mas não tanto. Sou mesmo pateta, talvez, mas sinto-me “imprudentemente” feliz quando releio, ainda que só uma frase, ao calhas, de trás para a frente da frente para trás…
Quanto a mim, um livro que não se separa de mim, porque eu não me separo dele, é um bom livro, melhor, um livro mágico!

Fiquem bem, e não se sintam desacompanhados. Um livro por perto aguarda-vos...

valter.jpg

 

 

publicado por Bernardete Costa às 18:43

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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2016

A MINHA JANELA

 

publicado por Bernardete Costa às 20:31

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