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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2017

NO MEU TEMPO...

 

No meu tempo…
Que pérfido começo para uma narrativa quer se trate dum conto, duma crónica, quer dum artigo de opinião…
No entanto, convenhamos, esta noção temporal empurra-nos para uma determinada ação situada num tempo mais ou menos preciso, o meu, o da minha geração, aquele em que se alapam as memórias mais idealistas, mais líricas, mais coloridas, mais inocentes.
Obviamente, reconheço que todos os tempos são tempos com grandes similitudes.
Ainda assim, a tentação de aqui espelhar algumas diferenças é enorme.
No meu tempo sofria-se de solidão que se comprazia nas páginas dum livro, "morria-se" de tristeza por amor… e vivia-se loucamente, minuto a minuto, sugando até ao tutano o que de bom a vida ofertava - o sexo era o objectivo romântico a concretizar, nunca o princípio para a gravidez dos afetos.
No meu tempo, quando a solidão pesava, reunia-se em grupos de café, em tertúlias, em bailes, onde os corpos se enlaçavam e consentiam emoções e sensações idílicas, quantas vezes consentidas, quantas vezes proibidas.
No meu tempo as pessoas prezavam estar juntas. Trocavam experiências, conhecimentos, vivências, deliciavam-se com música que embalava o corpo e a alma. Tinham ideias, eram voluntários na construção dum mundo melhor. A idealidade, ainda que remetida ao espartilho da utopia, orientava-lhes os passos, norteava-lhes a vida.
No meu tempo vivia-se com pouco, o pouco nos satisfazia, o ser dominava o ter.
Hoje a solidão curte-se em bares e discotecas exíguas e fumacentas sob o som manuseado pelos DJS, numa asfixia de espaço e de ar; lugares altamente perigosos, onde os corpos suados exalam hormonas a transpirarem shotes e cerveja. Vive-se… e até se morre nestas tumbas à superfície da terra. E é-se feliz “micando” companhia por uma noite.
Hoje não se conversa, grita-se para que algo escape por entre o inferno duma música metálica e composta em computador. Grita-se e gesticula-se no vazio ideológico. Vive-se para o sexo destruindo a sua beleza, banalizando-o.
Hoje encarreira-se pelos lugares in frequentados pelas celebridades das revistas cor-de-rosa e esboça-se sorrisos dissimulados para a fotografia.
Hoje sofre-se de uma solidão alienada. Homens e mulheres procuram-se como sempre o fizeram, ou não fossemos todos bichos, mas camuflando o ser numa agonia de ideias, num vazio de alma, acorrentados ao domínio do supérfluo, do imediato, da conquista fácil…
Hoje dispensam-se praticamente os livros e as palavras estão em demodé. Tudo o que faz pensar é um alvo a abater!
Sendo certo que hoje os tempos são outros, no entanto com aprazimento o digo em relação às novas tecnologias, que abriram outros horizontes, à escolaridade obrigatória até ao décimo segundo ano, ao serviço nacional de saúde, à facilidade em nos locomovermos rapidamente dum lado para outro... ; tudo é mais fácil de conseguir (o simplex ainda vigora, creio...), tudo se encontra ao alcance da mão usando um computador e a Internet, e os serviços públicos respondem rápido e eficientemente (malgrado alguma burocracia que alguns mais papistas que o papa se empenham em fazer prevalecer) e muito mais que em muito nos facilita a vida.
Hoje chamam-me cota. Mas sou infinitamente feliz por o ser e ainda deter alguma capacidade de lógica. Sou uma espécie em vias de extinção. Vivo numa solidão de livros, de palavras e de poucas amizades. Porque ainda não desisti de ser eu própria. Porque quero ser eu a puxar pelos cordelinhos da vida que traço…
Pelo menos esforço-me.


Bernardete Costa

 
 
 
publicado por Bernardete Costa às 18:22

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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017

“EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É REI”

 

“EM TERRA DE CEGO QUEM TEM UM OLHO É REI”

 

Um sol de vapor ardente vestia a hora de meio-dia, naquele sábado.

Gabriel atirava à imobilidade sufocante do verão uma agressiva gargalhada. Com efeito, ele previa, com algum cinismo, a pacatez amorfa dos seus companheiros, sempre que lhes procurava abrir os olhos e os ouvidos para o drama dum mundo prestes a sucumbir.

Era uma constante quando que se encontrava com o seu grupo de café: conversa puxa conversa, e do trivial enviesava-se pela política, ou por temas fraturantes que ameaçavam o mundo e a civilização europeia em particular; sempre com indignação a sublinhar o seu discurso, Gabriel invadia encalmado aquele espaço sonolento ao ponto de Carlos, o proprietário, de rosto rubicundo, aludir com o silêncio do olhar quem no seu ledo sossego se comprazia na leituras de jornais, na feitura de palavras cruzadas, no desafio do sudoku…

Luana, com um brilho foliáceo nos seus olhos verdes, lançava a voz para o companheiro elevando-a sobre as demais:

- Deixa-te de silogismos ou de gritos de razão… - Sabia a que Gabriel se expunha com tal diatribe - Que raio de mania de remar contra a maré. Falas com a imponderabilidade dum louco… ou dum poeta.

- Interessante o que dizes, Luana, logo tu - resmunga Gabriel. - Mas reconhece, ainda que loucos, os poetas, são eles que dão chicotadas de luz na escuridão!

- Querido, eu só quero que te acalmes, ainda te dá uma apoplexia! - e Luana, simultaneamente que num gesto mole lhe acaricia o rosto por barbear, alega: – Com efeito, trata-se de uma confraria secreta de alquimistas a conspirar nas costas do mundo. Detém o poder que lhes confere a usura…

- Efetivamente, mas eu sei pelo menos o que está errado no mundo - interrompe Gabriel, agradecendo a cumplicidade da amiga com a ternura rápida dum olhar.

Por sua vez, Almeirinha, encolhido num refúgio de sombra, diz na sua voz suave de quem está de bem com tudo e com todos:

- Reconheço que, por mais errado que esteja, não o podemos mudar. Muitas das coisas más do mundo não eram assim tão más até alguém as modificar - realça com alguma timidez. E de alguma forma satisfeito com a facúndia retirada de algum livro que lera, levanta-se e sai como uma silhueta a evaporar-se na tarde fumegante de sol.

- Desiste, pá, volta costas à realidade… Cagarolas…! - explode Gabriel, enquanto a figura de Almeirinha  se dilui pela rua. Depois, com uma tranquilidade forçada, sente o apelo de Carlos, que com o dedo nos lábios pede que baixe a voz, continua:

 -  Eu não sou melhor do que qualquer um de vós, só estou mais atento, porra!; vejo para além dessa muralha que eles continuam a erguer dia a dia que passa - e num exaltamento crescente - Eles não desistem, eles estão por aí. Parasitas, sugando-nos a pele, roendo-nos os ossos até ao tutano! O que nos acontece, é que permitimos, com a preguiça duma lesma e a mente dum caracol, a supressão da indignação e de exame. Vivemos formatados, a única realidade é aquela em que estão empenhados; sentimos, vemos e ouvimos da forma que melhor serve os seus interesses. E digo-vos mais - acrescenta com desdém e elevando de novo o tom de voz -, a comunicação social detém o maior poder, comandantes bárbaros dum exército de idiotas. E sabem quem os domina, quem os sustenta? Eles, sob o disfarce da virtude propalada até ao ridículo. Mas nem todos somos burros com palas nas orelhas…

Manuel Maria, por sua vez, levanta o olhar mortiço dos jornais:  - Que mal têm os jornais? Eu pelo menos leio alguma coisa, são jornais, pois então, mas sei do que se passa por esse mundo fora. Enquanto tu, Gabriel…

- Eu! -  corta desabrido o amigo - Nem perco tempo com eles. Que verdade, que ética jornalística, que merda informativa: manipulação é o que é, lavagem ao cérebro…; simples fogachos de palavras e imagens, armadilhas para incautos, o que parece não é, e o que é não parece.

A mão ligeira de Luana acaricia o cocuruto do companheiro, contemporizando:

- Ele tem razão, amigos. É só investigar quem são os donos da comunicação social. Todos ou quase todos disfarçados, difícil detetar-lhes a origem…

- Manuel Maria, acorda! - persiste Gabriel com agressividade a aflorar a todos os poros da pele - Quando deres por ela comem-te as papas na cabeça. Pesquisa, descobre o “traseiro” dos gajos.

- Bem, interpela Luana, vê se te acalmas e tem tento na língua, ainda arranjas sarna para te coçar!

- Venham eles, venham eles! – gesticula Gabriel tonitruante. Somos uns idiotas, tolos, cegos, e maior cego é aquele que não quer ver; e com gosto diabólico pela controvérsia, prossegue: - São como uma água de mina infiltrando-se gota a gota nas mentes, distorcendo valores, descaracterizando sociedades, provocando a aculturação… Assim ninguém dá por eles, e claro, manobram, minam…

- Pois, alucinações, realidades que só tu vês. Ainda gostaria que me provasse por A mais B mais C…- interpela Carlos, já uma fadiga crónica a instalar-se no embaciado dos olhos.

- Queres mais provas? Ousa, levanta o cu, pensa. Se não fosse dramático...

Carlos, querendo colocar alguma sabedoria no calor da dissertação, exclama:

- Bem, não és o único inteligente, eu já verifiquei certas coisas, muitas dessas afirmações que fazes…Porém, não as atiro aos quatro ventos como tu. Sou dado às pacatezes, possuo porta aberta, à menor, aí vem sarilho…

- Eu nem acredito numa vírgula do que dizes – profere agastado Manuel Maria, apontando o dedo em riste a Gabriel. - Teorias da conspiração, e está tudo dito; eu fico-me com o meu sossego, a minha tranquilidade, se quiseres, a minha vida algemada, mas segura, sem riscos desnecessários…

- Porra! - insiste Gabriel - Levanta também o cu, tenta ouvir os silêncios, ler nas entrelinhas, pesquisa, dribla a censura… Ao que parece, tenho a rede dos neurónios mais estimulada, e não como gato por lebre, ora essa!

Luana, tentando refrear os ímpetos, interrompe em tom sereno mas firme:

- Bom, Gabriel tem razão, sei bem quem são os patrões da comunicação social; até mudam de nome os fulanos, além de que ao longo do tempo a história não lhes poupou os epítetos: parasitas, agiotas, especuladores…

- E a banca, e a banca! – interrompe Gabriel gesticulando - Se não fosse dramático…  

- Claro, e gamam-no todo, e nós por aqui, de olhos vendados, a dizer amém, nesta escuridão sem pontapés na luz…, que não sou poeta – acrescenta Luana sorrindo para o companheiro com mal dissimulada ternura.

- Quando menos se esperar - garante Gabriel que retém na sua a mão de Luana - estão em cima de nós. E continuaremos a chiar como ratos, e não esperem que nos pisem os rabos, se é que me entendem!

Carlos levanta-se:

- Por hoje já chega, não adianta nada, não temos poder algum ou como lutar contra eles, tu próprio o dizes, eles dominam. Se assim é…, vamos à nossa vidinha.

- Isso também não - retruca a mulher -, podemos escoicear, dar respostadas…

- Ou mereceremos o vitupério de completos idiotas - interrompe o companheiro - Vencidos mas de cabeça erguida, irra! Pelo menos eles hão de reconhecer que lhe descobrimos a careca, que lhes apontaremos o dedo…, e hão de tremer de susto; um só soldado em La lys fez estremecer os alemães, vencido, mas deu cabo de muitos. Chamaram-lhe o Milhões, tantos os que caíram sob as rajadas da sua metralhadora - assegura Gabriel, enleado numa onda de admiração.

- Ah, a tua eloquência é capaz de aniquilar moscas em voo - enfatiza Luana. Porque não vais para a política? – e mais cordata -  São os tempos de hoje, querido!

Do fundo da sala, uma voz tímida, “os tempos são sempre bons, a gente é que não presta mais”.

 

O casal resolve por fim abandonar aquele espaço de sombras onde a apatia sufoca corpos e mentes. O silêncio caiu desamparado no café. Os poucos que ficaram respiraram de alívio. Para quê conhecerem uma outra realidade… e viver com o susto do imprevisto. Mil vezes preferível o seu cantinho sossegado, onde até a poeira pede licença para entrar.

- É bom saber o que está errado no mundo - alvitra alguém a medo.

As ruas, submergidas por uma neblina ardente de fazer suar os termómetros, acolheram-nos desinteressadas.

Luana e Gabriel caminham lado a lado num mutismo cúmplice. Entretanto, Luana interrompe o sossego dos seus pensamentos, explanando:

- De pouco ou de nada valem as nossas palavras; depois, são tantas as mentiras, a crueldade dessas mentiras propagandeadas até à exaustão em falsas  imagens…, as distorções dos acontecimentos! A realidade é como uma espada de Dâmocles, nem todos se apercebem do perigo iminente.

Gabriel, pegando num gesto doce a mão de Luana, vira-se para ela e retruca, insubmisso:

 - Mas o que mais me irrita é dizerem-se “os eleitos”! E o resto uma trampa, milhões de seres humanos, visco, merda pura. Óbvio, os americanos, os grandes culpados, dão-lhes toda a cobertura… Hipócritas, ou idiotas mais do que todos, nem sei, deixam-se abocanhar. Ah, a hipocrisia é outra forma de crueldade.

 - Querido, todavia alguém tem razão quando diz: “a civilização é definida por aquilo que proibimos mais do que por aquilo que permitimos”. Num mundo perfeito todas as pessoas seriam como os gatos às duas da tarde – corrobora conciliadora Luana, tomando o braço do companheiro.

- São as minhas convicções, querida, alimentadas no raciocínio, e com terror sei que as minhas certezas verão a luz do dia, talvez tarde demais para o mundo ocidental. O pior é esta apatia, este deixa correr…, este charco lodoso onde nos afundámos. Sabes bem, os pesadelos duma realidade emergente apanharão muita gente desprevenida; talvez em gerações vindouras… Lamento por quem cá fica.

- Eu sei, querido, mas precisas de ter algum cuidado, talvez debaixo deste céu azul não caibamos todos.

- Quero lá saber, que me algemem, que me recolham num fundo cavernoso, que me estripem a luz; a maior luminosidade é o meu discernimento, não me deixo alienar - gesticula com o desamparo dos braços.

- Então, vamos os dois, amor. E num amuo de gata, não estejas zangado comigo…

- Nunca, amor, e com um sorriso morno, se eu pudesse dava-te agora um trio de rosas.

Luana arremessou ao sufoco da tarde uma risada cristalina.  - O que mais me delicia em ti… é essa transmutação.

Gabriel para olhando-a com o musgo doce do olhar, para acrescentar de seguida com teimosia: - É execrável, a banca, os média, os seguros…e até o cinema, vê lá…, descobre-os, estão todos lá, lobos com pele de cordeiro, estás a ver…

- Acalma-te, acabas por endurecer o coração…

- Mortos. Fuzilados, todos, vão prá puta que os pariu! Mas a culpa é nossa, cambada de mentecaptos - e com ódio a sair pelas órbitas - Em terra de cego quem tem um olho é rei – e acrescenta -  Mas a minha raiva nada tem a ver contigo, meu amor.

Ouve-se um grito de gente, um eco de medo, o pavor salta dos inúmeros olhares que se fixam no casal enlaçado. Distraído pelo amor que os une. O veículo de reluzente negrura não trava.

 

Bernardete Costa (2014)

 

publicado por Bernardete Costa às 21:46

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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

HOMENS IMPRUDENTEMENTE POÉTICOS

 

Permitam-me um segredo! Não bem um segredo. Já o contei a algumas pessoas. Que disseram, isso não é segredo, é uma coisa, assim, muito pateta. Então, vou contar-vos uma coisa mesmo e muito pateta: Andava a ler “Os homens imprudentemente poéticos”, de Valter Hugo Mãe. O livro pertencia à biblioteca. O livro rejeitava deixar-me desacompanhada. Porque assim me senti quando o fui entregar. Já fora do prazo.
Não vos vou explicar a razão do meu desacompanhamento, dava algum trabalho. A mim a escrever e a vocês a ler as minhas palavras. Apenas vos digo que fiz o que entendi melhor fazer. Comprei o livro.
Não me sinto mais desacompanhada. Nunca um outro livro fez esse efeito em mim. Talvez algo parecido. Mas não tanto. Sou mesmo pateta, talvez, mas sinto-me “imprudentemente” feliz quando releio, ainda que só uma frase, ao calhas, de trás para a frente da frente para trás…
Quanto a mim, um livro que não se separa de mim, porque eu não me separo dele, é um bom livro, melhor, um livro mágico!

Fiquem bem, e não se sintam desacompanhados. Um livro por perto aguarda-vos...

valter.jpg

 

 

publicado por Bernardete Costa às 18:43

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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2016

A MINHA JANELA

 

publicado por Bernardete Costa às 20:31

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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2016

MÁRIO SOARES

 

Este pequeno apontamento: Mário Soares, ex primeiro ministro e ex presidente da República Portuguesa, encontra-se em coma profundo. Normal tendo em conta a proveta idade de 93 anos. Anormais são, quanto a mim, os desaforos que tenho lido aqui e acolá sobre a sua pessoa. Porque denotam uma grande desumanidade... e falta de memória. Independentemente dos erros cometidos, e como qualquer ser humano não terá ficado imune a eles, será recordado como um grande político na História de Portugal que em muito contribuiu para a modernidade da nação portuguesa. Até a "liberdade" de escreverem idiotices e desumanidades de todo o tamanho a ele o devem: é o pai da democracia portuguesa, goste-se ou não!

publicado por Bernardete Costa às 15:58

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Domingo, 18 de Dezembro de 2016

INEM

inem.jpg

Aqui estou, neste fim de tarde estúpido porque uma constipação me atira para a cama!!! E por falar em cama, doenças,… bla´…, ocorre-me uma história que em nada valoriza os serviços do INEM. Melhor, duas.

Em anos passados, caí redonda no chão por via, disse o médico posteriormente, das dores de costas – havia sofrido tempos idos uma luxação muscular, de modo que a maleita se tornara um facto decorrente de quando em vez. A família alertada, não sou de cair no chão por dá cá aquela palha, chamou o INEM. Ao despertar verifiquei que estava paralisada da cinta para cima. E nada de INEM. Para não referir as perguntas idiotas a que os meus familiares foram sujeitos… Não morri. Sabe-se. E de INEM, népia! Foram os bombeiros a socorreram-me e a levarem-me para o hospital.

Mas vamos ao acontecimento que aqui me traz hoje: num almoço convívio de Natal dos alunos duma universidade sénior, um jovem com mais de oitenta anos sentiu-se mal. Acabando por desmaiar nos braços dos colegas que o socorreram. Foi chamado o INEM. Felizmente havia dois médicos presentes que prestaram os primeiros socorros.

Até hoje, decorridos 3 dias, o INEM ainda não chegou! O meu colega está bem, valha-nos a presteza dos colegas médicos e a sua capacidade de recuperação. E se assim não fosse. Se os cuidados hospitalares fossem indispensáveis à vida deste jovem de oitenta e mais anos?

Agora, o INEM surge com algum esplendor mediático pelas piores razões, como sabem. A corrupção alastra, alastra…. Depois destes acontecimentos e muitos outros similares a minha simpatia pelo INEM tem sofrido um rude golpe.

Que a justiça funcione. Fico à espera. E não me quero sentar!

 (Claro, acredito mesmo, haverá histórias simpáticas em que o INEM é o personagem bom, e fico feliz por isso…).

Bernardete Costa

 

publicado por Bernardete Costa às 20:24

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ALLEPO

 

Sabem, meus amigos, ou simples visitantes deste blog:penso em tanto!!! E nem sempre em coisas boas. Porque sei de gente, pessoas inocentes, que vive em guerra por entre a dor, a miséria, a fome...Porque sei de gente, pessoas inocentes, que foge da guerra por entre a dor, a miséria, a fome... Pessoas como eu, crianças como os meus netos, Pessoas cujo único erro foi nascerem num lugar errado, num tempo obsceno de estupidez e ganância.
Sabem, e penso mais: Não acredito que foi assim que Deus quis! E não acredito em preces a Deus e ao seu filho Jesus, que supostamente veio para salvar a humanidade - e não me falem em livre arbítrio! Apenas acredito que a salvação desta gente, destas pessoas, está na mão do Homem. Apenas o Homem tapa os olhos, fecha os ouvidos...e deixa-se corromper pela ambição. O homem não sabe ser o Homem...Somos tão miseráveis. Percebem agora porque não vou nessa de partilhar nas redes sociais "Uma lágrima por Allepo" e outras coisas do género? Por mais que eu chore, que todos choremos, que partilhemos estes chavões que tanto nos acalmam a consciência, a guerra arrasta-se, arrasta-se, arrasta-se...Infelizmente não possuo soluções. Apenas posso aqui deixar este desabafo de fel - que em nada altera a situação apocalíptica desta gente, destas pessoas...

Bernardete Costa

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publicado por Bernardete Costa às 20:11

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Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016

CARAÍBAS - atropelos de uma viagem

 

 

 

           

 

            Atropelos de uma viagem

          

          Era ainda noite cerrada e já o trânsito, nomeadamente o pesado, afluía pela via e prenunciava mais um dia de Verão movimentado, com as devidas consequências para os que, em gozo de férias, percorreriam pacientemente o asfalto à procura duma brisa marítima e de uma clareira rendilhada pela sombra dos pinheiros, onde fosse possível piquenicar com a família, e a traquinice infantil pudesse estar resguardada de eventuais perigos.

          Já dentro do avião - TAP 380 (voo) - Porto – Lisboa, aguarda-se que o aparelho inicie as manobras e levante voo. Neste momento, fecho a torneira do pensamento e recorro à leitura "Eva Luna" de Isabel Allende como forma de fuga aos meus medos.

          O grupo está silencioso. Sobressai o roncar dos motores, simultaneamente com o palrar de uma criança, aqui ao meu lado direito.

            O avião inicia a descida em direção à cidade de Lisboa. Não olho pela janela. Depois do meu batismo de voo nas férias passadas, passou-me um pouco a curiosidade e a capacidade de me deslumbrar com o panorama do manto de nuvens sob o meu olhar, ou com o recortado sinuoso da costa portuguesa. E depois há este ligeiro enjoo que me não larga sempre que o aparelho elabora alguma manobra, descida ou subida.

          Eis-nos no aeroporto de Lisboa que evidência, mais do que nunca, nesta época de veraneio, tráfego aéreo excessivo, talvez a precisar de ampliação urgente! Compro um livro de poesia de Maria Rosário Pedreira. Ótima oportunidade para descobrir esta escritora até então desconhecida para mim. Isolada dos outros, deixo-me levar pela poesia até dimensões impensáveis onde as emoções se quebram entre risos e lágrimas.

          Já dentro do avião Airbus 310 TAP,  a viagem recomeça dando lugar ao eterno encanto quando a visão incide sobre o que se ama: Lisboa,  varina e moça, como diz o poeta, vista do alto: pequenina, arrumada, encantadora! É a vantagem da visão das alturas: desaparecem, como por encanto, as lixeiras, as barracas, a mendicidade, o atropelo rodoviário. Lisboa, adormecida no regaço do Tejo, é agora um ponto arrumado no território português.

          No momento, é um manto denso de algodão que provoca reminiscências da infância: as batalhas de almofadas entre irmãos na fugaz ausência de minha mãe; logo de seguida, o espaço cobre-se de mantos de seda quase transparentes, com rasgos de água azulada: o mar que se funde no horizonte com o azul infinito do céu. Deste lugar virado ao óculo da janela, é azul e branco o que nos cerca; uma sensação plena de tranquilidade, ainda que, de quando em vez, contrariada pelo pensamento catastrófico dum desastre aéreo!

            Depois de muitas horas de voo, o aparelho sobrevoa o destino: uma ilha plana, esta da República Dominicana, onde sobressaem extensos campos de verdura bem demarcados… e casebres, muitos casebres! Muitos servirão de abrigo aos díspares produtos agrícolas, mas a sua maioria, concluirei mais tarde, é a miserável habitação dos autóctones. Adivinha-se com constrangimento a pobreza da população. Todavia, vislumbra-se do alto o aeroporto de linhas modernas e aerodinâmicas. Desoladamente, desorganizado no seu interior; patenteando infra-estruturas precárias. Gente de raça negra e mestiça, aspeto triste e num quase silêncio envergonhado, acorrem pressurosos procurando ajudar os viajantes a troco de uma moeda.

          Segue-se viagem por uma estrada povoada de remendos que me faz recuar ao passado, recordando as vias portuguesas, há uns bons 30 anos. A camioneta, assinalada como turística, evidência muitos anos de árduo trabalho através do seu aspeto ruinoso e desengonçado; outras, porém, vistosas e transpirando modernidade e conforto, são destinadas ao usufruto dos turistas mais desafogados financeiramente; sendo que, a constatação é flagrante: a população desloca-se em transportes complemente obsoletos, amontoada até nos tejadilhos entre cestas e os mais diversos e inesperados artigos!

          Sentindo o calor à mistura com o cansaço, procuro debelar o sono que pretende cerrar-me as pálpebras e vislumbro, por entre a miséria generalizada, zonas turísticas sujeitas a um esmerado tratamento urbanístico e estético. A paisagem envolvente é composta por arvoredo rasteiro, muitas palmeiras, bananeiras aqui e acolá, plantações de cana-de-açúcar, laranjeiras e gado, muito gado alimentando-se dos verdes pastos em que a região é rica.

As povoações são pobres: dominam os casebres já referidos, ou então pseudas habitações, meros cubos de tijolo que têm como telhado o faiscante azul do céu ou o negro da noite pontilhada de estrelas; os passeios são inexistentes, ou na melhor das hipóteses, escaqueirados, e as ruas precariamente pavimentadas ou sem qualquer tipo de pavimentação; muitos dos esgotos correm a céu aberto imperando com o seu odor forte e nauseabundo naquela anarquia urbanística. Ainda assim, aqui e acolá, avistam-se algumas residências ornamentadas por arabescos áureos e protegidas por gradeamento que, praticamente, só deixa livre a porta de entrada da moradia, já que até as varandas e os recintos de lazer são complemente vedados de cima abaixo. Prisões douradas, é a impressão marcante que ficará retida na minha memória.

           

          Consternados pelo passeio noturno, o assombro é geral quando deparamos com as imediações do hotel: num encaixe perfeito com a natureza, isento de muros e de vedações e de grades, rodeado por belíssimos canteiros ajardinados, onde as plantas tropicais - sempre a profusão das palmeiras, como cartão de visita - alternam com arbustos prenhes de flores multicolores – hibiscos na sua maioria -, numa composição que de tão artificial nos exorta  à visão perfeita duma tela naturalista! Aqui e acolá, pontilhando os jardins cuidados, surgem brechas de lodosa floresta, que sombreiam os passeios empedrados orientados nas diversas direções das vivendas, da praia, dos restaurantes, dos lagos, das fontes...Ah!, e a água caindo em cascata é como um fundo musical neste admirável cenário! E projetada pelo mundo do imaginário, um apelo indomável impele-me através daquele espelho líquido até ao País de Alice das Maravilhas!

            O dia acorda cedo e, por entre os reposteiros, os raios atrevidos da claridade cumprimentam convidando-nos à contemplação deste cenário edílico, que nos conduz até à praia de areias macias e brancas como açúcar.

          Logo de manhãzinha, ainda antes do pequeno-almoço - que de pequeno nada tem, já que a profusão de alimentos é tal que contentaria um dia inteiro uma família de 5 pessoas! - o sol chapeia todo o conjunto hoteleiro inundando-o do calor promissor. Depois de um Inverno húmido e gélido em Portugal, sabe bem esta espécie de torreira, que desafia para os inúmeros mergulhos nas águas azuis - esmeralda das Caraíbas.

          Diariamente, sopra um brisa morna que, bem-vinda, arrefece os corpos do ardor deste sol escaldante; algumas nuvens, como se verificará ser vulgar, passageiras e apressadas, mas por vezes carregadas de pesadas gotas de chuva, encobrem esporadicamente a abóbada azul do céu; e desabam com uma força torrencial sobre os incautos passantes que se divertem sob o dilúvio refrescante e imprevisto.

          É, quase sempre, no self-service que tomamos a avantajada refeição primeira: são os frutos tropicais, nomeadamente o abacaxi, (tem a minha preferência), a manga, a papaia….; seguem-se os doces (prefiro a goiabada); os fritos (salsichas, ovos mexidos ou em omeleta, banana frita e outros (nestes não toco); os pãezinhos, as tostas, os queijos, o fiambre...e mais, muito mais que tenho dificuldade em enumerar.

          Parte da manhã é passada na praia, mais precisamente junto ao mar. Esse mar dos guias e postais turísticos: azul e verde, terrivelmente verde e azul!; a praia é extensa e bordada pelo rendilhado das palmeiras carregadas de cocos; e os frágeis pinhos batidos pelo vento, entrelaçam-se no porte esguio daquelas refrescando a extensão assombrosamente branca do areal.

          Na praia, raparigas mestiças - é um povo traçado do índio Taíno com o Africano, todavia existe cruzamento com raças Hispânicas – oferecem, numa graciosidade inerente a esta mestiçagem, nomeadamente nos gestos, no ondear dos corpos, nas mãos expressivas e, indubitavelmente, nos sorrisos alvos, espetadas de frutas dispostas com harmonia num tabuleiro ornamentado com plantas e flores tropicais.

          De noite, holofotes dispersos por entre tufos de plantas coloridas dão uma imagem de sonho ao ambiente - poder-se-á idealizar o país das Maravilhas de Alice, repito!; e no interior dos pequenos espaços de floresta virgem a noite densa e negra carrega um profundo mistério de duendes, fadas, monstros....

          Mas é o povo de sorriso aberto, corpo bamboleante, vibrante de música que transporta dentre de si como parte integrante da sua individualidade, de gestos delicados e sensuais, que mais me cativa. Não é comum verificar obesidade neste povo: são elegantes, cintura flexível; o pessoal servente é praticamente de uma classe etária jovem a contribuir para a jovialidade e a alegria reinantes. É sempre o povo que mais me atrai numa paisagem diferente: e é aqui e agora que conheço o artista e escultor Júlio, Maia de origem, que traz no rosto a marca dos seus antepassados: olhos oblíquos, nariz adunco, boca rasgada, cabelos escuros e lisos, sorriso aberto, dentes alvos a cativar quem o escuta e olha.

            Muitos trabalhadores existem  neste complexo turístico. E impressiona o  vestuário andrajoso, nomeadamente naqueles que se dedicam à limpeza e ao tratamento dos jardins. Fico intrigada com o número de funcionários! Excederão os 200?, os 300?, que ordenado auferirão? Dizem, os jardineiros trabalham de sol a sol, só pela comida! É vê-los silenciosos, o suor escorrendo pelos corpos escuros..., olhando-nos com cobiça (não tenho qualquer dúvida), observando os prazeres de outras vidas que, pelo simples facto de sorte de nascimento, usufruem de toda uma manifesta luxúria, gozando os prazeres de um paraíso ( o seu paraíso) onde lhes é trancada a entrada. É ultrajante! Olhar os pratos repletos de comida que, rejeitados, são abandonados pelas mesas..., sabendo, como tentei indagar, que a fome lhes será mitigada, parcialmente, após 12 a 13 horas consecutivas de trabalho.

          Aqui, dentro do complexo hoteleiro, é ilusória a noção de vida deste povo. Lá fora, a fome desencadeia a violência: de arma na mão, violam, roubam, matam. A grande maioria das crianças vive como animais, abandonadas à sua...sorte, a si próprias, como feras em território virgem: a lei do mais forte é a lei dominante. As jovenzinhas, perante a maturidade precoce dos corpos, aos 11, 12 anos, entregam-se aos instintos da natura, quais animais em ciclo de cio, e copulam, parindo os filhos que entreguem aos mais velhos, ou na ausência destes entregando-os “à boa mãe natureza”. Assim se deixa arrastar este povo moreno, vivendo à sombra do branco; os mais sortudos arranjam  emprego por uns míseros pesos nos postos de gasolina, nos mercados, nos hotéis...Outros, e muitos, principalmente os jovens, é vê-los vagabundeando, montados em motorizadas ferrugentas e decrépitas, de um lado para o outro, numa desocupação e inércia produtiva total! De que vivem? Como sobrevivem?

         

         

          Júlio lá estava laborando no mural da receção, “domingo e a trabalhar”, perguntei-lhe. “Trabalho 366 dias por ano, 28h por dia” diz ele, o que me parece facto comum a quase todos os trabalhadores do complexo hoteleiro. “E a praia, não vai à praia?” “Às 5.00 da manhã, levanto-me e faço o meu passeio matinal” “Então dorme pouco”, digo. O sorriso escancarado, o olhar risonho e a sua máxima “ a noite é para dormir e fazer amor, o dia para viver e fazer amor!”. Boa!, gostei. Dito isto no seu linguarejar, soou ao repenicar de sinos na alvorada! São as gentes, estas gentes com quem vamos travando conhecimento, puxando os fios das nossas emoções, que mais nos atraem, irresistivelmente: Júlio, Simon, Martin, Miguel, Inando, Ian, Júlio, Naomi, Neli, Jaacline são alguns dos nomes que ficarão colados aos limos das nossas memórias, fazendo parte integrante das nostalgias de cada um.

          Ao almoço é já habitual a luxúria alimentar, apreciado mais por uns que por outros. Por mim, batem já umas saudadezinhas duma sopa de legumes, dum cozido com todos...Tentei saborear uma manga: fruto macio, duma doçura suave. Creio que passei a gostar; o melão é rijo e verde; a melância vermelha e suculenta (pena não ser mais fresca); o abacaxi, esse, faz a minha preferência; a laranja e a tangerina são ácidas e intragáveis; a uva é idêntica à nossa; a papaia continua a saber-me a flor!

            Dia de partida.         

          Segue-se a viagem de autocarro até Santo Domingo. Durante três horas, o mesmo percurso já feito aquando da chegada: o estado degradado da via, a pobreza das povoações, as ruas lamacentas pela últimas chuvas, a sujidade, aqui e além os complexos turísticos e algumas vivendas gradeadas, sinais pontuais duma outra civilização, e o verde - a clorofila tomando-nos os sentidos -  pano de fundo da floresta a colorir a pobreza miserabilista da paisagem humana circundante.

          Por fim, devidamente sacudidos pelos balanços do transporte e derreados pelo calor, o ar condicionado já deu o que tinha dar, chegamos ao aeroporto; agora há que aguardar nas sonolentas filas de espera para fazer o check out. É notória a manifesta incompetência de um povo que se inicia nos preâmbulos da civilização. Retirado à praia, ao mar, à sombra revigorante das palmeiras, ao ritmo bamboleante do merengue, à sesta na hora de maior aperto de calor quase tropical, sente-se como peixe fora de água. Em seu abono o sorriso perene no rosto, o negrume do olhar a fazer promessa…, o corpo torcendo-se ao ritmo da música que lhes incendeia o sangue; o prazer simples de agradar, pelo simples prazer de assim ser. Por sua vez, pululam fora das instalações turísticas os esfomeados, sempre na procura de algum peso - obtido pelo trabalho ou pelo roubo - que lhes permita a precária sobrevivência.

            O voo está atrasado. As informações solicitadas são nulas, ninguém sabe de nada, nada é com ninguém. Sabe-se, somente, que o avião não partiu de Caracas. Alguém se apodera do microfone e tenta liderar a situação! “Ficar um dia, dois, três em Santo Domingo, não muito obrigado!” Há um cheirinho a revolução pelo ar! Alguém mais sensato chama à razão os mais exaltados que, curioso, são portugueses. Cada um expõe os seus problemas. Três passageiros entendem-se e lideram o grupo dos “revoltosos” dirigindo-se à administração, a fim de esclarecerem devidamente a insólita situação. As crianças mostram sinais visíveis de cansaço. Um bebé negro chora desalmadamente, creio que picado por insectos...,e a exaltação ameaça crescer: A minha irmã, aflita, chama por mim que, entre curiosa e até divertida, me encontro sitiada entre os “revoltosos”, procurando saborear o inédito com algum toque de aventura e comoção. Elisabete carrega no pedal da emoção física, mais orientada para as sensações preocupantes da fome e da sede que se avizinham.

          Por fim, somos enviados para o hotel Patelle....À chegada, a confusão é ponto de honra. Agora são as malas que se julgam perdidas. Por fim, um funcionário da TAP (o desgraçado pode ser incompetente, mas também não há, hierarquicamente, quem melhor o oriente) procura amenizar a situação (também há cada intransigente!). Até que as bagagens sempre aparecem. São 2.00 da manhã, melhor, é madrugada quando deparamos com os nossos aposentos. Enormes, excessivamente amplos, mas... a cheirarem a mofo que tresanda! O cansaço e o sono impõem o seu ritmo e a noite decorre tranquila e, penso, reparadora para todos.

 

          Chegada ao aeroporto. São visíveis as dificuldades dos funcionários a manusearem os computadores, trabalhando ao ritmo de lesmas. A paciência está pelas bordinhas e há quem embirre comigo afirmando ter chegado primeiro à fila do check out. Olho o rosto da desafiadora e, entre divertida e impositiva, avanço “menina, eu andei na escola”; foi o que me ocorreu no momento, todavia não me sinto orgulhosa, a impaciência faz das suas....Depois, deixo-me enredar pelos acontecimentos e limito-me a sorrir com alguma bonomia.

          Estão a terminar estas férias passadas em ambiente paradisíaco, onde, salvaguardados por uma civilização fictícia, não tomámos contacto real e directo com a vida deste povo sempre tão prestável, acolhedor, sorridente mesmo que, como dizer, incompetente?! Tomara que pudessem estar a salvo da dita civilização! Não creio que ela possa contribuir no seu todo para a  felicidade destas gentes.

          Neste momento, sentados uns, outros vagueando pelas lojas dispersas, aguardamos, mais uma vez, que nos informem sobre o voo 35, direção a Lisboa. Como? Não se sabe nada? Outra vez? Eu sorrio um pouco divertida (não esquecer que ninguém me obrigou a frequentar estes lugares que dizem, e confirmo, paradisíacos); a anarquia é total: um grupo de passageiros portugueses (os mesmos já aqui falados), de livre arbítrio, apodera-se do fax, do microfone e galhofam com a situação decorrente; vêem-se alguns polícias devidamente identificados, que passivos, bem refastelados nas cadeiras, sorriem tolerantes perante o desenrolar insólito dos acontecimentos (insólito?, duvido!). Mais uma vez desaparece do ecrã o voo para Lisboa. Terá chegado o avião? - questiona-se. São 19.30, a grande maioria das pessoas corre em atropelo de encontro à vidraça de onde se pode visualizar os aparelhos aéreos. Lamentável que a educação e a civilização tão apregoadas por alguns neste “processo revolucionário” não sirvam de exemplo a este povo ainda tão rudimentar (como é?, já o disse, diz-se, incivilizado).

          É agora! Soam urros de gozo, de troça, de desalento. Vá lá entender-se o ser humano!...O povo, não digo passageiros propositadamente, enlouqueceu: urram, gritam, batem nos bancos..., o motivo?, chegou o avião da TAP. Agarra--se o fiinho da esperança de embarque imediato. Será?

          Eis-nos dentro do avião, depois de um atraso de 26.30. Que é, que se passa lá atrás? Ah!, pois, duas pessoas a mais no avião. Que será, será? (é favor dizer em espanhol).

          Puf! Sempre se arranjou um cantinho para os dois, como quem diz, dois lugares que sempre existiam...Pobre do comissário, o alvo indesejável do grupo contestatário: sorriso morno, poucas falas, um olhar ligeiramente altivo de quem entende mas não se sente. Trocam-se as últimas palavras com um dos comissários de bordo. Palavras para quê? Uma companhia aérea portuguesa! Ou simplesmente o excessivo trânsito aéreo num mês por excelência de vacaciones? (escrevi bem? Deixem-me espanholizar sempre que penso sabê-lo).

          Bolas!, a partida está emperrada. Continua a existência de gente a mais no aparelho. Bom, uma mãe de raça negra levas filhos sem bilhete, pois é, há muito que havia suspeitado, daquele lugar viria, por certo, a confusão. Fica tudo explicado com uma simples verificação dos bilhetes. Ainda que, duma forma nada convincente, a mãe argumenta ter adquirido bilhetes para todas as crianças. Os ânimos exaltam-se, há quem corra a  fazer de cavaleiro andante da dama ofendida, porém há quem, “não senhor não há direito, levo uma também uma criança, paguei bilhete...”. Ora, agora os braços esticam-se no ar, os corpos tomam posições defensivas e ofensivas e,...não, não é desta (felizmente) que assistimos a uma cena do Farwest - para mais dentro de um avião! Trocam-se os já últimos e gastos galhardetes, uns apelam ao bom senso, uma outra chora de nervosismo, certamente mais sensível a este tipo de desaguisados, parece-me a mim, pouca traquejada nestas andanças internacionais! Há quem se ofereça - ó gente de coração bom! - para abandonar o avião, permitindo a viagem conjunta da mãe e dos filhos. Aleluia!, uma luz surge no fundo do túnel, duas hospedeiras cedem gentis e convenientemente os seus lugares e tudo se resolve a contento de todos.

          São 21.20. Os ânimos serenaram, o avião enche-se de choros de cansaço e de irritação das crianças em viagem. Rumo ao céu negro da noite, no avião Airbus A 310, finalmente!

            Depois das extenuantes e indormidas nove horas de voo, a transferência é imediata para o avião que nos transportará ao Porto. E até lá perdura a expectativa do reencontro familiar a querer impor-se com uma lágrima lamecha no canto do olho; os beijos e abraços, a ternura beijoqueira do meu pequenito, saudades, saudades, pois então, ah!, tantas!

 

 

Bernardete Costa

         

 

publicado por Bernardete Costa às 18:07

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Sábado, 26 de Novembro de 2016

DIAS...

 

 

há dias de incerteza do nascer

e morrer. fico então sem saber das agulhas da tristeza

apenas sei do voo das gaivotas. como elas

grávida de azul e liberdade. dias de estar comigo

sem outro perigo que este inverno

no travo da boca.  como um punhal

cravado fundo no gelo da idade.

 

LIBERDADE.jpg

publicado por Bernardete Costa às 18:32

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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016

RESCALDO DAS ELEIÇÕES NA AMÉRICA

 

Donald-Trump-3.jpg

 

Depois dum acordar tumultuoso e dum dia de ontem num continuum ainda mais caótico no que diz respeito ao meu ser e estar, sendo "uma pessoa fantástica que promete coisas fantásticas", não detenho a originalidade da expressão, como já deduziram, este dia de hoje trouxe-me para a tristeza da chuva e logo de seguida para o fulgor do sol; como dizia, na onda fantasmagórica que ainda me ataca, salvo seja, vejo um trump mesmo fantástico, que de tanto dizer que ia fazer não vai fazer o que disse. E valham-me todos os santos e santas do reino dos céus! Com todos os defeitos que lhe reconheço e me provocam asco, a inteligência ainda lhe ocupa uma quota parte de espaço no cérebro. Muito sucintamente:

Apresentou-se grosso e sem papas na língua a um eleitorado sedento de mudança, farto do socialmente correto, um eleitorado que não crê mais nas promessas que nunca são cumprida. Pelo menos, e terá sido o caso mais flagrante o de Obama, as expectativas do povo americano ficaram muito pela rama. É minha opinião.

Tudo muito certinho, palavras muito bonitas…para muita coisa continuar na mesma. No que concerne à política interna a vontade de Obama não conseguiu ir longe, e no que à política externa diz respeito, uma espécie de subserviência aos poderes instalados – apraz-me aqui referir Israel e a sua hegemonia sobre a Palestina…e não só. O povo que elegeu Obama, o mesmo que agora elegeu trump, melhor, o povo ainda mais dilatado, pretende uma América essencialmente virada para si, uma América em primeiro lugar voltada para a sua interioridade, para o seu povo. (Uma América que não desperdice a riqueza produzida com A e B, o mesmo que dizer, uma América egoísta centrada no seu povo). Afinal, um grande paradoxo, porque muitos e muitas que nele votaram elegeram um homem que prometeu tratá-los abaixo de cão. Aqui se vê que o socialmente correto não funcionou mesmo, o que resultou foi mesmo a paródia aliada à crença, “o gajo é um brincalhão, nada será assim mau como promete ahahaha”.

Não batendo palmas a este trump que me cheirou demasiado a m…., toda a sua postura pós eleitoral é indicadora de alguma reflexão, ou seja, o trump candidato pode mesmo ser, senão o oposto, muito diferente do Trump presidente.

E reitero, que nos valham todos os santos e santas dos céus! Amém!

 

 

publicado por Bernardete Costa às 19:27

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